sábado, 15 de fevereiro de 2014

“Igreja: Carisma e Poder”, de Leonardo Boff.


Nesse artigo faremos feita uma breve avaliação de algumas partes do livro “Igreja: Carisma e Poder”, de Leonardo Boff.

Contudo, é necessário que se percorra o caminho traçado pelo referido autor a fim de melhor compreendermos um pouco de sua vida e obra.

Leonardo Boff nasceu em Concórdia, Santa Catarina, 1938. Cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique, na Alemanha, em 1970. Foi professor de Teologia Sistemática e Ecumênica em Petrópolis, no Instituto Teológico Franciscano e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior. Em 1984, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro “Igreja: Carisma e Poder”, foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa da Fé no Vaticano. Em 1985, foi condenado a um ano de silêncio. Permanecendo desobediente, em 1992, de novo ameaçado com uma segunda punição por Roma, renunciou às suas atividades de padre e se autopromoveu ao estado leigo. Atualmente é escritor, professor universitário, expoente da Teologia da Libertação(Marxista e herética) no Brasil onde é reconhecido por sua história em defesa das causas sociais e questões ambientais.

Após breve comentário sobre a vida do autor, vamos aquela que foi uma de suas obras de grande repercurssão e erros grotescos. A obra “Igreja: Carisma e Poder” teve algumas edições e sofreu algumas mudanças: reeditada no Brasil pela Record, teve sua primeira edição em 1981 (Editora Vozes), uma segunda edição em 1994 (Editora Ática). No decorrer das edições foi retomando o texto original e acrescentando um longo apêndice contendo a documentação do processo doutrinário que se seguiu à publicação do livro. Hoje, segue-se  o padrão anterior, com a adição de um novo prefácio do autor e um sucinto balanço final sobre o significado do livro. O livro “Igreja: carisma e poder”, na verdade, recolhe uma série de ensaios  elaborados pelo ex-frei Leonardo Boff, ao longo dos anos 70 e início de 80, época em que foram publicados vários de seus ensaios em revistas teológicas nacionais e internacionais. Dos treze artigos que acompanham a coletânea de ensaios, apenas dois eram inéditos na ocasião da publicação do livro, e um deles parte da tese de doutorado do autor defendida na Alemanha em 1970.

Frei Boaventura Kloppenburg,
antigo professor e crítico de Leonardo Boff
Logo após a publicação do livro, em 1981, surgem os primeiros questionamentos  e críticas. Algumas reações partiram de notáveis teólogos, dentre eles o franciscano Boaventura Kloppenburg, antigo professor e colega de cátedra de Leonardo Boff. Outras resenhas foram também desfavoráveis, como as de Ubano Zilles e Estevão Bettencourt. A polêmica ganha grande proporção e, então, entra em ação o Cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Após grande debate referente a questão da Verdadeira Igreja de Cristo (amplamente abordada no livro), o cardeal Ratzinger publica em 1985 uma notificação sobre o livro e submete o autor a um “silêncio obsequioso”.

É possível notar na obra de Boff a influência do pensamento marxista, como também, da exegese protestante liberal. A Igreja, do ponto de vista marxista, é comparada a autoridade do partido comunista onde  haveria entre ambas um paralelismo de estruturas e de comportamentos. É por isso que se percebe uma forte crítica à Igreja, como se a mesma fosse opressora e manipuladora.

Já da parte protestante liberal, herdam-se ideias (antigas), dentre elas, destaca-se o fato de Jesus mesmo não ter fundado uma Igreja, mas que esta, simplesmente, se deriva da vontade dos apóstolos inspirados pelo Espírito Santo. Com isso, é empregada a ideia que Jesus Cristo fundou um reino exclusivamente interior, espiritual. Só que tal visão protestante liberal foi condenada por Pio XII nos seguintes termos: “Estão longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma que se não pode tocar nem ver, mas apenas, como dizem, uma coisa pneumática que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé.

Em síntese: o livro é constituído de XI capítulos e um apêndice, na sua edição mais atual (1994), tudo sob a responsabilidade de um único autor: Leonardo Boff. Tudo começou a ser escrito com base no contexto eclesial entre os anos 70 e 80, período em que foi se firmando a Teologia da Libertação e a ramificação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Talvez a intenção maior do autor fora favorecer uma participação mais efetiva dos leigos e pobres nas “decisões” da Igreja. Pena, que “de boas intenções o inferno está cheio”. Sua famosa expressão teológica conhecida como eclesiogênese, foi na verdade um ato de completa falta de discernimento e demonstração de total rompimento com a Igreja Católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vejamos um fragmento de como o autor, pobre em seu poder de persuasão, e totalmente desesperado por glórias efêmeras de poder através dos meios de comunicação e, quem sabe, até tentado ao possível ganho de lucro autoral com vendas de tamanhas asneiras e idiotices, escreve:

Evidentemente a velha Igreja olhará com certa desconfiança para a nova Igreja na periferia e para com as liberdades evangélicas que ela se toma. Poderá ver nela uma concorrente; gritará em termos de Igreja paralela; magistério paralelo, falta de obediência e lealdade para com o Centro! A Igreja nova deverá saber usar de uma inteligente estratégia e tática: não deverá entrar no esquema de condenações e suspeitas como o Centro poderá fazer. Deverá ser evangélica, compreender que a instituição enquanto é poder somente poderá usar a linguagem que não ponha em risco o próprio poder, que sempre temerá qualquer afastamento do comportamento ditado pelo Centro e verá isso como deslealdade. Apesar de poder compreender tudo isso, a Igreja nova deverá ser fiel ao seu caminho; deverá ser lealmente desobediente*.”[1]

Afirmam ainda outros mercenários e pseudo-teólogos que um fato marcante no livro “Igreja: carisma e poder” é a linguagem profética, que vem retomar um gênero que tem larga tradição teológica. 

A verdade é que em em todo o livro respira-se a fumaça do demônio. Com um léxico eloquente e “lindas” falsas profecias. Já vimos isso antes povo de Deus! Já sentimos o reflexo dessas barbaridades em nossas paróquias, comunidades e grupos de autênticos membros da Igreja.

O teólogo é, pois, chamado a decifrar a linguagem das diversas situações — os sinais dos tempos — e a abrir esta linguagem à inteligência da fé (cf. Enc. Redemptor hominis, n. 19). Examinadas à luz dos critérios de um autêntico método teológico — aqui apenas brevemente assinalados — certas opções do livro de L. Boff manifestam-se insustentáveis. Sem pretender analisá-las todas, colocam-se em evidência apenas as opções eclesiológicas que parecem decisivas, ou seja: a estrutura da Igreja, a concepção do dogma, o exercício do poder sagrado e o profetismo.

Podemos concluir que o presente artigo analisa a obra eclesiológica do ex-frei Leonardo Boff, mostrando tratar-se de estudo tendencioso e ambíguo. A partir do esquema, preconcebido, de que a cobiça do poder inspirou o comportamento dos pastores da Igreja através dos séculos, o autor propõe uma Igreja “carismática”, em que não haja docentes e discentes, mas se adotem os critérios de comportamento de uma democracia humana.

O estilo do autor é quase que ridículo, chegando à sátira; hipóteses são propostas como teses (principalmente quando o autor recorre à exegese bíblica protestante); falta por vezes ao autor a akribia (senso de exatidão) necessária a um estudo científico para matizar os respectivos dizeres, dando a posições discutidas o atributo de discutidas. Tal akribia se impõe de modo especial numa obra que não é destinada apenas a especialistas, mas se volta para o grande público, o qual muitas vezes está despreparado para discernir o certo do incerto e do errado.

As afirmações do autor são empalidecidas ou sufocadas pela veemência das acusações feitas à Santa Igreja. No decorrer da leitura do livro têm-se não raro a impressão de estar diante de uma obra inspirada por protestantismo e marxismo. E também pelo próprio demônio, autor e pai da mentira.

Considerações importantes a fazer:

1.     A Obra é sem estilo

Quem lê a obra em pauta, observa de imediato algumas características significativas: o autor aborda questões importantes de história da Igreja ou de doutrina de fé, fazendo afirmações generalizadas, sem explicitar matizes.  Propõe hipóteses como se fossem teses firmes e indiscutíveis – o que ilude o leitor despreparado. Aliás, é curioso que desejando combater o autoritarismo, L. Boff, use de linguagem extremamente autoritária, caricatural, sarcástica. O autor é irônico, cínico e ignorante. Um nazista e preconceituoso que ignora as próprias raízes.

2.     Linguagem cheia de contradições

L. Boff usa vocabulário e linguagem que frequentemente têm o sabor da ambiguidade – o que não se admite nem num livro científico nem num livro de ampla divulgação. Seria ele uma espécie de novo Lutero no século XVI?

Um exemplo bem direto está em todo o cap. VII que é uma exaltação do sincretismo! O que até hoje inúmeros padres pregam na Igreja. E influenciam um falso ecumenismo.

3.     Influência marxista

O leitor não pode deixar de perceber certa influência do marxismo (ou de aspectos tendenciosos e discutíveis do marxismo) nas expressões e nas categorias assumidas pelo autor. O autor compara a autoridade na Igreja com a autoridade no Partido Comunista da União Soviética antes da revolução chinesa!  Haveria entre ambos um paralelismo de estruturas e de comportamento? Esta afirmação é, no mínimo, estranha e despropositada. Um bom teólogo não ignora quanto é artificial ou falsa a tese de L. Boff (ou do marxismo) quando aplicada à Igreja.

O autor, portanto, recorre às categorias de análise marxista da sociedade, categorias que são materialistas e ateias e, por conseguinte, jamais poderão servir para construir uma autêntica teologia; de resto, o uso das mesmas foi explicitamente condenado pelo S. Padre João Paulo II em discurso proferido aos Bispos do CELAM aos 2/07/80: “A libertação cristã… não recorre… à práxis ou análise marxista, pelo perigo de ideologização a que se expõe a reflexão teológica, quando se realiza partindo de uma praxis que recorre à análise marxista. Suas consequências são a total politização da existência cristã, a dissolução da linguagem da fé na das ciências sociais e o esvaziamento da dimensão transcendental da salvação cristã”.

4.     O papel da exegese protestante liberal

O autor confia plenamente nas sentenças dos exegetas protestantes mais liberais, que tentam interpretar os Evangelhos e a figura de Cristo segundo referenciais racionalistas e assaz duvidosos (porque subjetivos). Por isso L. Boff julga que Jesus mesmo não fundou a Igreja, mas que esta se deriva da vontade dos apóstolos inspirados pelo Espírito Santo (págs. 222s 216). A bibliografia citada por Boff é, em grande parte, protestante liberal, ficando as clássicas obras da teologia católica relegadas para o plano do superado.

Breve Conclusão

Leonardo Boff não deixa de reconhecer que na Igreja há elementos divinos e elementos humanos (pág. 221) e que a Igreja é sacramento (pág. 130s)… Todavia tais afirmações são raras e pálidas no conjunto do livro, onde a Igreja é geralmente tratada como sociedade meramente humana, na qual teriam prevalecido os abusos de homens gananciosos e prepotentes. De modo especial a secção das págs. 60-76 é caricatural, com veste de aparato científico.

Tem-se a impressão de que, segundo Boff, a Igreja autêntica seria governada pelo povo de Deus, que deveria ter nos bispos e no Papa os seus representantes, de tal modo que não se justificaria a distinção entre Igreja discente e Igreja docente:

A hierarquia se sente membro da Ecclesia discens e o leigo membro da Ecclesia docens.  Cada qual é mestre e discípulo um do outro e todos seguidores do Evangelho. Na coexistência e simultaneidade das duas funções, deve-se entender o apelo de Jesus para que ninguém se deixe chamar de mestre, pai ou diretor espiritual, pois todos somos irmãos (cf. Mt 23, 8-10)” (pág. 215).

Pergunta-se então: qual o critério para discernir verdade e erro se todos são mestres e discípulos?  Seria o Espírito Santo, que falaria no íntimo dos fiéis? Tal critério está sujeito a ser manipulado pelo subjetivismo, como demonstra a história do Protestantismo, cujas últimas denominações não reconhecem mais a Divindade de Cristo (cf. Mórmons, Testemunhas de Jeová, Estudiosos da Bíblia …).

Seria desejável a menção, muito mais importante, do “carisma seguro da verdade”, que o Concílio do Vaticano II atribui aos Bispos para guardarem e transmitirem autenticamente a mensagem da fé (cf. Constituição Dei Verbum nº 8).  Se alguém quer dizer que os carismáticos devem governar a Igreja, não esqueça tal carisma peculiar dos Bispos. Diz explicitamente o Concílio:

“O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo.  Tal magistério evidentemente não está acima da Palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando senão o que foi transmitido …; com a assistência do Espírito Santo, piamente ausculta aquela Palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe” (Dei Verbum nº 10).

Assim vemos que carisma e autoridade (= poder, na linguagem do livro em foco) não se opõem entre si. Numa palavra, a autoridade na Igreja é serviço (diakonía), e não exercício de poder arbitrário.

Se não se admite esse carisma indefectível da verdade (que está acima da erudição dos teólogos, embora precise desta), é natural que se caia no Protestantismo e, muito especialmente, no Protestantismo congregacionalista (onde a congregação dos fiéis se governa na mais autêntica forma democrática). Na verdade, a autoridade na Igreja vem de Cristo, que prolonga sua tríplice função sacerdotal, profética e pastoral nos ministros que Ele escolhe e ordena e que exercem suas funções não por delegação dos fiéis, mas por disposição do próprio Cristo (cf. discurso de João Paulo II aos ordenados no Maracanã aos 2/07/80); mesmo que haja eleição de Bispos, o eleito não recebe do povo a sua autoridade, mas de Cristo mediante os eleitores.

Compreende-se até certo ponto que deva haver autoridade forte na Igreja, pois esta não é obra humana. Se fosse criação de homens, logicamente poderia ser retocada e re-criada por homens, as suas decisões seriam tomadas simplesmente por maioria de votos; deveria prevalecer exclusivamente o bom senso fundamentado sobre razões filosóficas ou científicas. Acontece, porém, que a Igreja não é sociedade meramente humana; é, sim, sacramentum, ou seja, realidade sensível que assinala e transmite uma realidade divina, isto é, a presença e a graça de Cristo. Por isto, os pastores da Igreja têm o dever de preservar a mensagem da fé e as autênticas expressões desta não segundo critérios puramente humanos, mas segundo os critérios que a S. Escritura, colocada dentro da Tradição viva da Igreja, aponta ao povo de Deus; para realizar esta função, o magistério da Igreja goza de especial assistência do Espírito (cf. Mt 16,16-19; Lc 22,31s; Jo 21, 15-17; 14,26); tal assistência não depende da santidade ou das faltas dos pastores da Igreja, mas se exerce sempre que a Igreja se deva pronunciar oficialmente em matéria de fé e de costumes.

Houve, sem dúvida, no passado da Igreja atitudes de Papas e Bispos fortemente autoritárias, que não correspondem ao modo de pensar e agir nem dos eclesiásticos nem do mundo de hoje. Observe-se, porém, que não se pode julgar o passado à luz das categorias de pensar e agir do presente. Os antigos praticavam de boa fé o que nos pode parecer hoje inaceitável; a geração que hoje acusa o passado, será um dia veementemente acusada pelas futuras gerações. Não se pode esquecer, por exemplo, que São Francisco de Assis, Santa Clara, S. Tomás de Aquino, S. Alberto Magno, S. Boaventura e outros santos e sábios viveram em pleno século XIII, que foi um século de Inquisição, e não deixaram uma palavra de protesto contra esta.  Aliás, sempre houve santos entre os Papas e pastores da Igreja através dos seus vinte séculos; viveram o amor a Deus e o serviço aos irmãos tão generosamente quanto lhes sugeriam as circunstâncias de sua época.

Todo fiel católico deve reconhecer que entre os pastores da Igreja de Cristo confiada a Pedro houve e há falhas intelectuais e morais. Mas isto não o impede de afirmar que, através das mãos humanas dos clérigos (às vezes, manchadas e poluídas), passou e passa incólume o ouro de Deus para todos os fiéis.

Ainda poderíamos citar numerosas passagens do livro de L. Boff merecedoras de observações. O livro está, de ponta a ponta, inspirado pelos princípios que assinalamos até aqui. Tais princípios e as aplicações que dos mesmos faz L. Boff, se tomados a sério, levar-nos-iam a dizer que a eclesiologia de Boff é camufladamente protestante.

As considerações propostas neste artigo permanecem no plano dos estudos, onde é lícito (e, às vezes, necessário) discordar; principalmente quando se trata das verdades da fé, o dever de fidelidade aos autênticos mananciais (no caso, ao Senhor Jesus) é duplamente imperioso. Cremos que as hipóteses e as afirmações de Boff, entregues à ampla divulgação num estilo de sátira e caricatura “científica”, são destinadas a destruir mais do que a construir, pois o autor não oferece ao leitor a ocasião de ver outros aspectos que ele aborda; ele não ajuda o leitor a criticar e a matizar as posições assumidas no livro; ao contrário, o autor da obra usa de estilo que parece dirimente … ou mesmo esmagador de qualquer tese contrária (quando na verdade se trata de um conjunto, em grande parte, subjetivo, oscilante e vulnerável).




[1] Boff, Leonardo – Igreja, Carisma e Poder. Ed.Ática S.A.1994.*Grifo Nosso.

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