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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O péssimo tempero e o gosto ruim da comida pronta. Uma correlação necessária.


Por Emanuel Jr.

Essa semana vi sendo publicada à exaustão a imagem do cadáver da criança que morreu afogada, sendo recolhida à beira da praia.

Não sou insensível, como penso que a totalidade dos que aqui estão lendo também não o são e, por isso mesmo, entendem que a imagem é chocante, mas é um pequeno detalhe do que vem acontecendo faz tempo. E olha que não estou falando só de imigrações forçadas.

Quanto a essas imigrações, a hipocrisia é gigantesca: primeiro porque já morreram mais de 200.000 pessoas sendo quase 10.000 crianças exatamente como aquela; segundo porque essas várias que já morreram não tiveram nenhum minuto de mídia pelo simples fato de que não interessava e agora passou a interessar devido a uma foto e um vídeo chocantes e bem feitos com essa exata intenção; terceiro porque as mesmas pessoas que ignoravam tudo isso se sentido indignadas a mais do que precisava com um leão, são as que mais choram um problema que nunca pararam pra pensar nos motivos e que se esquecerão em quatro ou cinco dias, sobrando apenas uma leve e inconveniente lembrança de uma criança na praia.

Crianças como aquela morrem aos montes aqui do nosso lado devido a nossa negligência de achar que precisamos nos preocupar com quem está do outro lado do mundo e não com quem está perto, afinal fica mais fácil eu mandar um doação ou mostrar indignação com algo com o qual não tenho o mínimo controle, do que me envolver com algo que posso fazer alguma diferença de verdade e que está ao alcance das mãos. Não vou nem mencionar o problema de milhares de abortos que são exatamente assassinatos de crianças que não são recolhidas a beira da praia, mas na lata de lixo. Não estou minorando o problema que acontece lá, apenas estou constatando fatos. É claro que o problema de lá é sério, não sejamos, também, hipócritas de mudar o alvo.

Por lá, depois de muito se trabalhar para conseguir algo, agindo certo ou errado, mas agindo, alguns países da Europa, especialmente a Alemanha que é o principal alvo do imigrantes, conseguiram estabelecer um alto padrão de vida e construir seu país a custa de esforço e sacrifícios de todos os tipos. A Alemanha então tem uma história tenebrosa de nazismo, socialismo e absurdos do tipo.

Não vejo qualquer reflexão sendo feita por esse prisma, seja porque não interessa esse lado da história, o que denota má-fé ao analisar fatos sem levar em conta o máximo de possibilidades; seja porque sequer pensaram no assunto, o que é a pior opção, pois o fazem devido a total incapacidade de pensar além do que veem a frente do nariz.

No Brasil, hoje, vivemos fenômeno parecido sem precisar de imigração de ninguém, embora tenhamos alguns casos haitianos pululando por aí. Por aqui vemos uma imigração interna da nação dos que trabalham para a nação dos que, por um motivo ou outro, vivem as custas desses que trabalham. Até onde vamos chegar com isso? Anos atrás eu e alguns conhecidos já falávamos e conversávamos com esse nível de questionamento, hoje vejo gente que nunca imaginei questionar isso, questionando. Vi esse tipo de questionamento nessas manifestações de domingo, mas não vejo nenhum tipo de luz dos governos federal e estaduais que fomentam esse tipo de prática. Não vejo nenhum tipo de entendimento ou pelo menos esforço em olhar esse lado. Parece que nossos governos estão funcionando exatamente como aquele tipo de analista, citado lá em cima, que não consegue ver a situação por absoluta incapacidade e incompetência.


E nós? Conseguimos ver todas essas questões com o fio que liga todos esses fatos ou vamos continuar achando que cada coisa está em seu devido compartimento não existindo ligação nenhuma entre o péssimo tempero e o gosto ruim da comida pronta?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mas ele é o Papa.


Por Emanuel Jr.

Esses dias me deparei em uma dessas redes sociais com uma carta aberta para o Papa Francisco sobre a intenção de ele de mudar a doutrina da Igreja.

Fico realmente abismado com esse tipo de atitude pelo simples fato de que vejo uma carta como essa com extrema má-fé de quem escreve e ainda divulga. Se quisesse tanto saber as respostas dessas questões que julga essenciais e realmente o são, esperaria as respostas e se empenharia em elas serem respondidas o quanto antes no lugar de ficar causando confusão ao divulgar isso publicamente. A maioria das pessoas sequer entende o que está lendo num texto desse.

O problema é que tem muita gente querendo ser mais católico que o Papa. Esquecem que ele é a cabeça visível da Igreja. A Igreja não erra em questão de moral e fé e por isso ele não pode errar. Quem não acredita nisso não é católico e aí os termos da discussão precisam mudar. Quem não acredita nisso pode muito bem acreditar que ele quer mudar a doutrina e começar com a teoria da conspiração. Mesmo que ele queira mudar ele não pode fazer isso. É uma questão de fé que ele não vai conseguir mesmo que ele queira.

Não sou o maior fã dele, digo isso claramente, mas ele é o Papa. Isso também não significa que eu o odeie ou o desobedeça, mais uma vez precisa ficar claro que ele é o Papa. Se fosse eleito o Leonardo Boff para Papa eu, da mesma forma, obedeceria, embora tenha certeza que rezaria três vezes ao dia para que o papado fosse o mais breve possível. Acho que o Papa Francisco é dúbio nas declarações, fala quando não devia, se cala quando devia falar, fala sobre assuntos desnecessário e usa expressões impróprias, age inadvertidamente e se atém a questões que parecem, nesse momento, menos importantes que outras. Mas ele ainda é o Papa e sozinho ele não pode fazer nada contra a Igreja mesmo sendo o Papa.

Não acredito que ele tenha má-fé ao fazer nada disso. Acredito só que ele é latino e todos esses defeitos de falar na hora errada, ser dúbio, usar expressões desnecessárias... isso é coisa nossa de latinos. Tem também o problema de que ele é claramente limitado teologicamente. Perto de Bento XVI ele é um estudante mal sucedido. Perto de São João Paulo II ele é um sociólogo de beira de esquina. Mas quem disse que pra ser Papa tem que ser exímio teólogo?

A Igreja já teve inúmeros Papas horríveis no sentido claro da palavra. Foram pessoas terríveis, assassinos, fizeram orgias dentro do Vaticano, indignos, ladrões, adúlteros... nada disso destruiu a Igreja. Porque uma pessoa que peca pelo simples fato de ser dúbia ou omissa destruiria algo que é indestrutível (Mt 16,18ss)?


Existe um ditado antigo que diz que cada período tem o Papa que precisa. Precisamos desse nesse momento. Se ele é ruim, precisamos ter isso como penitência e esperar passar. Sofrer com o sofrimento da Igreja e de todos em volta dela. Se ele só não é capaz, também precisamos esperar para ver até onde vamos e porque vamos. Ele é que conduz a barca. Não sou eu, nem teólogo algum por mais nome que tenha. Eu ou você podemos até saber mais sobre conduzir um barco que ele, o Papa, mas isso não importa, ele é que conduz. Não faz diferença eu saber mais se ele é que tem a responsabilidade. O que preciso é confiar. Confiar não na promessa dele, mas de Deus que disse que estaria com a Igreja todos os dias até o fim (Mt 28,20b).

quinta-feira, 19 de março de 2015

O revolucionário é um infeliz.


Por Emanuel Jr.

Eu realmente gosto de arroz, feijão, alguma salada e bife. É minha comida predileta. Não precisa muito mais que isso, mesmo que todo dia, para me agradar. Eu também gosto de ler, assistir algumas séries de TV, novela não, mas um ou outro filme, especialmente daqueles que muita gente morre de uma só vez sabe... estilo “Duro de Matar” e coisas do tipo. São os meus gostos. Sempre os sigo.

O conservador quer conservar o que tem,
portanto está feliz com o que tem.
Fico imaginando se eu fosse um revolucionário desses comunistas ou anarquistas ou qualquer coisa lunática dessa. Provavelmente, dentro do pensamento deles, eu deveria gostar do comer arroz, bife e salada, mas não deveria continuar fazendo isso porque iria contra a revolução.

Na verdade eu não estou ficando doido e nem escrevi isso em uma noite mal dormida. Na verdade estou usando um argumento simples: você conserva o que gosta. Se eu não gostasse de ver filmes de ação eu simplesmente mudaria de canal. Já que eu gosto, eu os mantenho. Eu os conservo.

Conseguiu pegar o cerne da questão? O conservador é aquela pessoa que está feliz e satisfeita com o que tem e como as coisas são. Não é uma pessoa simplesmente conformista, não se trata disso, mas é uma pessoa que está feliz e realmente gosta de como as coisas funcionam. Elas podem até não ter seu funcionamento sempre dentro da perfeição desejada, mas o conservador entende que as coisas não são perfeitas para que se exija perfeição delas e, principalmente, entende que as pessoas não são perfeitas, inclusive ele. Se não há perfeição nos agentes de uma ação, impossível cobrar perfeição no resultado final. Contudo é possível melhorar cada vez mais o caminho para que se chegue cada vez melhor em um resultado. O revolucionário não pretende melhorar nada. Ele pretende destruir todo o caminho pra fazer um resultado melhor. Como isso pode dar certo, nem eles sabem explicar.

O revolucionário não gosta do que tem,
mas não está satisfeito em apenas mudar.
Destrói o que não gosta.
Tudo isso, por parte do revolucionário, é um tanto quanto contraditório. O revolucionário quando não gosta do filme ele não se contenta em mudar de canal, ele difama o canal, liga para a operadora de TV a cabo (se for o caso), reclama nas redes sociais e, no final de tudo, quebra a televisão que não tinha nada com o assunto. O revolucionário é um infeliz por natureza. Isso é lógico! Quando se está infeliz com algo, o que queremos é mudar e não conservar. O conservador pretende conservar justamente porque é feliz com o que pretende manter, apesar de saber que tudo pode ficar ainda melhor.

Trata-se de uma pequena linha de raciocínio em lógica para definirmos alguns pontos. Contrapontos são sempre bem vindos, contudo devem ser igualmente bem vindos os contra-argumentos, essa parte o revolucionário também não permite já que ele está certo e você sempre errado pelo simples fato de você existir.


Antes que alguém realmente me chame de louco por argumentar assim, já afirmo aqui que a linha de raciocínio não é minha, mas de Peter Kreeft em seu livro “Sócrates encontra Marx”. Uma bela sugestão de leitura principalmente para os revolucionários de plantão. Mas tem que ler até o fim heim.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Feminismo revolucionário e anárquico.


O feminismo é algo que vem assolando a sociedade ocidental e já contamina a oriental há um bom tempo. Tanto que o escritor Chesterton, ao escrever seu livro “O que há de errado com o mundo” no ano de 1910, já dedicou todo o seu capítulo III para o feminismo que já não era tão nascente assim.

A questão é interessantemente colocada pelo autor logo no tópico 1 do capítulo III quando, dentre outras tantas ideias desenvolvidas, ele informa que o feminismo é um caminho sem volta; não é revolucionário como conclama as suas militantes, mas é anarquista.

O que Chesterton diria se visse em que se tornou o feminismo nos dias atuais. Um feminismo que não tem somente “as militantes”, mas tem também “os” militantes. Chesterton provavelmente diria a célebre frase que enfurece qualquer um: bem que eu avisei.

O feminismo não é revolucionário, segundo Chesterton em seu livro, pelo simples fato de que não pretende tomar o poder pra mudar uma realidade latente. A ideia do feminismo é simples: lutar. O feminismo não pretende destruir a sociedade atual, como quis a Revolução Francesa. O feminismo quer obstruir os caminhos. Pretende facilitar o caminho para as mulheres ao mesmo tempo que dificulta para os homens. Apenas causa desordem no lugar de estabelecer uma nova ordem e, por esse motivo, acaba por renovar-se infinitamente em seus ideais e objetivos, ou seja, nunca alcança nada.

Por tudo isso é que o feminismo era e continua sendo um conjunto de ideias que não visam um objetivo simples e direto. Ele só pretende causar o choque entre diferentes dentro de uma mesma cultura. É covarde uma vez que não tem a coragem de estabelecer-se onde realmente pode fazer a diferença para a melhoria da vida das mulheres: o islã por exemplo. Se choca com o que chama de patriarcado, mas não pretende realmente a igualdade, quer a extinção do sexo oposto, como se isso não significasse a extinção da humanidade.


Aos que consideram exageradas as proposições colocadas aqui, procurem se aprofundar nos motivos que levam mulheres a participarem de algo com o nome de “Marcha das Vadias” ou mesmo o que pretendem mulheres que tiram a roupa em público e mostram o corpo para protestar contra a coisificação do corpo feminino. Procurem a lógica desses pensamentos e conversamos em seguida.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Afinal de contas: o que vem a ser indulgência?


Por Emanuel Jr.

Essa minha pergunta não é muito comum, como bem sabemos, nas escolas de ensino fundamental e médio de nosso país. Os professores de história (ou estória você escolhe) fazem questão de fazer uma confusão generalizada quanto ao termo. Na verdade eu até hoje não entendi se fazem isso por absoluta má-fé ou porque na verdade não tem a mínima ideia mesmo e na falta de conhecimento é melhor atacar a Igreja e pronto.

Agora me digam uma coisa: se no ensino fundamental e médio não ensinam o que significa indulgência será que na faculdade ensinam? Prefiro não comentar...


Vamos aos fatos. É muito mais fácil dizer e repetir indefinidamente que a Igreja vendeu indulgências e levar todo mundo a erro deixando no ar, ou bem claro, que isso era o mesmo que o perdão dos pecados. A lógica é fazer o seguinte caminho: a Igreja vende o perdão de Deus e lucra com isso. É o mesmo que vender lotes no céu. A verdade é que está tudo errado. Esqueçam, apaguem isso tudo da cabeça porque nada disso tem valor por um simples fato: mentiram pra você.

O Catecismo da Igreja Católica esclarece sobre as Indulgências que podem ser alcançadas:

§1479 - Uma vez que os fiéis defuntos em vias de purificação também são membros da mesma comunhão dos santos, podemos ajudá-los obtendo para eles indulgências, para libertação das penas temporais devidas por seus pecados.

Me digam uma coisa: “libertação da penas temporais devidas pelos seus pecados” é o mesmo que perdão dos pecados? Ponham a mão na consciência e debrucem sobre seus alfarrábios. Claro que não!

Vamos continuar no mesmo Catecismo porque ele fala muito melhor do que esse ínfimo interlocutor:

§1498 - Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do Purgatório, a remissão das penas temporais, seqüelas dos pecados.

Oh céus!!! Então quer dizer que pode-se até obter indulgências para quem já morreu? Sim. E para não falar que minha opinião não vale nada, como já disseram esses dias em um site desses por ai, vamos ver o que o Papa Paulo VI fala sobre o assunto:

"Indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos" (Paulo VI, Const. Apost., Indulgentiarum doctrina, 2)

Acho que ficou bem claro que o pecado já está perdoado quando se é aplicada a indulgência ,não é? Pois bem, se já está perdoado então quer dizer que não é o perdão e se não é o perdão então não tem como a Igreja vender ou ter vendido o perdão de Deus, que é gratuito. Aliás gratuito não, a moeda é o arrependimento acompanhado de confissão ou o batismo, claro!

Como parece não ter ficado muito claro, vamos desenhar. A cada pecado, dois efeitos aparecem: a culpa (ou pena eterna), e a pena temporal. Exemplificando temos que um criminoso atinge a vítima e também a sociedade através do seu delito. Pela violação da ordem social advindo do crime que cometeu, o criminoso cumpre uma pena que a Instituição Estado impõe. Transportando: o pecador comete o pecado (crime contra Deus) e recebe uma pena (penitência) da Igreja (Instituição Divina) para que seu erro seja sanado. Voltando ao criminoso, já em relação à vítima direta de sua ação criminosa, deve, além da pena (prisão, por exemplo) a ser cumprida conforme o Direito, indenizar pelos danos que aquela pessoa em particular sofreu. Essa indenização é a pena temporal que gera a indulgência no caso da Igreja.

Ao pecar, ofendemos a Deus e essa ofensa gera uma desordem a ser reparada. Essa ofensa corresponde à culpa, à pena eterna, e a tal desordem à pena temporal. Por esse motivo é que o sacerdote nos dá uma penitência a ser cumprida. Não se trata de “pagar” pelos pecados, pois Cristo já o fez. Nem condição para o perdão. A penitência imposta serve, na verdade, para reparar as consequências do pecado já perdoado na confissão. Não rezamos “três ave-marias”, por exemplo, para que o pecado seja perdoado, porém para reparar a pena temporal unida à pena eterna do pecado cometido, esta última perdoada pelo sangue de Jesus na absolvição sacerdotal.


O perdão, portanto já existe. A pena temporal é que é "paga". Séculos atrás era comum pessoas de muita posse pagar essas penas com valores altíssimos em dinheiro ou em terras ou em ouro ou qualquer outro bem material. Trata-se de costume e, muitas vezes de vontade, porque, queiram os catolicofóbicos ou não, a grande maioria entregava riquezas à Igreja por livre e espontânea vontade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Buscar a santificação é coisa diária.


Por Emanuel Jr.

Santidade: uma batalha espiritual.
Engraçado como as pessoas entendem a santidade. Esses dias falávamos aqui mesmo sobre quem é o típico religioso. Discorremos que a Igreja não é para os santos, esses estão prontos, a Igreja é para os pecadores. Não é para os bonzinhos, mas especificamente para os mauzinhos, pois assim se redimiriam dos seus erros.

A visão que a sociedade tem, constatadamente é equívoca e equívoca também é a visão que temos sobre o caminho da santidade.

Esquecemos, frequentemente, que a santidade por aqui é sempre um caminho para a santidade, um caminho de santificação. Ninguém está pronto, ninguém atinge a santidade e a partir dali é santo. Isso não existe. Quem alcançou a santidade e estagnou nessa situação já morreu fisicamente. Esses não deixarão de ser santos nunca mais. Nós temos uma longa caminhada pela frente. A luta é diária, pois a tentação é diária.

Não há santificação sem cruzes.
Porque pensamos que os grandes santos que estão em nossos altares não passaram por dificuldades? Será que atingiram um patamar de santidade e ali de acomodaram aguardando o arrebatamento? Claro que não. Se santificaram dia após dia, tentação após tentação.


É certo que souberam lhe dar melhor com essas tentações do que nós, mas só souberam por que buscaram o caminho da santidade. Porque teimamos em não buscar a santificação e achar que é algo impossível (?) ou que podemos deixar essa ou aquela atitude para quando eu atingir minha santidade? Entendamos que esse momento não chegará. Pelo menos não para você ir realizar qualquer outra coisa. A santidade se conquista diariamente. Não se atinge a santidade e pronto!!! Sou santo. Agora vamos viver essa santidade dentre a humanidade podre e pecadora.

sábado, 15 de novembro de 2014

O que é ser religioso?


Por Emanuel Jr.

Esse dias, lendo alguma coisa sobre o assunto, me vi em uma encruzilhada. Como toda encruzilhada foi preciso tomar uma decisão. Direita ou esquerda, frente ou verso, certo ou errado! Essas decisões nos colocam em situação difícil, porque difícil é ter que decidir, ter que tomar partido e, às vezes, magoar alguém.

O religioso é aquele que toma partido pela verdade. Não importa se a verdade está em cima ou embaixo. Se está contra tudo e contra todos. Não busca uma verdade relativa, isto é, uma verdade que muda a cada minuto e a cada mente. A verdade não é uma metamorfose ambulante. A verdade é a verdade, simplesmente. A verdade é a mesma desde sempre e sempre continuará sendo, independente do que pensa a sociedade ou do grau de evolução em que ela se encontra.

O religioso é isso. Alguém que busca a verdade e sabe que ela existe. Não é, ao contrário do que a maioria pensa, coisa de santos e bonzinhos. Não importa se você é bonzinho ou mauzinho. O que importa é a sua busca por essa verdade. Aliás, a religião é o contrário de coisa de bonzinho. Devia ser vista como coisa de mauzinho.

Vamos a explicações. Nossa vida de cristão católico não é um contínuo conflitar de erros e acertos? Não se trata de viver reconhecendo nossa mediocridade humana frente a Deus, arrependendo-se e pedindo perdão por nossas falhas? Quem falha, quem erra, quem peca não é o bonzinho da história. Pelo contrário! Não foi a toa que Jesus afirma que veio para os doentes e não para os sãos.

Eterna luta para alcançar a santidade.
Se você já se considera santo e com seu lugar reservado ao lado de Deus, então não precisa mais estar aqui, não precisa mais da religião, não precisa mais da Igreja. Qual o objetivo principal da Igreja? Nada mais que salvar as almas. Não se trata de fazer desse mundo o paraíso divino, muito menos eliminar com as cruzes de todos para que o paraíso se antecipe por aqui mesmo. A Igreja não tem essa obrigação. Não foi instituída por Cristo para isso.

Os doentes, ou seja, os antagonistas da história, é que são o alvo da Igreja. Eles, nós, precisamos da Igreja para a salvação.


Esse é o espírito do religioso. A busca pela verdade, verdade que só pode estar em uma instituição bimilenar, criada pelo próprio Jesus Cristo, que tem em seu “chefe” maior o poder de ligar e desligar.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Direito natural e a prova empírica no marxismo.


Por Emanuel Jr.

A encíclica Rerum Novarum em seu número 5 começa manifestando a importância do direito natural.

Quem realmente está no centro?
Como uma encíclica social, aliás a base de todas elas no âmbito moderno, a Rerum Novarum monta toda uma sequência lógica para mostrar a impossibilidade do direito natural frente ao socialismo e consequentemente o paradoxo entre ser católico e ser socialista. A partir dessa encíclica várias vezes constou em outros documentos, homilias e audiências os motivos diversos dessa impossibilidade, incongruência e paradoxo.

A questão é ligeiramente simples, contudo difícil de entender devido a nossa grande contaminação marxista em nossa forma de pensar, ver o mundo, raciocinar e conceber a forma de se argumentar.

O marxismo em seu mais puro berço, o próprio Marx, tem em sua base o materialismo, ou seja, a impossibilidade de conceber qualquer prova que não seja empírica. A prova filosófica e a prova lógica são solenemente descartadas.

Assim sendo, o que não é provado empiricamente simplesmente não existe. Dessa forma, Deus não existe, pois não pode ser provado empiricamente. Conceber que tudo o que está a sua volta não pode ter resposta para a pergunta “quem os criou”, não pode ser entendido como prova se o raciocínio for puramente argumentativo lógico, em outras palavras: ninguém se importa com Sócrates e sua lógica.

Esse pensamento empirista e, podemos dizer, cientificista, vem crescendo desde o período consagrado como iluminismo. O iluminismo foi uma ruptura muito grande com o pensamento que tangia a época. Até então ciências filosóficas, sociológicas e teológicas eram consideradas ciências na gênese da palavra. Hoje são consideradas mais como formas individuais e variáveis e se direcionar um raciocínio.

Não se trata de teoria da conspiração.
Não se trata de imaginar que é uma teoria da conspiração que vem sendo orquestrada desde antes do iluminismo para preparar um socialismo latente que hoje vivemos e que tende e piorar, se arraigar e aprofundar cada vez mais daqui pra frente.

Trata-se de pensar logicamente: para o socialismo nascente era muito conveniente esse tipo de pensamento cientificista e empirista. Conveniente porque não se argumenta ou se prova Deus fora da filosofia e teologia, isso enquanto falamos de ciências. Obviamente que se experimenta Deus pela fé, pela contemplação e reflexão, mas dentro das ciências apenas dentro da filosofia e teologia, isso se a tivermos como coisas totalmente diferentes, o que muita gente não concorda. Assim fez alguns famosos conhecidos: Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, só pra falar sobre os mais comentados.

O Direito Natural, por sua vez, advém primordialmente de algo inscrito desde sempre no ser humano. Impossível pensar o direito natural como algo desenhado no homem após seu nascimento pelo contato com a sociedade, sem corromper esse direito em todos os seus níveis. Portanto, se essa inscrição vem com o ser humano, nada mais correto pensar que alguém ou algo fez essa inscrição. Sejamos sinceros e não vamos argumentar sobre o acaso. Acaso é o caminho fácil e não estamos dispostos a pegar atalhos errados e terminar o artigo por aqui.

Se alguém inscreveu isso no ser humano esse alguém é superior. Não vamos aqui nos ater ao Deus cristão, muçulmano ou judeu; apenas no que importa para essa argumentação: sua existência. Se Deus existe, existe algo após essa vida e existe hierarquia, já que não estamos no mesmo nível de um ser superior que nos cria. Se essa hierarquia existe em um nível superior, nada mais justo pensar que é impossível eliminá-la em um nível inferior. O nível inferior, nesse caso somos nós.

Enfim, afora as divagações, a prova empírica elimina Deus do caminho. Elimina porque uma ciência empírica falha nunca vai conseguir demonstrar a existência de algo superior e perfeito, a não ser que Ele se deixe revelar. Se Ele se deixar revelar, não será mérito dessa ciência empírica, mas sim uma simples concessão desse ser superior e perfeito. Aos que creem, sabemos que Deus não se revela dessa forma, portanto, sabemos que isso não vai acontecer por mais que a propaganda seja contrária a essa afirmação.

A prova empírica, eliminando Deus do caminho, abre as portas para o antropocentrismo, que por sua vez não pode aceitar o Direito Natural, caso contrário o homem não estaria no centro, mas sim a Natureza da qual esse Direito vem.


Nada mais cômodo para o socialismo crescente, portanto, eliminar com o Direito Natural através de um cientificismo que não leva ninguém a lugar nenhum, ou melhor, nos leva a simplesmente ignorar questões que sempre nos foram muito caras como ética, moral e liberdade de consciência.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Divagando sobre o sofrimento. Quinta parte. Paradoxos da tribulação.


Por Emanuel Jr

Contemplação: solidão e melancolia.
No cristianismo vários paradoxos podem ser encontrados. Podemos pensar desde o mais básicos até o mais complexos. Os exemplos multiplicam-se. Desde que há alguém falando em cristianismo como modo alegre e sorridente de se viver, algo muito cogente no governo de nosso Papa Francisco, ao mesmo tempo temos o cristianismo que diz que acima de tudo isso está a contemplação. Ah, a contemplação! Momento único, isolado e melancólico. Eis um dos grandes problemas: como conciliar a melancolia com a alegria. Desses paradoxos é feito o cristianismo.

Ao mesmo tempo em que alguém afirma que o cristianismo defende o capitalismo, a doutrina social nos informa que não, não somos capitalistas, mas também não somos de forma alguma socialistas, afinal esse é intrinsecamente mau. Mas e então? Aprendi a discernir que sempre que me coloco a frente de um dilema como esse e tantos outros que já me apareceram, basta procurar, porque em algum momento de sua história a Igreja já terá se manifestado a respeito. Descobri também que muitas vezes ela não se manifestou com a audácia e demonstração de força que eu gostaria e outras vezes que se manifestou em total desacordo com o que eu penso. Que eu me adeque nesse último caso.

A grande questão é que dos muitos e variados paradoxos aparentes de que é feito o cristianismo, temos um que é preferencial de muitos teólogos e santos e que hoje se mostra ainda mais desconfortável de se falar devido a atual e crescente onda de ateísmo. Esse paradoxo é a tribulação.

Cristo disse claramente que:

"Bem-aventurados são os pobres de coração, pois deles é o Reino dos céus" (Mt 5, 3)

Mas Cristo e em todo o transcurso da Bíblia fica muito claro o que temos sobre as esmolas:

"Dá esmola dos teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti. (Tobias 4, 7)

"(...)porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas." (Tobias 4, 11)

"A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo." (Tobias 4, 12)

"Meu filho, não negues esmola ao pobre, nem dele desvies os olhos." (Eclesiástico 4, 1)

E pra não dizer que falei só de antigo testamento, vamos ao que Novo diz a respeito do tema:

"Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á." (São Mateus 6, 4)

"Dai antes em esmola o que possuís, e todas as coisas vos serão limpas." (São Lucas 11, 41)

A dúvida sempre me foi muito clara: se o Reino dos céus é dos pobres, porque raios de motivo eu devo tirar o pobre de sua pobreza. Parece-me lógico que o tirando da pobreza eu o afasto do Reino dos céus à custa da minha aproximação. Uma coisa deve mesmo interferir na outra ou mesmo depender da outra? Como conciliar isso tudo? A prática da justiça social e compaixão dando esmolas e removendo a pobreza não é lícita ou é?

Se o sofrimento, como consta nas bem-aventuranças é tão bom, não deveria ser ele procurado no lugar de evitado? Afinal Jesus não orou para ser poupado no Getsêmani? Se orou para ser poupado, como pode o sofrimento levar aos céus e como pode Deus, que é perfeito, ter tal vontade?

O grande paradoxo aparente é que vemos o sofrimento, a tribulação, como um bem em si mesmo ou como um mau em si mesmo. Ele não é. Ele é uma consequência ou mesmo uma dependência. O que precisamos urgentemente entender nesse mundo que tenta escapar do sofrimento, muitas vezes legitimamente, é que há algo positivo para o sofredor em qualquer experiência penosa. O grande problema está sendo identificar o que é positivo no sofrimento. Pois bem, o sofrimento e a tribulação são positivos quando sofridos em total e absoluta submissão à vontade de Deus. Estando submisso à vontade de Deus, nosso sofrimento é apenas um meio para a santificação, uma prova a que devemos passar para aprender mais e mais, contudo isso não encerra a questão. Como resolver o problema de quem é espectador desse sofrimento? Deve continuar como espectador e ver, passivamente, a tribulação alheia? Obviamente que não, apesar de o parente paradoxo nos remeter a isso. Para os espectadores, o sofrimento alheio deve despertar a compaixão que, uma vez despertada, faz com que os atos de bondade sejam levados a algum grau. Quanto maior o grau, maior o mérito.


Assim sendo, o sofrimento entregue diretamente a Deus, em total submissão à Sua vontade, é meritório não pelo sofrimento em si, mas pela obediência. Cristo sofreu por nós não porque tinha que aprender alguma coisa, mas porque tinha total obediência ao Pai e essa era a vontade do Pai. Os sofrimentos foram oferecidos em totalidade, contudo o sofrimento de um Deus (Cristo) obviamente é muito mais meritório que qualquer tipo de sofrimento humano. Assim, Cristo pagou os pecados de toda a humanidade e abriu caminho para que façamos o mesmo com nós mesmos. Por outro lado, aquele que assiste ao sofrimento alheio precisa estar cheio de compaixão para com o aquele sofrimento e, então, não será a tribulação ou não tribulação do outro que o levará a ter méritos, mas a compaixão sentida e externada dentro do máximo possível naquele momento.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A propriedade privada como Direito Natural na Encíclica Rerum Novarum.


Por Emanuel Jr.

Conceber o direito a propriedade sem entender profundamente o que vem a ser direito natural, é como tentar entender o universo através de jornais televisivos, a confusão é total e inerente.

O início do número 5 da Encíclica Rerum Novarum aborda o tema com clareza, contudo é preciso que certos conceitos estejam muito bem delineados e suas fronteiras precisam estar em perfeita consonância com o que se fala e se entende, caso contrário vai ser como entender o mundo através do jornal televisivo.

Marx, em seus devaneios sobre a propriedade, gostava de dizer que se o direito natural sobre a terra existe é porque iniciou-se em algum momento e que esse momento foi o instante da conquista dessa terra. Se o direito natural pertence à humanidade, como de fato pertence, seria apenas uma questão de tempo para que os que ficaram sem esse direito natural reconquistassem esse direito. A forma de reconquista? A força.

Como humanitário que Marx era (se achava assim), obviamente que entendeu que a força não seria o melhor meio, portanto alguma outra forma deveria existir. A forma encontrada por ele é que ninguém deveria lutar por terra alguma, o direito natural de propriedade não existe e o Estado deve tomar conta de tudo para prover da melhor forma tudo e todos. Em rasas palavras é essa a bela tese de Karl Marx enfocando o direito natural à propriedade privada.

Parece ter ficado claro que Marx não entendeu absolutamente nada de direito natural ou deturpou seu aprendizado.

O direito natural não é conquistado como se conquista uma trincheira em uma guerra. O direito natural é como o nome diz: natural. Ele está fundado na natureza a que se dedica. Para que não só minhas palavras ressoem nesse sentido, vejamos o que é mencionado em outros livros, dicionários e autores:

“O conceito de direito natural traduz-se na existência de um direito fundado na natureza das coisas e, em último tempo, na vontade divina, no direito justo, denominando-se por concessão jusnaturalista (do jusnaturalismo).”

Obviamente que a natureza divina nesse contexto marxista não existe, o que faz confundir ainda mais a cabeça dos adeptos e coaduna ainda mais a posição da Igreja de que não é possível ser marxista e católico (religioso) ao mesmo tempo, são posições paradoxais.

Direito natural é a ideia abstrata do Direito, o ordenamento ideal, correspondente a uma justiça superior e anterior – a chamada norma jurídica hipotética e fundamental
(Teoria Geral do Estado - Hans Kelsen)

Os conceitos de direito natural sempre vão terminar se deparando com a origem divina. Tanto em Kelsen quanto em Aristóteles, Cícero ou qualquer pensador sério, o conceito se deparará com sua origem: Deus. Por esse fato é tão difícil ser entendido dentro de Estados socialistas ou com tendências a esse sistema. Deus não pode fazer parte do socialismo porque destruiria as bases do sistema. O sistema socialista/comunista, portanto, é fundado em conceitos contrários ao Direito Natural. Abaixo veremos mais um conceito assim delineado:

Direito natural é o que emana da própria natureza, independente da natureza do homem (Cicero). É invariável no espaço e no tempo, insuscetível de variação pelas opiniões individuais ou pela vontade do Estado (Aristóteles).Ele reflete a natureza como foi criada. É anterior e superior ao Estado , portanto, conceituado como de origem divina.
(TEORIA GERAL DO ESTADO- Maluf, Sahid. pag 23)

É por esses motivos que o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum, começa o número 5 da referida encíclica, afirmando que o remédio que o socialismo propões está em confronto com o direito natural:

5. (...) o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural.

Não se trata de algo de altíssimo grau intelectual e, portanto, de difícil alcance, entender que devemos praticar o bem e evitar o mal. Nossos pais, muitas vezes sem entender isso, nos ensinaram assim. Os pais deles, nossos avós, já foram ensinados assim. Provavelmente a maioria deles sequer tem noção do que é direito natural, contudo a prática é comum justamente por ser natural. Ele é inerente ao ser humano que já nasce com essa lei natural inscrita em sua mente, em sua alma.

O direito de propriedade decorre dessa mesma lei natural que nos impulsiona a lutar pela própria vida e a não fazer aos demais o que não queremos que façam conosco (Tb 4, 16). Essa máxima é bíblica, contudo somente reflete o que está no homem desde que esse existe. A Bíblia apenas refletiu o que já existia.

A propriedade privada é de direito natural pelo simples fato de que é a expressão da pessoa humana. É fruto do seu trabalho ou do de seus antepassados. É o espelho do indivíduo, que precisa de um aconchego preservado pela privacidade, onde pode ser ele mesmo, cercado dos sinais que identificam o seu eu. Ela estimula o trabalho, sendo o homem atraído espontaneamente pela perspectiva da recompensa direta e pessoal de seus esforços. E isso de importância extrema.

Mais ainda que isso, a propriedade é a lógica de uma sociedade articulada e organizada, ao contrário da meramente coletiva que é pregada por socialistas de todas as correntes, que tem por consequência uma sociedade massificada, sem diversificação nem liberdade.

Defendendo a propriedade privada como faz a Igreja e como todo Católico Apostólico Romano deve fazer, estamos defendendo a liberdade individual em contraposição à massificação social pela cultura, costumes, atitudes e omissões, reações, palavras e dons pessoais.

“A propriedade faz parte da natureza do homem e da natureza das coisas. Como o trabalho, ela encerra um mistério – é a projeção da personalidade humana sobre as coisas. A pessoa tende à propriedade por um impulso instintivo, do mesmo modo que a nossa natureza animal tende ao alimento. O apetite da propriedade é tão natural à nossa espécie como a fome e a sede; apenas é de notar que estes são apetites da nossa natureza inferior, ao passo que aquele procede da nossa natureza superior. Todo o homem tem alma de proprietário, mesmo os que se julgam seus inimigos. É isto que se entende quando se afirma que a propriedade decorre do direito natural” (R.G. Renard, L’Église et la Question Sociale, p. 137 et seq.).

Em igual prisma, a propriedade faz parte da dignidade da pessoa humana e está intimamente ligada a essa dignidade. Senhor dos seus atos, para agir com toda a independência, o homem tem necessidade de poder apropriar-se exclusivamente de certos bens, para orientar sua atividade segundo suas aspirações e seus gostos e trabalhar, sem coação, no desenvolvimento de sua personalidade.


Enfim, entendendo a propriedade privada como algo inerente ao ser humano e não como algo que deve ser conquistado, como pensava Marx, temos a propriedade como direito natural e não como conquista pessoal que deve ser violenta ou intelectualmente retirado de outrem. Todos temos inclinação a proprietários e sob essa base é concebida a Encíclica Rerum Novarum.

sábado, 28 de junho de 2014

A moral cristã e Game of Thrones.


Por Emanuel Jr.

Não é a minha melhor performance falar de cinema, analisar novela e séries e dar uma de crítico dessa arte, na verdade não entendo absolutamente nada do assunto, mas me senti levado a isso nos últimos dias ao ver a quarta temporada da série Game of Thrones. Fiquem tranquilos, não temos spoilers aqui.

Comecei a ver a série por pura propaganda. Era tanta gente falando dela que me senti envolvido pela propaganda boca a boca. Tenho que confessar que fiquei assustado com os primeiros episódios da primeira temporada. Eu não esperava uma violência daquela, mesmo com a propaganda.

Mas o que mais me chamou a atenção é justamente o porquê dessa violência, seja visual, seja psicológica, seja moral. Fui evoluindo na série e, episódio por episódio fui percebendo como funcionou a cabeça do autor. É, eu tenho essas coisas mesmo. No lugar de me envolver com a história fico pensando como foi feito, o que está por trás, com pensou o autor.... Coisa de gente meio doida. Confesso!

A total ausência de moral cristã marca a série.
Mas percebi que o autor, querendo ou não, imaginou um mundo de fantasias, sem dúvida, e ambientado em uma possível idade média estereotipada , mas, sobretudo, um mundo sem qualquer risco ou herança de moral cristã. Claro que seria impossível pensar em um mundo sem moral cristã, portanto ele usou o que não poderia ser retirado para causar mais violência psicológica ainda.

A tal violência pra mim é algo permanente na série justamente devido à moral cristã estar muito presente no que eu tenho como certo em minha vida. Assim, temos horrores como relacionamento sexual entre irmãos, incestos dos mais variados, orgias, total desprezo pela vida humana, luta pelo poder em um vale tudo político em que as cabeças rolam sem qualquer discriminação. As lutas e sangue escorrendo são meros detalhes. Tudo isso acontece nos deixando em um ambiente de tensão, já que os personagens principais acabam morrendo e você fica sem referência na série até entender que a referência mudou. Um sem número de histórias acontecendo paralelamente em confluência com uma história central também fazem um contexto muito bom.

A Patrulha da Noite com os cadáveres de quem
lutou para proteger quem nunca saberá que foi protegido
Toda essa experiência de um mundo sem moral cristã, fez com que o Autor criasse um único mundo possível sem essa moral que muitos querem destruir ultimamente: um mundo de absoluta violência e maquiavélico no sentido literal da palavra (os fins justificam sempre os meios).

Outra coisa que me chamou muito a atenção é o celibato dos que cuidam da muralha: a patrulha da noite. Eles são celibatários justamente para cuidar de algo que está além do entendimento de quem está sendo protegido pela muralha de gelo. Essa analogia me faz pensar em algo mais profundo. Ao que me lembro, no juramento deles consta o celibato, justamente para não se verem responsáveis particularmente por ninguém, mas sim por todos que estão depois da muralha e, assim, poderem fazer o seu trabalho da melhor forma. Consta também que não tem mais sobrenomes, títulos ou regalias. Afirma-se também que protegerão os que nunca saberão que foram protegidos.

A muralha que divide o conhecido do desconhecido e
que deve proteger a todos com a ajuda da Patrulha da Noite
A ideia da Patrulha da Noite é interessante analogamente em todos os pontos de vista. São celibatários, ok. Perdem os títulos e sobrenomes, ok. Protegem o mundo do que está além da muralha e é desconhecido, ok. Não são reconhecidos pela proteção que realizam, muito menos pela vida que dispensam pra esse fim, ok. São pessoas que muitas vezes não conseguem seguir seus votos, ok. E por aí vai.


Muita coisa que merece ser analisada mais a fundo. Muita analogia que foi feita e muitas vezes não nos damos conta. Muita coisa a ver com nossa doutrina cristã e os efeitos dela no mundo atual.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Da temperança.

Por Emanuel Jr.

Dentre as quatro virtudes morais, temos a temperança como uma das mais presentes quando se pretende levar uma vida de mortificações a caminho da santidade e perfeição.

O objetivo principal da temperança é moderar todo o prazer sensível, ou seja, equilibrar racionalmente funções orgânicas e aquelas ligadas à propagação da espécie, nesse caso mais diretamente, relações sexuais e tudo o que as envolve. Equilibrar prazeres sensíveis advindos do tato e do gosto tem o objetivo de temperar todo esse conjunto para um fim honesto e sobrenatural.

A moderação desses prazeres sensíveis nos levam a conhecer melhor e a impor limites à nossa própria vontade e nossos impulsos. Ter equilíbrio não por imposição social de alguma pena, seja estatal ou não, mas sim conseguir controlar-se e ser senhor de si. Quando não agimos dessa ou daquela forma por simples medo ou receio de uma punição social e não por consciência de que o ato nos traz prejuízos pessoais e sociais, não somos senhores de nossas ações, mas sim agimos por simples impulsos e não por razão e consciência. Se não roubamos, matamos ou nos corrompemos por medo da prisão pura e simplesmente, significa que apenas damos vazão a nossos impulsos e algo externo precisa freá-los, isto é, você não tem controle. Algo de fora precisa controlar esses impulsos para reprimi-los, mesmo que por meio do medo de uma punição severa.

Nossa vida cotidiana já nos impele a fugir de coisas como matar, roubar ou se corromper, contudo esse é o ápice de algo que começa pequeno dentro de cada um de nós e que é regado, adubado e cuidado com toda devoção para que cresça e se fortaleça com o intuito de um dia chegar nesses absurdos maiores. Quem cai nessa armadilha não consegue perceber quando caiu. Os poucos que conseguem perceber ou percebem que não querem voltar atrás e se conformam com o erro ou mesmo se comprazem e aproveitam dele o máximo que podem; ou decidem voltar atrás e aí estará o grande mérito. O caminho será longo e cheio de pedras. O aprendizado para percorrer o caminho de volta e entrar no caminho correto é doloroso, cheio de perigos, encruzilhadas e mensageiros que te enganam. Melhor arrancar o mal pela raiz e não deixar crescer impulsos que só te levam ao erro.

Temos que começar com a moderação desses impulsos desde os mais pequenos e que parecem mais inofensivos para que com o tempo aprendamos a controlar todos eles, desde o mais simples ao mais complexo e sedutor. Daí a importância de agir com temperança, equilíbrio ao comer, beber e escolher os momentos e limites do prazer, qualquer que seja ele.

Limitar esses prazeres é um meio irrefutável de mortificação. A questão é saber fazer essa mortificação. Moderar esses prazeres mantendo o afastamento de Deus é moderar por vaidade. A consequência será o sentir-se melhor que outros que conseguem limitar menos esses prazeres ou mesmo nunca abandoná-los totalmente. Deus fica excluído do processo e não há objetivo sobre, não há crescimento espiritual, não há nenhum ganho que não seja orgulho através da vaidade.

A falta de temperança total, por outro lado remonta uma absoluta falta de objetivos uma vez que tenderá a achar que nada mais há que essa vida terrena e, portanto, vida cheia de prazeres que devem ser experimentados ao limite. “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (Isaias 22.13). Essa não pode ser uma atitude cristã!

Ainda quanto à mortificação que a moderação desses prazeres impõe, muitas vezes é bom e agradável a Deus e ou até a si próprio que se faça uma moderação inclusive de coisas que são lícitas, desde que corretamente elevadas a Deus para uma perfeita mortificação oferecida em reparação. Trata-se de assegurar com maior firmeza possível o império da razão sobre a emoção.

Concluindo, a gula (comer e beber) deve ser devidamente regrada para que consigamos moderar esse prazer e não nos tornemos reféns e escravos dela. Da mesma forma, a temperança inclui a castidade, que regula o prazer sexual ligado a continuidade da espécie. Por fim, temos a humildade e a mansidão que são atitudes que elevam a alma a um estado de perfeição e santidade e que devem ser lentamente estimuladas a fim de tornar a pessoa uma fiel cópia de Cristo que se autodesignou manso e humilde de coração (Mateus 11, 29)