quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Comunismo x Capitalismo?


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

            Na minha coleção de pedras, guardo como “relíquia” um pedaço do destruído muro de Berlim, erguido pelos comunistas, que, durante 28 anos, dividiu a Alemanha. Dia 9 de novembro último, fez 26 anos a sua derrubada, em 1990. Muitíssimos fugitivos, tentando escapar do regime comunista para o mundo ocidental, - é claro, pois ninguém quis passar de cá para lá - perderam a vida, na tentativa de atravessar a barreira de 154 km de extensão. Boa ocasião para falarmos do comunismo e do seu suposto opositor, o chamado “capitalismo”.

        A queda do “muro da vergonha” simbolizou a falência do comunismo, como regime econômico e ideológico. Para tanto, contribuíram vários personagens importantes: Mikhail Gorbachev, com a Perestroika, Lech Walesa, com o Solidariedade, Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, Margareth Thatcher, primeira ministra da Inglaterra e, especialmente, São João Paulo II, Papa oriundo de um país atrás da cortina de ferro, que, com sua influência, muito contribuiu para a queda do regime comunista. O próprio Gorbachev disse que o colapso do comunismo teria sido impossível sem a influência de João Paulo II.

        Esse Papa, em 1991, fazia a pergunta: “Após a falência do comunismo, pode-se dizer que o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade?” E ele mesmo responde: “Se por ‘capitalismo’ se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de ‘economia de mercado’, ou simplesmente de ‘economia livre’”.

        Mas então a Igreja aprova simplesmente o chamado “capitalismo liberal e selvagem”? O próprio João Paulo II ensina: “Se por ‘capitalismo’ se entende um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa” (Enc. Cent. Annus, 42).


        Se despreza a Deus e sua lei na economia, o capitalismo equivale na maldade ao comunismo: “Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados tanto dos sistemas marxistas como inclusive dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus... O sistema marxista, onde governou, não só deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas, mas também uma dolorosa destruição do espírito. E o mesmo vemos também no ocidente, onde cresce constantemente a distância entre pobres e ricos e se produz uma inquietante degradação da dignidade pessoal com a droga, o álcool e as sutis miragens de felicidade” (Bento XVI, Aparecida, Discurso inaugural).  

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Homem-Formiga.


Por André Brandalise

Sinopse: O bioquímico dr. Hank Pym (Michael Douglas) usa sua mais recente descoberta, um grupo de partículas subatômicas, para criar uma roupa de alteração de tamanho. Com sua nova tecnologia, o doutor passa a ter a capacidade de diminuir em escala mas crescer em força. É então que o vigarista Scott Lang (Paul Rudd) precisa assumir o lado heróico e ajudar seu mentor a proteger os segredos por trás do espetacular traje do Homem-Formiga de uma nova geração de ameaças. Juntos, precisam salvar o planeta.

A Marvel segue o caminho traçado em Guardiões da Galáxia e traz mais um filme divertido, que não se leva a sério e, ao mesmo tempo, se leva a sério. Não se pode, de forma alguma, desmerecer o filme por se imaginar a impossibilidade científica de um homem normal tornar-se do tamanho de uma formiga, antes disso, devemos olhar elo lado pessoal de cada personagem.

É claro que se trata de mais um filme de herói fantástico, empolgante e divertido, que também apresenta um homem buscando a redenção. Depois de sair da prisão, após cumprir sua pena, o personagem principal, Scott Lang, tenta reconstruir a sua vida pensando em sua filha. Quer fugir do crime e opta pela mudança de caminho.

Muitos de nós passamos por isso, todo dia, a vida toda, quando somos colocados à prova diante de situações de pecado que aparecem à nossa frente. Algumas vezes caímos e temos sempre a chance de buscar a remissão de nossos pecados, o perdão divino de nossos erros.

O mesmo vale para aqueles que cometeram crimes e foram presos. No entanto, assim como para se ter uma boa confissão, a mudança de vida somente ocorrerá se houver uma decisão pessoal e firme de mudança de vida. Não é a prisão ou qualquer outra Instituição que vai fazer com que a pessoa mude, pois isso somente ocorrerá quando ela decidir mudar.

São João Paulo II já nos falou sobre isso na Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia:

“No fundo de cada situação de pecado, porém, encontram-se sempre pessoas pecadoras. Isto é tão verdadeiro que, se tal situação vier a ser mudada nos seus aspectos estruturais e institucionais pela força da lei, ou — como acontece com mais frequência, infelizmente — pela lei da força, a mudança revela-se, na realidade, incompleta, de pouca duração e, no fim de contas, vã e ineficaz — para não dizer mesmo contraproducente — se não se converterem as pessoas direta ou indiretamente responsáveis por essa mesma situação.”

O filme nos traz essa realidade, ainda que de forma divertida, onde pessoas que passaram pela prisão acabam retornando à vida do crime, e somente há a mudança de caminho quando tomam a decisão verdadeira de não caírem mais no erro.

Um ponto interessante é que, para Scott Lang mudar de vida, teve que fazer-se pequeno… literalmente. Claro que não foi intenção do roteiro fazer este paralelo, mas, com certeza, seria algo a se pensar neste processo de transformação.

Como fã de quadrinhos e bons personagens, digo para ir ao cinema porque é diversão garantida. Como católico, recomendo que veja para reflexão sobre o que te move para ser uma pessoa melhor e se está fazendo de tudo para isso.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Professor educador.


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

Amanhã, dia 15, dia de Santa Teresa de Jesus, grande mestra da vida espiritual, e exatamente por isso, é comemorado o dia do professor. Da mesma ordem religiosa de Santa Teresa, temos outra mestra, mas da simplicidade diária na santidade, Santa Teresinha do Menino Jesus, que dedicou sua vida no Carmelo à oração e ao sacrifício pelos missionários, sendo por isso, proclamada padroeira das Missões, cujo dia celebraremos no próximo domingo.

Deixo aqui consignada a minha saudação e gratidão a todos os que se dedicam a essa nobre e benemérita carreira, difícil, mas nem sempre reconhecida e condignamente gratificada. Mais do que uma profissão, educar é uma arte, uma vocação e uma missão: formar, conduzir crianças, jovens e adultos no caminho da verdade, sugerindo opiniões conscientes, aconselhando e tornando-se amigos e irmãos dos seus alunos. Que Deus os abençoe e lhes dê coragem, paciência e perseverança nessa sua verdadeira missão. Missionários da educação!

        Ser professor é ser educador e mestre. E ser mestre é muito mais do que ensinar matérias, como bem escreveu o nosso ilustre poeta Antônio Roberto Fernandes, de saudosa memória:

“Ser mestre não é só contar a história/
de um certo Pedro Álvares Cabral/
Mas descobrir, de novo, a cada dia,/
um mundo grande, livre, fraternal.
- Ser mestre não é só mostrar nos mapas/
onde se encontra o Pico da Neblina/
Mas é subir, guiando os alunos,/
à montanha da vida que se empina...
Ser mestre é ser o pai, a mãe, o amigo,/
mostrando sempre a direção da luz,/
pois a palavra Mestre – sobretudo –/
também é um dos nomes de Jesus”.

       A melhor definição de educação nós a encontramos no Direito Canônico, conjunto de normas da Igreja (cânon 795): é a formação integral da pessoa humana, dirigida ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem comum da sociedade, de modo que as crianças e jovens possam desenvolver harmonicamente seus dotes físicos, morais e intelectuais, adquirir um sentido mais perfeito da responsabilidade e um uso correto da liberdade, preparando-se para participar ativamente da vida social. Que missão nobre, sublime e difícil a do professor-educador! Indicando aos alunos o sentido da vida, ele vai ajudá-los a dominar seus instintos e a dirigi-los pela razão, a desenvolver o conjunto de suas faculdades, a combater as más paixões e desenvolver as boas, a adquirir o domínio de si e a orientar seus sentimentos, levando em conta as diversas fases da vida e as características do seu temperamento, formando assim sua personalidade e seu caráter. Sendo assim, o mestre é cooperador da Graça de Deus, que, como Pai, só quer o bem dos seus filhos.


      A você, portanto, caro professor e querida professora, a nossa homenagem por ter recebido de Deus tão nobre e importante missão e a nossa gratidão reconhecida pelo seu trabalho, que não se mede pela produção imediata, mas por frutos, muitas vezes escondidos, que só vão aparecer ao longo da vida e que estarão escritos no livro da eternidade. “Os que educaram a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,3).

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Senhora Aparecida.


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.

        O próximo dia 12, celebraremos a Padroeira do Brasil. Em suas caravelas, ornadas com a Cruz da Ordem de Cristo, os portugueses trouxeram-nos a devoção à Mãe de Jesus: Pedro Álvares Cabral, em sua nau capitânia, transportava a imagem de Nossa Senhora da Esperança.

        Mas a devoção a Nossa Senhora Aparecida começou em 1717, quando, por ocasião da visita do Conde de Assumar à cidade de Guaratinguetá, SP, foi pedido aos pescadores locais peixes para o banquete do nobre visitante. Três pescadores, amigos entre si, João Alves, Domingos Garcia e Vicente Pedroso, tentavam e não conseguiam os peixes que necessitavam, quando apanharam em suas redes uma pequena imagem truncada de Nossa Senhora da Conceição e a seguir, num lance de rede sucessivo, a cabeça da mesma imagem, conseguindo, num terceiro lance, imensa quantidade de peixes. A esse milagre sucederam muitos outros. A imagem foi chamada de “Aparecida” e colocada numa pequena capela que, com o tempo, tornou-se o monumental Santuário Nacional, maior centro de peregrinação do país.

        É óbvio que ali houve algo sobrenatural. Pois como explicar que uma simples imagem, quebrada, pudesse atrair milhões de pessoas em oração fervorosa, ininterruptamente, há quase três séculos, sem uma intervenção divina e uma bênção especial da Mãe de Jesus?

        Em 1904, Nossa Senhora Aparecida, foi coroada Rainha do Brasil. No Congresso Mariano de 1929, quando se comemorou o Jubileu de Prata dessa Coroação, os bispos do Brasil decidiram enviar um pedido ao Papa para que declarasse Nossa Senhora Aparecida Padroeira de toda a nação brasileira. Este pedido tornou-se realidade através do Decreto do Papa Pio XI, de 16 de julho de 1930, no qual diz: “... Na plenitude de nosso Poder Apostólico, pelo teor da presente Carta, constituímos e declaramos a Beatíssima Virgem Maria concebida sem mancha, conhecida sob o título de Aparecida, Padroeira principal de todo o Brasil junto de Deus... concedendo isso para promover o bem espiritual dos fiéis no Brasil e para aumentar, cada vez mais, sua devoção à Imaculada Mãe de Deus...”.

        A proclamação oficial se realizou numa grande manifestação popular de um milhão de pessoas, no Rio de Janeiro, então capital federal, com o reconhecimento oficial do Governo do país, pela presença do seu Presidente, Dr. Getúlio Dornelles Vargas, e de outras autoridades civis, militares e eclesiásticas. Era o Brasil reconhecendo oficialmente sua padroeira.


        Que o Brasil, que nasceu católico desde a sua descoberta, cujo primeiro monumento foi um altar e uma cruz, que teve como primeira cerimônia uma Missa, que tem essa Senhora Padroeira, mostre-se digno de tais origens e de tal Patrona, em suas instituições, suas leis, seus governantes, sua política, seus legisladores, sua população e seu modo de viver, na verdadeira justiça e caridade, na ordem e no verdadeiro progresso, na harmonia e no bem comum, na lei de Deus e na coerência com os princípios da fé cristã, base da nossa identidade pátria e princípio de toda a convivência honesta, solidária e pacífica.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Top 10 Ecclesiae


Período: 1 a 31 de Agosto/2015

Obs: a metodologia para determinar os 10 mais vendidos foi a observação das vendas no período indicado nos seguintes sites:
livraria.seminariodefilosofia.org
Nós computamos também as vendas feitas para distribuidoras e livrarias que totalizam cerca de 120 pontos de venda.


11     Teologia do Corpo
Autor: São João Paulo II
Ecclesiae
http://ecclesiae.com.br/teologia-do-corpo-o-amor-humano-no-plano-divino
Durante cinco anos, o pontificado do Papa João Paulo II trouxe uma daquelas novidades que só o Espírito pode suscitar no coração de um pontífice preocupado e interessado na formação do seu rebanho. Desde o dia 5 de setembro de 1979 até 28 de novembro de 1984, nas suas catequeses de quarta-feira, o Papa foi paulatinamente apresentado e presenteando a todos nós com um verdadeiro tratado de antropologia e teologia moral-sexual, que com o passar do tempo adquiriu o nome de catequeses da Teologia do Corpo. [...] O tema de cada catequese foi sendo aos poucos desvendado até chegar ao que poderíamos afirmar o centro das mesmas: o domínio "sobre" o outro na relação inter-pessoal. Aqui se revela rapidamente a tendência filosófica do pensador e professor Karol Wojtyla. É impressionante perceber como o trabalho acadêmico, teológico e filosófico se sustenta, e por que não dizê-lo, se condensa nesta nova visão da corporeidade vista como um espaço de desenvolvimento transcendental e não simplesmente figurativo. O fato do homem e da mulher tomarem consciência do seu corpo faz que com que o sentimento de vergonha seja superado e inicie uma nova antropologia e cosmovisão. - Padre José Rafael Solano Durán (trechos do prefácio)

22     Mentiram para mim sobre o desarmamento
Autores: Flavio Quintela e Bene Barbosa
VIDE Editorial
http://ecclesiae.com.br/mentiram-para-mim-sobre-o-desarmamento
Depois do sucesso de Mentiram (e muito) para mim, Flavio Quintela faz uma parceria de peso com Bene Barbosa para compor esta excepcional obra, que deixa as mentiras sobre o desarmamento de civis nuas no meio da sala. Aos que já conhecem o assunto, o livro oferece ótimas referências e informações precisas aos que não têm opinião formada, ou àqueles cujo conhecimento é restrito à mídia e às campanhas do governo, o livro é um ponto de inflexão, um divisor de águas, com sua clareza e assertividade. 

Com uma linguagem direta e um ritmo agradável, Mentiram para mim sobre o desarmamento é leitura mais que necessária para todos os que defendem as liberdades inegociáveis dos indivíduos. Numa época de recrudescimento de tantos regimes totalitários, é uma mensagem imprescindível e um alerta essencial.


33    O Império Ecológico
Autor: Pascal Bernardin
VIDE Editorial
http://ecclesiae.com.br/o-imperio-ecologico
"A nova ideologia deverá fornecer um 'princípio central e unificador' em torno do qual a sociedade mundial poderá se construir e se definir. Esse princípio deverá formá-la por inteiro, permiti-la definir tanto os objetivos sociais quanto as normas de comportamento individual, ser aceito pelos povos do Ocidente e do Oriente, do Norte e do Sul. Ele deverá evitar confrontar qualquer sensibilidade religiosa ou 'filosófica', mas, ao contrário, fazer avançar a causa sincretista e a aparição de uma religião mundial.

[...] A presente obra mostrará que a ideologia ecológica preenche todas essas condições sem nenhuma exceção. Ela visa a provocar uma mudança de paradigma (idêntica àquela apregoada pela Nova Era), uma modificação do conceito de Deus, do homem e do mundo com conseqüências inestimáveis. Assim, colapsa a concepção cristã do homem, criado por Deus e colocado ao centro da Terra, substituída pela perspectiva holística que nos quer o produto - mal - da evolução, o ápice da cadeia evolutiva.

[...] A Criação é portanto sacralizada, sem referência ao Criador. A ecologia, o respeito pela Criação, obra de Deus, é subvertida e veicula uma concepção pegã e revolucionária da natureza. O homem, e ainda mais o indivíduo, apaga-se diante dos imperativos da 'gestão sustentável' do planeta. De tal modo a antropologia cristã, norma cultural e social que subsiste ainda, ao menos inconscientemente, nos espíritos, desaparece, e a civilização global pode ser edificada".
  

44    O Evangelho de São João
Autor: Scott Hahn e Curtis Smith
Ecclesiae

55     Adeus, Homens de Deus
Autor: Michael Rose
Ecclesiae

66    O Evangelho de São Lucas
Autor: Scott Hahn e Curtis Smith
Ecclesiae

77     10 livros que estragaram o mundo
Autor: Benjamin Wiker
VIDE Editorial

88      A Resposta Católica
Autor: Padre Paulo Ricardo
Ecclesiae

99      O Evangelho de Marcos
Autores: Scott Hahn e Curtis Smith
Ecclesiae

110 Gender, quem és tu?
Autor: Olivier Bonnewijn
Ecclesiae





segunda-feira, 5 de outubro de 2015

04/10/2015 - Santa Missa por ocasião da abertura da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Papa Francisco.

Santa Missa por ocasião da abertura da XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos - 04.10.2015

Papa Francisco.

«Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós» (1 Jo 4, 12).

As Leituras bíblicas deste Domingo parecem escolhidas de propósito para o evento de graça que a Igreja está a viver, ou seja, a Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos que tem por tema a família e é inaugurada com esta celebração eucarística.

Aquelas estão centradas em três argumentos: o drama da solidãoo amor entre homem-mulher e a família.

A solidão

Como lemos na primeira Leitura, Adão vivia no Paraíso, impunha os nomes às outras criaturas, exercendo um domínio que demonstra a sua indiscutível e incomparável superioridade, e contudo sentia-se só, porque «não encontrou auxiliar semelhante a ele» (Gn 2, 20) e sentia a solidão.

A solidão, o drama que ainda hoje aflige muitos homens e mulheres. Penso nos idosos abandonados até pelos seus entes queridos e pelos próprios filhos; nos viúvos e nas viúvas; em tantos homens e mulheres, deixados pela sua esposa e pelo seu marido; em muitas pessoas que se sentem realmente sozinhas, não compreendidas nem escutadas; nos migrantes e prófugos que escapam de guerras e perseguições; e em tantos jovens vítimas da cultura do consumismo, do «usa e joga fora» e da cultura do descarte.

Hoje vive-se o paradoxo dum mundo globalizado onde vemos tantas habitações de luxo e arranha-céus, mas o calor da casa e da família é cada vez menor; muitos projectos ambiciosos, mas pouco tempo para viver aquilo que foi realizado; muitos meios sofisticados de diversão, mas há um vazio cada vez mais profundo no coração; tantos prazeres, mas pouco amor; tanta liberdade, mas pouca autonomia... Aumenta cada vez mais o número das pessoas que se sentem sozinhas, e também daquelas que se fecham no egoísmo, na melancolia, na violência destrutiva e na escravidão do prazer e do deus-dinheiro.

Em certo sentido, hoje vivemos a mesma experiência de Adão: tanto poder acompanhado por tanta solidão e vulnerabilidade; e ícone disso mesmo é a família. Verifica-se cada vez menos seriedade em levar por diante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na boa e na má sorte. Cada vez mais o amor duradouro, fiel, consciencioso, estável, fecundo é objecto de zombaria e olhado como se fosse uma antiguidade. Parece que as sociedades mais avançadas sejam precisamente aquelas que têm a taxa mais baixa de natalidade e a taxa maior de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social.

O amor entre homem e mulher

Ainda na primeira Leitura, lemos que o coração de Deus, ao ver a solidão de Adão, ficou como que entristecido e disse: «Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» (Gn 2, 18). Estas palavras demonstram que nada torna tão feliz o coração do homem como um coração que lhe seja semelhante, lhe corresponda, o ame e tire da solidão e de sentir-se só. Demonstram também que Deus não criou o ser humano para viver na tristeza ou para estar sozinho, mas para a felicidade, para partilhar o seu caminho com outra pessoa que lhe seja complementar; para viver a experiência maravilhosa do amor, isto é, amar e ser amado; e para ver o seu amor fecundo nos filhos, como diz o salmo que foi proclamado hoje (cf. Sal 128).

Tal é o sonho de Deus para a sua dilecta criatura: vê-la realizada na união de amor entre homem e mulher; feliz no caminho comum, fecunda na doação recíproca. É o mesmo desígnio que Jesus, no Evangelho de hoje, resume com estas palavras: «Desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só» (Mc 10, 6-8; cf. Gn 1, 27; 2, 24).

Jesus, perante a pergunta retórica que Lhe puseram (provavelmente como uma cilada, para fazê-Lo sem mais aparecer odioso à multidão que O seguia e que praticava o divórcio, como uma realidade consolidada e intangível), responde de maneira franca e inesperada: leva tudo de volta à origem, à origem da criação, para nos ensinar que Deus abençoa o amor humano, é Ele que une os corações de um homem e de uma mulher que se amam e liga-os na unidade e na indissolubilidade. Isto significa que o objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre. Jesus restabelece assim a ordem originária e originadora.

A família

«Pois bem. O que Deus uniu não o separe o homem» (Mc 10, 9). É uma exortação aos crentes para superar toda a forma de individualismo e de legalismo, que se esconde num egoísmo mesquinho e no medo de aderir ao significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projecto de Deus.

Com efeito, só à luz da loucura da gratuidade do amor pascal de Jesus é que aparecerá compreensível a loucura da gratuidade dum amor conjugal único e usque ad mortem.

Para Deus, o matrimónio não é utopia da adolescência, mas um sonho sem o qual a sua criatura estará condenada à solidão. De facto, o medo de aderir a este projeto paralisa o coração humano.

Paradoxalmente, também o homem de hoje – que muitas vezes ridiculariza este desígnio – continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, por todo o amor sólido, por todo o amor fecundo, por todo o amor fiel e perpétuo. Vemo-lo ir atrás dos amores temporários, mas sonha com o amor autêntico; corre atrás dos prazeres carnais, mas deseja a doação total.

De facto, «agora que provámos plenamente as promessas da liberdade ilimitada, começamos de novo a compreender a expressão “a tristeza deste mundo”. Os prazeres proibidos perderam o seu fascínio, logo que deixaram de ser proibidos. Mesmo quando são levados ao extremo e repetidos ao infinito, aparecem insípidos, porque são coisas finitas, e nós, ao contrário, temos sede de infinito» (Joseph Ratzinger, Auf Christus schauen. Einübung in Glaube, Hoffnung, Liebe, Friburgo 1989, p. 73).

Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade. A Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade ao seu Mestre como voz que grita no deserto, para defender o amor fiel e encorajar as inúmeras famílias que vivem o seu matrimónio como um espaço onde se manifesta o amor divino; para defender a sacralidade da vida, de toda a vida; para defender a unidade e a indissolubilidade do vínculo conjugal como sinal da graça de Deus e da capacidade que o homem tem de amar seriamente.

A Igreja é chamada a viver a sua missão na verdade que não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes. A verdade que protege o homem e a humanidade das tentações da auto-referencialidade e de transformar o amor fecundo em egoísmo estéril, a união fiel em ligações temporárias. «Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 3).

E a Igreja é chamada a viver a sua missão na caridade que não aponta o dedo para julgar os outros, mas – fiel à sua natureza de mãe – sente-se no dever de procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia; de ser «hospital de campanha», com as portas abertas para acolher todo aquele que bate pedindo ajuda e apoio; e mais, de sair do próprio redil ao encontro dos outros com amor verdadeiro, para caminhar com a humanidade ferida, para a integrar e conduzir à fonte de salvação.

Uma Igreja que ensina e defende os valores fundamentais, sem esquecer que «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado» (Mc 2, 27); e sem esquecer que Jesus disse também: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17). Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida.

Recordo São João Paulo II, quando dizia: «O erro e o mal devem sempre ser condenados e combatidos; mas o homem que cai ou que erra deve ser compreendido e amado. (...) Devemos amar o nosso tempo e ajudar o homem do nosso tempo» [Discurso à Acção Católica Italiana, 30 de Dezembro de 1978: Insegnamenti (1978), 450]. E a Igreja deve procurá-lo, acolhê-lo e acompanhá-lo, porque uma Igreja com as portas fechadas atraiçoa-se a si mesma e à sua missão e, em vez de ser ponte, torna-se uma barreira: «De facto, tanto o que santifica, como os que são santificados, provêm todos de um só; razão pela qual não se envergonha de lhes chamar irmãos» (Heb 2, 11).


Com este espírito, peçamos ao Senhor que nos acompanhe no Sínodo e guie a sua Igreja pela intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José, seu castíssimo esposo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Anticoncepcional: um desastre ecológico.

(até os peixes sofrem com o anticoncepcional lançado nos rios)

Por Padre Luiz Carlos Lodi.

Quando o Papa Francisco escreveu a encíclica Laudato si, sobre o “cuidado da casa comum”, repudiou energicamente o controle demográfico como suposto meio para eliminar a poluição ambiental, criticou as pressões sobre os países em desenvolvimento para que estes adotem políticas de “saúde reprodutiva” como condição para receberem ajuda econômica (n. 50) e atacou especificamente o aborto como incompatível com a defesa da natureza (n. 120). No entanto, a coalizão internacional Voice of the Family (Voz da família) mostrou-se preocupada pela ausência na encíclica de uma condenação da anticoncepção e de uma reafirmação dos dois significados inseparáveis do ato conjugal: o unitivo e o procriador. Segundo Maria Madise, porta-voz de Voice of the Family, “as nações em desenvolvimento estão sendo inundadas de contraceptivos e sujeitas a pressões para legalizarem o aborto. Como a contracepção e o ambientalismo caminham tão frequentemente de mãos dadas, é profundamente preocupante que o ensinamento da Igreja sobre a primazia da procriação não seja reafirmado”[1].

Há, porém, um outro motivo pelo qual teria sido importante uma menção aos anticoncepcionais na citada encíclica. Os hormônios contidos na pílula, como o etinil-estradiol, acabam sendo excretados pela mulher e lançados no esgoto, de onde vão para os rios. Os efeitos de tais drogas sobre os peixes são simplesmente devastadores. Leiamos esta matéria jornalística de janeiro de 2013:

O descarte irregular de remédios pela rede de esgoto faz com que os peixes masculinos percam a capacidade de fecundar óvulos e, em casos mais graves, até desenvolvam ovas, característica feminina. Essa é a constatação do professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Wilson Jardim, em uma pesquisa no rio Atibaia, que abastece 90% de Campinas.
[...]
Segundo Wilson, uma das grandes vilãs para a situação é a pílula anticoncepcional, que tem efeito direto nas glândulas sexuais nos animais. Dependendo da quantidade de substâncias, os machos têm reações que vão desde perder o interesse nas fêmeas até mudança no sistema reprodutor, com produção de ovas. ‘Já dispomos de estudos científicos que apontam que esses compostos têm causado sérios danos aos organismos aquáticos. Está comprovado, por exemplo, que eles podem provocar a feminização de peixe’, disse[2].

Esse fenômeno não é novo nem é exclusivo dos rios do Brasil. Em julho de 2004, uma matéria da BBC News intitulada “Poluição muda sexo de peixe” mostrava o mesmo problema na Inglaterra:

Um terço dos peixes machos em rios britânicos está em processo de mudança de sexo devido à poluição no esgoto humano, sugere uma pesquisa feita pela Agência do Ambiente.
Uma investigação feita em 1.500 peixes de 50 locais de rios encontrou que mais de um terço dos peixes machos exibiam características femininas.
Pensa-se que a principal causa sejam os hormônios no esgoto, incluindo os produzidos pela pílula anticoncepcional feminina.
A agência diz que o problema poderia prejudicar as populações de peixes, por reduzir sua capacidade de reprodução.
Ela disse que seu estudo destacou a necessidade de as companhias de água desenvolverem novos tratamentos.
Desde algum tempo tem havido preocupação de que os produtos químicos conhecidos como disruptores endócrinos estejam fazendo o peixe mudar de sexo.
Este último estudo é o primeiro a mostrar a escala do problema na Grã-Bretanha[3].

Mas os peixes não são os únicos atingidos. Os hormônios sintéticos lançados nos rios podem ser encontrados na água das torneiras das casas, mesmo após o tratamento. Quais serão seus efeitos sobre as pessoas?

Quanto aos humanos, prossegue Wilson Jardim, há indícios de que os contaminantes não legislados, especialmente hormônios naturais e sintéticos, como o estrógeno, podem provocar mudanças no sistema endócrino de homens e mulheres. Uma hipótese, que carece de maiores estudos, considera que esse tipo de contaminação poderia estar contribuindo para que a menarca (primeira menstruação) ocorra cada vez mais cedo entre as meninas[4].

Há ainda um fato que pode estar relacionado à presença de hormônios sintéticos na água de beber: vários estudos mostram que, há décadas, tem havido uma queda na quantidade de espermatozoides produzidos pelo homem ocidental. Em 1992 um grupo dinamarquês publicou um estudo que mostrava o declínio da qualidade de sêmen num período de cinquenta anos (de 1940 a 1990)[5]. Em 2012, pesquisadores franceses encontraram uma queda acentuada da quantidade de espermatozoides em homens sadios, durante 17 anos (entre 1989 e 2005)[6]. Embora se tentem identificar outras causas para o contínuo decréscimo da fertilidade masculina, não é possível excluir a priori o efeito poluente dos anticoncepcionais. Essa tese foi defendida, por exemplo, pelo médico Pedro José Maria Simon Castellvi, presidente da Federação Internacional das Associações de Médicos Católicos, em um artigo publicado em 4 de janeiro de 2009 no jornal L’Osservatore Romano:

Um outro aspecto interessante [dos anticoncepcionais] diz respeito aos efeitos ecológicos devastantes das toneladas de hormônios despejados por anos no ambiente. Temos dados suficientes para afirmar que um dos motivos nada desprezível da infertilidade masculina no ocidente (com sempre menos espermatozoides no homem) é a poluição ambiental provocada pelos produtos da ‘pílula’. Estamos aqui defronte a um efeito antiecológico claro que exige ulteriores explicações da parte dos fabricantes.[7]

Conclusão:

Quando em 1968 o Beato Paulo VI reafirmou, com a encíclica Humanae vitae, a proibição da anticoncepção, fez diversas profecias, que foram todas cumpridas: os anticoncepcionais abririam as portas para a infidelidade conjugal, a degradação da moralidade, a perda do respeito pela mulher (reduzida a simples instrumento de prazer egoísta) e tornar-se-iam uma arma perigosa nas mãos das autoridades públicas para impor aos cônjuges a limitação de sua prole[8]. No entanto, o Santo Padre não foi capaz de prever o efeito devastador da pílula sobre o organismo da mulher nem o enorme dano ambiental causado por essa droga. Ao vermos os peixes afetados pelo pecado humano da anticoncepção, vêm à nossa mente as palavras de São Paulo sobre o alcance cósmico do pecado: “a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente” (Rm 8,22).

Anápolis, 17 de setembro de 2015.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis.


[1] Voice of the Family statement on the encyclical Laudato Si, in:
[2] Eduardo SCHIAVONI. Descarte irregular de remédio faz peixes perderem capacidade de reprodução, mostra pesquisa. UOL notícias, 10/01/2013, em: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/01/10/descarte-irregular-de-remedio-faz-peixes-perderem-capacidade-de-reproducao-mostra-pesquisa.htm
[3] Pollution 'changes sex of fish'. BBC News, 10/07/2014, in: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/3882159.stm
[4] Eduardo SCHIAVONI. Descarte irregular de remédio... UOL notícias, 10/01/2013.
[5] Evidence for decreasing quality of semen during past 50 years. BMJ 1992;305:609, 12/09/1992, in:http://www.bmj.com/content/305/6854/609
[6] Decline in semen concentration and morphology in a sample of 26 609 men close to general population between 1989 and 2005 in France. Human Reproduction, 4/12/2012, in: http://humrep.oxfordjournals.org/content/early/2012/12/02/humrep.des415.full.pdf+html
[7] Pedro CASTELLVI, L’«Humanae vitae» Una profezia scientificaL’Osservatore Romano, 03/01/2009, in:https://tuespetrus.wordpress.com/2009/01/03/l%C2%ABhumanae-vitae%C2%BB-una-profezia-scientifica/
[8] Cf. PAULO VI, Humanae vitae, n. 17.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O dia do nascituro.


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

            Por determinação da 43ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em 2005, celebra-se, em todo o Brasil, de 1 a 8 de outubro, a Semana Nacional da Vida e no dia 8 de outubro o Dia do Nascituro, ou seja, o Dia pelo direito de nascer. “A Semana Nacional da Vida e o Dia do Nascituro são ocasiões para que toda a Igreja continue afirmando sua posição favorável à vida desde o seio materno até o seu fim natural, bem como a dignidade da mulher e a proteção das crianças” (Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário geral da CNBB). Uma data esquecida, mas que vale a pena recordar. Nascituro, o que está para nascer, é o que todos fomos um dia, no útero de nossa mãe, onde teve início nossa existência, graças a Deus.

             Foi escolhido o dia 8 de outubro, por ser próximo ao dia em que se celebra a Padroeira do Brasil (12 de outubro), cujo título, ao evocar a concepção, lembra o fruto correspondente: Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe de Deus que se fez homem, Jesus Cristo, nascituro em seu seio, que faz João Batista exultar de alegria no ventre de Isabel (Lc 1,39-45).

              A propósito, diante da atual banalização da vida e de opiniões favoráveis ao aborto, defendido por inúmeras pessoas influentes, é importante lembrar que a Igreja compreende as situações difíceis que levam mães a abortar, mas, por uma questão de princípios, defende com firmeza a vida do nascituro, como bem nos ensina S. João Paulo II na Carta Encíclica "Evangelium Vitae" (Sobre Valor e a Inviolabilidade da Vida Humana): “É verdade que, muitas vezes, a opção de abortar reveste para a mãe um caráter dramático e doloroso: a decisão de se desfazer do fruto concebido não é tomada por razões puramente egoístas ou de comodidade, mas porque se quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida digno para os outros membros da família. Às vezes, temem-se para o nascituro condições de existência tais que levam a pensar que seria melhor para ele não nascer. Mas essas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente” (n. 58). E, usando da prerrogativa da infalibilidade, o Papa define: “Com a autoridade que Cristo conferiu a Pedro e aos seus sucessores, em comunhão com os Bispos – que de várias e repetidas formas condenaram o aborto e que... apesar de dispersos pelo mundo, afirmaram unânime consenso sobre esta doutrina - declaro que o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal”(n. 62).


        Agradeçamos ao Criador pelo dom da vida que nos deu, e renovemos o nosso compromisso de lutar pela vida daqueles que, como nós fomos também, ainda não têm voz, mas que são chamados a um dia agradecerem a Deus por tão grande dom. Lutemos pela vida, contra o aborto.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Corrupção, mal antigo.


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

        A corrupção financeira, ou seja, o conseguir ilicitamente benefícios através do dinheiro e vice-versa, provém da ambição humana do poder. Pois o dinheiro traz poder. E o poder é o que atrai, seduz, pois, com ele, pensa-se, consegue-se tudo. Quanta gente, pelo dinheiro, por amor do cargo ou posição, pela sede de poder, trai sua consciência e acaba prevaricando!

        Mas, sempre há condições, na maioria das vezes ilícitas, para se conseguir com facilidade, sem trabalho, dinheiro e poder. Não foi essa a tentação do Diabo a Jesus: “Tudo isso te darei (todos os reinos do mundo e a sua glória) se, prostrando-te diante de mim, me adorares” (Mt 4, 9)?

        “Feliz o homem que não correu atrás do ouro, que não colocou sua esperança no dinheiro! Quem é esse para que o felicitemos?” (Eclo 31, 8-9).  É a exclamação do livro do Eclesiástico. “Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24), nos ensina Jesus. Servir ao dinheiro significa transforma-lo em deus, com disposição de a ele tudo sacrificar: honra, consciência, virtude, o próximo, etc.

        “Aqueles que ambicionam tornarem-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor do dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições” (I Tim 6,9-10), nos adverte São Paulo.

        O exemplo clássico de ambição, de “servir ao dinheiro” foi Judas, que vendeu Jesus aos seus inimigos. Judas certamente não queria a morte de Jesus. Queria sim lucrar com sua entrega, com seu poder, vendendo-o aos inimigos, recebendo deles o dinheiro, pensando que Jesus iria deles se libertar, como já o fizera antes. O amor do dinheiro o cegou a ponto de não enxergar a loucura que estava praticando e levando-o depois ao desespero.

        Outro exemplo de ambição do poder, ligado ao dinheiro, também ocorreu na Paixão de Cristo com Pilatos, o governador romano a quem competia julgar Jesus. Declarando por nove vezes sua inocência e tentando libertá-lo, sucumbiu ao terrível argumento dos inimigos de Jesus: a perda do cargo e, consequentemente, do dinheiro a ele inerente: se Pilatos libertasse Jesus, eles o acusariam perante César, e seu cargo correria perigo. Então Pilatos, contra a sua convicção, deixou-se vencer pela força do dinheiro e traiu sua consciência condenando Jesus, por ele proclamado inocente. Corrupto! Também corruptos foram os chefes dos sacerdotes quando deram propina aos guardas para que mentissem sobre a Ressurreição de Jesus (Mt 28,12-15).


        Chamamos de corruptos os políticos, mas nos esquecemos de que corrupto é alguém que é corrompido por outro. Esse outro, que corrompe os políticos, acaba sendo o povo que o elege. Pois elegem por interesse, elegem aquele que os beneficia ou poderá beneficiar, votam quando vão lucrar alguma coisa. Então, só os políticos é que são corruptos ou é também o povo, nós mesmos, que os elegemos na base da corrupção?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O péssimo tempero e o gosto ruim da comida pronta. Uma correlação necessária.


Por Emanuel Jr.

Essa semana vi sendo publicada à exaustão a imagem do cadáver da criança que morreu afogada, sendo recolhida à beira da praia.

Não sou insensível, como penso que a totalidade dos que aqui estão lendo também não o são e, por isso mesmo, entendem que a imagem é chocante, mas é um pequeno detalhe do que vem acontecendo faz tempo. E olha que não estou falando só de imigrações forçadas.

Quanto a essas imigrações, a hipocrisia é gigantesca: primeiro porque já morreram mais de 200.000 pessoas sendo quase 10.000 crianças exatamente como aquela; segundo porque essas várias que já morreram não tiveram nenhum minuto de mídia pelo simples fato de que não interessava e agora passou a interessar devido a uma foto e um vídeo chocantes e bem feitos com essa exata intenção; terceiro porque as mesmas pessoas que ignoravam tudo isso se sentido indignadas a mais do que precisava com um leão, são as que mais choram um problema que nunca pararam pra pensar nos motivos e que se esquecerão em quatro ou cinco dias, sobrando apenas uma leve e inconveniente lembrança de uma criança na praia.

Crianças como aquela morrem aos montes aqui do nosso lado devido a nossa negligência de achar que precisamos nos preocupar com quem está do outro lado do mundo e não com quem está perto, afinal fica mais fácil eu mandar um doação ou mostrar indignação com algo com o qual não tenho o mínimo controle, do que me envolver com algo que posso fazer alguma diferença de verdade e que está ao alcance das mãos. Não vou nem mencionar o problema de milhares de abortos que são exatamente assassinatos de crianças que não são recolhidas a beira da praia, mas na lata de lixo. Não estou minorando o problema que acontece lá, apenas estou constatando fatos. É claro que o problema de lá é sério, não sejamos, também, hipócritas de mudar o alvo.

Por lá, depois de muito se trabalhar para conseguir algo, agindo certo ou errado, mas agindo, alguns países da Europa, especialmente a Alemanha que é o principal alvo do imigrantes, conseguiram estabelecer um alto padrão de vida e construir seu país a custa de esforço e sacrifícios de todos os tipos. A Alemanha então tem uma história tenebrosa de nazismo, socialismo e absurdos do tipo.

Não vejo qualquer reflexão sendo feita por esse prisma, seja porque não interessa esse lado da história, o que denota má-fé ao analisar fatos sem levar em conta o máximo de possibilidades; seja porque sequer pensaram no assunto, o que é a pior opção, pois o fazem devido a total incapacidade de pensar além do que veem a frente do nariz.

No Brasil, hoje, vivemos fenômeno parecido sem precisar de imigração de ninguém, embora tenhamos alguns casos haitianos pululando por aí. Por aqui vemos uma imigração interna da nação dos que trabalham para a nação dos que, por um motivo ou outro, vivem as custas desses que trabalham. Até onde vamos chegar com isso? Anos atrás eu e alguns conhecidos já falávamos e conversávamos com esse nível de questionamento, hoje vejo gente que nunca imaginei questionar isso, questionando. Vi esse tipo de questionamento nessas manifestações de domingo, mas não vejo nenhum tipo de luz dos governos federal e estaduais que fomentam esse tipo de prática. Não vejo nenhum tipo de entendimento ou pelo menos esforço em olhar esse lado. Parece que nossos governos estão funcionando exatamente como aquele tipo de analista, citado lá em cima, que não consegue ver a situação por absoluta incapacidade e incompetência.


E nós? Conseguimos ver todas essas questões com o fio que liga todos esses fatos ou vamos continuar achando que cada coisa está em seu devido compartimento não existindo ligação nenhuma entre o péssimo tempero e o gosto ruim da comida pronta?

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Crise de fé.


Por Dom Henrique Soares.

Crise de fé - Dela se fala tanto hoje, sobretudo no interior da Igreja.

Sejamos sinceros: com a secularização generalizada e globalizada, com a fartura invasiva e tentadora dos bens de consumo que cegam nosso coração para o Infinito, para o que não se vê, para o Eterno, com a ilusão de que o homem se basta a si mesmo e sua cultura e sua subjetividade são o critério do certo e do errado, do bem de do mal – velha tentação da antiga Serpente, que é o Diabo e Satanás -, se torna cada vez mais difícil, também dentro da Igreja, no meio dos cristãos.

Sim! Afinal, crer cristamente não é professar teoricamente o cristianismo, mas primeiro que tudo, ser encontrado existencialmente por Jesus, ter Dele uma experiência viva, amorosa, transformadora, contagiante.

Não falo primeiramente em contagiante no sentido de contagiar outros, mas primeiramente contagiante no sentido de contagiar todos os aspectos da nossa própria vida: tudo é colocado debaixo do senhorio de Cristo, tudo é vivido Nele e por Ele, de modo que Ele seja o critério do certo e do errado, do bem e do mal, do luminoso e do tenebroso, da vida e da morte.

Só alguém contagiado assim pode contagiar outros, pode convencer, arrastar outros, porque se torna uma testemunha viva de Jesus, o Cristo.

E aqui, precisamente, está o problema, o nascedouro da crise de fé: tantos e tantos na Igreja já não creem de verdade!

Professam uma fé como ideologia, falam o tempo todo num tal de reino, nuns valores do reino que, na verdade, são os ditames do politicamente correto e de certos modismos do mundo de hoje.

Chega desse reino, chega desses valores!

Crer é aderir a Jesus, amá-Lo, servi-Lo, adorá-Lo, permanecer encantado com Ele, na escuta de Sua santa palavra e do palpitar do Seu Coração!

Quando vivemos assim, então, experimentamos em nós, no íntimo da nossa vida e das nossas atitudes e atividades, o Reino (com R maiúsculo) que Ele trouxe na Sua santa Pessoa, o Reinado do Pai, que é amor, justiça, verdade, paz, doação, comunhão, vida e ressurreição...

O Reino de Deus é o Pai de Jesus reinando em nós, em mim, como reinou em Jesus e por Jesus;

o Reino somente vem a nós na potência do Espírito Santo de Jesus, pois sem Ele ninguém jamais conseguirá deixar efetivamente que Deus reine nas nossas estruturas pessoais ou nas estruturas da sociedade, âmbito da nossa convivência e das nossas relações.

Ora, crer, então, é deixar que Deus reine na nossa vida! É o diametralmente oposto a dizer e pensar que a vida é minha e eu faço dela o que quero!

Deixar o Reino acontecer é dizer, como Santa Teresa, por amor de Jesus e ardendo nele: “Vossa sou, por Vós nasci; que quereis fazer de mim?”

Acolher, viver, testemunhar e anunciar o Reino é missão perene da Igreja.

Mas, atenção:
acolhe-se o Reino acolhendo-se Jesus,
vive-se o Reino vivendo-se Jesus,
testemunha-se o Reino testemunhando-se Jesus,
anuncia-se o Reino anunciando-se Jesus.

Mais uma vez: o Reino é Jesus presente em nós e no mundo pela bendita potência do Seu Santo Espírito; tanto que uma antiga variante do Pai-Nosso segundo Lucas, pedia, no lugar do tradicional “Venha o Teu Reino”, “Venha o Teu Espírito”!


Não tenha dúvida, meu Amigo: os dois pedidos se equivalem plenamente! Deus reina onde há abertura ao Espírito que Jesus Cristo nos dá; sem o Espírito não há nem pode haver manifestação do Reino de Deus!