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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Entrevista. Dom Antônio Keller para a Revista In Guardia.

Entrevista de Dom Antônio Rossi Keller exclusiva para a Revista Eletrônica In Guardia publicada em 09/04/2012.


In Guardia: O Sr. pode nos falar um pouco sobre como reconheceu sua vocação para o sacerdócio?
Minha vocação aconteceu por caminhos normais. Percebi o chamado de Deus muito criança, já antes mesmo de ter entrado para o Grupo de Coroinhas de minha Paróquia. Lá, aprendi a servir a Santa Missa. Meu pai foi o primeiro fator preponderante em meu caminho de fé: era um católico fervoroso, Congregado Mariano, piedoso no sentido autêntico desta expressão, ou seja, piedade forjada na oração simples, no compromisso com o trabalho bem feito, no amor e na dedicação à família. Depois do falecimento dele, sua irmã, minha tia paterna, assumiu a responsabilidade pela educação minha e de minha irmã. Estudamos em bons colégios religiosos, eu com os padres agostinianos, minha irmã com as irmãs salesianas. Minha mãe, inicialmente, não era assiduamente praticante. Mas com o tempo, aproximou-se da Igreja e dos sacramentos. Assim viveu e assim morreu.
Portanto, minha vocação manifestou-se, cresceu e consolidou-se neste ambiente de normalidade, sem dramas, sem acontecimentos extraordinários. Desde que me lembre, sempre quis ser padre...

In Guardia: Em 2008 o Sr. teve sua ordenação episcopal. Mudou alguma coisa na espiritualidade quando o Padre Antônio Keller se tornou Dom Keller?
Costumo dizer que em minha vida, depois deste fato, ou seja, depois de minha eleição e consagração episcopal, “mudou tudo e não mudou nada”. Explico o paradoxo... A nomeação e ordenação como Bispo representou um deixar tudo, especialmente os antecedentes 22 anos como pároco em uma única paróquia, o encargo de diretor espiritual no Seminário de Filosofia da Arquidiocese de São Paulo, as aulas de teologia, os apostolados desenvolvidos através da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, pertencente ao Opus Dei, da qual sou membro. Tive que deixar tudo isto em questão de dois meses. Sem dizer, naturalmente, do convívio familiar... Fui viver há mais de 1.000 km da casa de minha mãe, já anciã. Tudo isto custou-me muito. Tenho um caráter muito “caseiro”. As viagens e movimentações decorrentes delas incomodam-me bastante. Em São Paulo, nos finais de semana, percorria 2 a 3 km... Hoje, dificilmente passo um final de semana sem percorrer mais de 400 km.
Vim para cá sem conhecer a ninguém, a não ser o Bispo Emérito, Dom Bruno Maldaner (conheci-o quando era criança, em São Paulo). Uma nova realidade, mundo essencialmente rural, fora de São Paulo (onde sempre vivi, excetuando os 5 anos que vivi em Roma e os 6 do Seminário Menor...), enfim, uma realidade totalmente diversa.
Mas, por outro lado, a essência de minha vida, o princípio norteador não mudou, continua o mesmo: servir a Cristo, a Igreja e aos irmãos. Minha espiritualidade alimenta-se das mesmas fontes, e enraíza-se no mesmo chão...

In Guardia: Ao se tornar Bispos o Sr. se tornou membro da CNBB. Como o Sr. vê e como sua Diocese trata a Campanha da Fraternidade encampada pelo CNBB todo ano no tempo da quaresma?
A Campanha da Fraternidade, a meu ver é um bem em si, no sentido que pode ajudar os fiéis católicos a concretizarem de forma organizada, na sociedade civil, a caridade fraterna que marca este tempo santo. A CF pode servir, portanto, como um indicador, para concentrar forças no exercício organizado da caridade fraterna. O que é inaceitável é que, no contexto da CF, sejam utilizados métodos de análise, orientações de reflexão para a tomada de consciência dos problemas, propostas de soluções etc. não condizentes com o pensamento do Magistério da Igreja, especialmente no que se refere à Doutrina Social. Infelizmente, muitas vezes, na leitura de textos de fundamentação da CF, bem como em certas indicações de ação, ainda é possível encontrar princípios ideológicos não condizentes com a Doutrina Social da Igreja.

In Guardia: Alguns católicos entendem que a Campanha da Fraternidade poderia ser muito conveniente se tratasse de temas mais ligados á salvação da alma e fosse em um tempo diferente da quaresma. Qual sua opinião?
Discordo desta opinião. A meu ver, a grande questão é a da excessiva marca que se dá aos temas da CF, em detrimento daquilo que é o “normal” da Quaresma: a conversão, a penitência, o jejum, a intensificação da oração, a caridade fraterna, o sacramento da Reconciliação e da Penitência. Cabe aos pastores locais (Bispos, párocos etc.) a orientação da comunidade católica em relação ao justo equilíbrio. A meu ver, a CF proporciona a possibilidade de se efetuar um aspecto concreto da conversão quaresmal, sem detrimento dos tradicionais “exercícios quaresmais”. Ou seja, o movimento interno de conversão, fruto da ação da Graça e da resposta humana, deve necessariamente concretizar-se em atos de conversão externos, expressões “sociais” da conversão quaresmal. Portanto, vejo a possibilidade de uma integração entre estes dois aspectos da conversão. 

In Guardia: Conforme o site "O Catequista", a presença do senhor na web destaca-se não somente por "estar na rede", mas por interagir com ela. Comenta ainda que o senhor foi o único Bispo a participar do twittaço contra o deputado Jean Wyllys, no qual várias pessoas na internet exigiam que o mesmo se retratasse por desqualificar o Santo Padre após afirmar que a Igreja é contra o casamento homossexual. Em um dos seus twittes, o senhor disse que "Se a CNBB fosse mais.... Católica... talvez a coisa andasse" (vide http://ocatequista.com.br/?p=3824). Partindo desta afirmação do senhor, pergunto: o que falta à CNBB para tornar-se mais católica?
Minha participação nas redes sociais tem um único e definitivo objetivo: o apostolado. Acredito que, através desta presença atuante, possa ampliar os limites de minha ação apostólica. A expressão que utilizei, em referência à CNBB, referia-se diretamente à omissão, a meu ver injustificável, das lideranças da CNBB e de outros irmãos bispos, naquele momento específico e em tantos outros, nos quais, de alguma forma, a Igreja Católica, ou o Santo Padre,  ou outros legítimos pastores da Igreja, ou outras instituições eclesiais são vilipendiados, ofendidos, atacados e não se faz ouvir nenhuma voz oficial da Igreja Católica no Brasil. Não espero uma reação fundamentada em um espírito corporativista, de simples defesa humana, mas sim, a defesa da verdade. A meu ver, o silêncio de quem deveria fazer-se escutar, nestes momentos, é injustificável.

In Guardia: No dia 08 de dezembro de 2011, o senhor convocou os católicos a pressionarem o Congresso contra a lei de homofobia (vide http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/11263/Dom-Antonio-Rossi-Keller-convoca-catolicos-a-pressionar-o-Congresso-Nacional). Como bispo, o que o senhor acredita que possa vir a acontecer com os católicos se esta lei for aprovada?
A questão, a meu ver, não está nas consequências que eventualmente, nós católicos poderíamos sofrer, no caso de aprovação deste e de outros projetos de lei. Já escrevi uma vez que os ossos dos mártires de todos os tempos (dos mártires autênticos do cristianismo) se revolveriam nos túmulos se nós, católicos de hoje, temêssemos a perseguição e a incompreensão do mundo.
A questão é que, desprovidos de qualquer espírito de clericalismo, temos, como cidadãos (somos católicos, e pelo fato de sermos católicos não deixamos de ser cidadãos, com os mesmos direitos e deveres daqueles que não são católicos) o direito de exigir que escutem nossa voz e reflitam sobre nossos argumentos. Assim como os demais tem o direito de expressar suas opiniões, nós também o temos.
E segundo o que cremos, temos o direito, e dele não podemos fugir, de defender a vida, os princípios morais elementares da humanidade, entre eles, aqueles que se referem à família, ao casamento etc. Estas questões não interessam somente àqueles que têm a graça da fé católica, mas a toda a sociedade, que, minando os pilares elementares de um sadio humanismo, embarca pelos tortuosos meandros da barbárie.

In Guardia: No Brasil existe um certo afastamento dos fiéis em geral e de muitos clérigos quanto a realidade de martírio que os cristãos tem vivido em algumas partes do mundo, incluindo China e alguns países do Oriente Médio. A que o Sr. responsabiliza por esse desinteresse na divulgação dessas informações?
As razões do escasso interesse, a meu ver, são diversas. Em primeiro lugar, não se pode negar a profunda crise que o Ocidente cristão vive. Nossa civilização ocidental, que vive um processo de desintegração, acabou por envergonhar-se de suas raízes cristãs. O reflexo desta crise, que chamo de “crise de identidade original” (identidade das próprias origens) esta no desinteresse em tudo o que se refere a questões da fé. Ou seja, um espírito laicista, que não é o positivo espírito laico que deve predominar em uma sociedade pluralista como a nossa, domina os meios de comunicação, e consequentemente, a sociedade em geral. Falar da fé e, portanto, falar das perseguições aos que tem fé, significa, na mentalidade de hoje, uma expressão do chamado fundamentalismo. Por outro lado, um cristianismo amolecido, sem desafios, acomodado, viciado pelo espírito do mundo (mundano) também penetrou na própria Igreja. A ideia dominante entre a maioria dos católicos reflete a absorção dos valores do mundo: busca do bem estar, consumismo desenfreado, descomprometimento religioso, tudo isto ligado a uma profunda ignorância em relação ao que é elementar na fé católica produz o devastador efeito do desinteresse. Já entre os grupos protestantes, especialmente entre aqueles de cunho pentecostal, o “cristão corrente” preocupa-se muito mais com a própria prosperidade do que com as dificuldades dos demais... Ou seja, vivemos tempos difíceis.


In Guardia: Há muitos grupos na Igreja e na internet que defendem o pensamento de que os grandes males atuais da Igreja se deram graças ao Concílio Vaticano II. O senhor concorda com eles? O que diria a eles sobre este assunto?
Não concordo em termos absolutos em atribuir a culpabilidade dos males da Igreja de hoje ao Concílio Vaticano II. Penso ser esta uma visão demasiadamente simplista em relação aos desafios para a Igreja, inserida em uma realidade que sofreu profundas mudanças, bem como uma visão excessivamente saudosista em relação a um passado considerado ideal e que certamente não voltará. A meu ver, o Concílio Vaticano II aconteceu em um momento emblemático de mudanças sociais, econômicas, culturais e religiosas. Vejo também que, de certa forma, o Concílio expresse uma visão eivada de um certo otimismo ingênuo, marca daqueles tempos dominados  pela mentalidade de que o “progresso” traria uma nova era para a humanidade, uma era de entendimento, de colaboração, de superação dos graves problemas humanos, sociais etc. Os documentos do Concílio Vaticano II, em alguns aspectos, retratam esta visão talvez otimista demais em relação a mudanças no mundo.
A questão, em termos bem simples é que o mundo mudou e, o ser humano inserido em um mundo em mudança, mudou também. Passou-se de um quadro de princípios e valores para outro. E naturalmente, a Igreja, realidade divina e humana, na sua humanidade, sofreu e sofre com toda esta instabilidade. A responsabilidade absoluta foi do Concílio? Foi o Concílio responsável pelo início da mudança de época, ou o Concílio, de certa forma, reflete esta realidade?
Outra coisa, a meu ver, também é necessário esclarecer: acostumada com palavras mais claras, mais precisas, mais definidas, parece-me que a opção do Concílio Vaticano II foi a de uma linguagem mais de indicações etc... Naturalmente, supunha-se uma leitura e uma interpretação segundo um espírito até então fortemente presente na Igreja, um “espírito bom” de leitura, afinado com a Igreja. O que se viu, no período pós conciliar foi a introdução de um “espírito mau”, desvinculado da Tradição, propondo uma quebra de continuidade, uma desvinculação com o passado, com a verdade, com a disciplina etc..

In Guardia: Diametralmente oposta a essa posição, temos aqueles que consideram que todas as bênçãos vieram após o Concílio Vaticano II, que a Igreja não só ganha um novo Concílio, mas praticamente se torna uma nova Igreja. Até que ponto esse tipo de pensamento pode atrapalhar os trabalhos pastorais?
Este tipo de pensamento, que infelizmente predominou e ainda predomina em muitos ambientes eclesiais trouxe um grande mal à Igreja: uma Igreja que de certa forma, “renega” seu passado, sua História, sua Doutrina Sagrada, sua Liturgia etc. Pretende-se uma Igreja sem raízes, ainda pior, híbrida, ou seja, amálgama de tradições estranhas à fé cristã, eivada de gnosticismo, de mundanismo...: uma monstruosidade, portanto. Uma Igreja assim, não teria nada a dizer ao mundo, não tem verdade a ser pregada: é uma Igreja de profetismo e ideais simplesmente humanos. Ou seja, já não é mais a Igreja de Cristo, a Una, Santa, Católica e Apostólica... Pode-se, portanto, avaliar o mal que isto produziu e ainda produz na Igreja. Infelizmente, ainda temos muito fortemente, em alguns ambientes, a presença desta visão de uma Igreja imanentista, do simples “estar junto” e sem nada a dizer de Cristo e de seu Evangelho, mas dominada por correntes ideológicas, muitas delas, materialistas.

In Guardia: Como definir a Teologia da Libertação, então?
A meu ver, existem duas “teologias da libertação”. A primeira é aquela que a Igreja sempre anunciou: a libertação do pecado, através da ação fundamental e purificadora da Graça, unida ao sempre insuficiente esforço humano. Esta libertação que nasce da iniciativa divina de salvar, se efetiva na realidade de um coração que se converte a Deus, ao irmão, a si mesmo e ao mundo. Esta TL pura, limpa, reta tem sua expressão bíblica alicerçada, principalmente, nas bem aventuranças do Evangelho, entre tantos outros textos da Sagrada Escritura. Para se entender esta Teologia da Libertação que antes de tudo, exprime o primado do sobrenatural na vida e na ação pastoral da Igreja, penso que exista uma “chave de compreensão”. Há um “documento base” para a leitura e a compreensão desta autêntica TL: o Discurso do bem aventurado Papa João Paulo II, pronunciado no Morro do Vidigal, durante sua primeira visita ao Brasil, em 1980.  Aí está expressa, com clareza meridiana, a prioridade da doutrina da Graça, das virtudes e dos dons. Pinço uma única frase do Bem aventurado João Paulo II: “Os pobres em espírito são aqueles que são mais abertos a Deus e às maravilhas de Deus (Atos 2,11). Pobre em espírito não significa exatamente o homem aberto aos outros, isto é, a Deus e ao próximo? Pobres em espírito – aqueles que vivem na consciência de ter recebido tudo das mãos de Deus como um dom gratuito e que dão valor a cada bem recebido. Constantemente agradecidos, repetem sem cessar: “Tudo é Graça!”, “Demos graças ao Senhor nosso Deus”. Vale a pena “desenterrar” este Discurso do bem aventurado João Paulo II... A meu ver, foi este o discurso programático de toda a Visita ao Brasil. As palavras do Papa revelam a autêntica TL, aquela verdadeira.
A segunda TL é aquela falsa, mentirosa, ideologizada, fundada nas palavras de Leonardo Boff, em um artigo no Jornal do Brasil, também em 1980, alguns meses antes da visita do Papa João Paulo II: “O que propomos (com a TL) não é a teologia dentro do marxismo, mas o marxismo dentro da teologia”. Esta TL falsa, indigna da tradição teológica milenar da Igreja, prega não as bem aventuranças, mas a mudança das estruturas econômicas, sociais, políticas e eclesiais. Propugna, por exemplo, em relação à Igreja, a chamada “eclesiogênese”, termo proposto pelo já citado Leonardo Boff. As palavras de seu criador manifestam a ideia de que a Igreja deve fazer-se a partir do “lugar social” ocupado pelo povo: “Precisamos fazer a Igreja que nasce do povo... Essa é a grande virada da Igreja hoje. Igreja que parte de baixo, do povo, e não a Igreja Institucional, que venha de cima. É a eclesiogênese.”
Ou seja, a falsa TL pretende que o homem, que na visão de Marx tem estrutura antropológica imanente, materialista e ateia, possa ser ao mesmo tempo, cristão. E que, como cristão (o que é impossível...), mude o mundo, a sociedade, as estruturas e a própria Igreja...
Assim, a TL mentirosa, não conta com a Graça, com a ação transformadora interna e sobrenatural de Deus em nós. Para a TL falsa, Deus é... ninguém. Deus é só uma ideia, um mito que serve como ponto de referência para animar a “praxis” do oprimido, a luta contra o explorador. Deus é a justificativa racional para a luta pela libertação, reduzida à simples questão material. Lê-se, por exemplo, a História da Salvação tão somente sob a ótica da necessidade da luta do oprimido contra o opressor, do fraco contra o forte, do dominado contra o dominador. E o Deus da Bíblia, na visão da falsa TL, é aquele que justifica a violência.
Ou seja, não há o que definir, em termos de teologia, a falsa TL...


In Guardia: Com relação à Liturgia da Santa Missa, como o Sr. vê a formação dentro dos seminários brasileiros para que os seminaristas tenham uma boa instrução sobre o que é a missa e como celebrá-la com dignidade?
Em geral, a formação é deficiente. Estuda-se a teologia litúrgica, muitas vezes a partir de autores que não tem uma visão da liturgia suficientemente católica. Nos estudos sobre a liturgia, predomina a opinião pessoal de determinado liturgista, muitas vezes, opinião que contradiz aquilo que a Igreja ensina e determina, especialmente nos últimos Documentos que são normativos, em relação à Sagrada Liturgia. Além disso, falta nos estudos litúrgicos, a meu ver, a “alma” da Liturgia. Uma liturgia sem espiritualidade, sem a consciência de que, antes de tudo, liturgia é oração, acaba caindo no mesmo ritualismo que tantos modernos liturgistas criticam do passado: só que é o ritualismo do inventar, da novidade, que também não tem alma. A meu ver, a formação litúrgica dos seminaristas e também aquela dos padres, deve centrar-se nestes dois eixos: a fidelidade às Normas litúrgicas vigentes e a preocupação constante de fazer da liturgia oração.

In Guardia: Como o Sr. vê as reformas litúrgicas promovidas pelo Papa Bento XVI?
Não diria que o Santo Padre, o Papa Bento XVI esteja promovendo propriamente uma “reforma litúrgica”. A meu ver, a grande lição do Santo Padre é aquela de nos ensinar a celebrar no rito ordinário, explorando todas as possibilidades que o rito permite, sem invencionices estéreis, mas na fidelidade às Normas estabelecidas. Vejo no Santo Padre um profundo amor à liturgia da Igreja, sempre acompanhando a retidão de obediência às Normas com uma atitude de oração, de interiorização dos Sagrados Mistérios.

In Guardia: Com relação ao documento intitulado Summorum Pontificum, qual o caminho para colocá-lo em prática da melhor forma?
Em minha Igreja Diocesana, a grande questão é, antes de tudo, prática. Meus padres não tem a menor noção do latim. Esta é a realidade. Somos tão somente dois os que celebramos em latim, semanalmente, na Forma Ordinária. Estamos preparando nossos seminaristas também no estudo fundamental da língua latina. Penso que seja necessário, antes de tudo, uma boa formação litúrgica, incluindo o estudo do latim, para que o Motu Proprio Summorum Pontificum possa ser aplicado de forma mais generosa e abrangente.

In Guardia: Muitos fiéis se assustam e até se armam contra a celebração no rito Extraordinário atacando-o por vários meios: língua latina, afastamento entre o sacerdote e o povo, desanimação e tantos outros. O que o Sr. diria a esses fiéis?
Diria que a Forma Extraordinária é um patrimônio sagrado da Igreja. Durante séculos a Igreja utilizou esta maneira de celebrar a Santa Missa. Multidões de santos alimentaram seu amor a Deus e sua vida cristã através deste Rito santo. Ninguém tem o direito de desprezá-lo. A meu ver, o segredo para bem celebrar e participar da Santa Missa, na Forma Ordinária, está em conhecer em profundidade a Forma Extraordinária.

In Guardia: Tendo em vista seu empenho em ter uma liturgia dignamente celebrada, bem como em atender aos fiéis que pretendem a celebração no rito litúrgico extraordinário, chegou-nos a informação de que o Bispo da diocese de Chur, Suíça, Dom Vitus Huonder, criou duas paróquias para celebração exclusiva da missa no rito extraordinário. O que o Sr. acha dessa possibilidade?
Necessidades pastorais devem ser respondidas com ações efetivas e não com palavreado... Sua Excelência, D. Huonder agiu, em primeiro lugar respeitando um direito dos fiéis daquela Diocese, que pediam uma atenção pastoral especial. E em segundo lugar, agiu também com sabedoria pastoral, oferecendo esta possibilidade a um grupo de específico, sensível à Forma Extraordinária. Ou seja, na Diocese de Chur, todos os fiéis católicos são atendidos...

In Guardia: Pessoalmente considero que a formação doutrinária é o melhor caminho para qualquer católico, afinal: só se ama aquilo que se conhece. De toda a sorte, como o Sr. vê a falta de formação dos féis e clérigos da Igreja no Brasil quanto a espiritualidade individual?
A Formação doutrinal é uma questão vital para o “ser cristão” hoje. A meu ver, a Igreja e os cristãos serão, cada vez mais, Igreja e cristãos do testemunho. Ora, como testemunhar a fé se não se tem um conhecimento profundo da sua riqueza e profundidade, de suas implicações no dia a dia? Como responder aos desafios da fidelidade a Deus, sem as noções elementares da Doutrina, da Moral, da Disciplina etc.? Como guiar e orientar, no caso dos pastores da Igreja, os fiéis se não se tem a Luz da fé iluminando, com clareza, os próprios olhos?
A ignorância em questões vitais da fé cristã é a razão da falta de qualidade espiritual de tantos católicos de hoje, sem dúvida.

In Guardia: Sob o mesmo contexto, como o Sr. vê a falta de formação dos féis e clérigos da Igreja no Brasil quanto a temas ligados à Doutrina Social da Igreja - DSI?
A falta de compreensão dos princípios e da abrangência da DSI levou e continua levando hoje muitos clérigos a apoiarem-se, em suas intervenções teóricas e em sua ação pastoral social em ideologias, algumas das quais já claramente condenadas pela Igreja. Infelizmente, para muita gente, a palavra de qualquer filósofo ou sociólogo tem mais valor do que a sabedoria da Igreja...

In Guardia: Sua Diocese está territorialmente localizada em um Estado da Federação governado pelo PT. O Sr. considera isso bom ou ruim para o desenvolvimento e melhor aplicação da DSI?
Penso que a Igreja tem uma missão em relação à Doutrina Social, que pode ser aplicada em qualquer situação política. Desde que exista retidão de objetivos por parte das instâncias políticas, no sentido de buscar o autêntico bem social da população, aí teremos um patamar de possibilidade de diálogo, compreensão e ajuda. Cabe à Igreja iluminar, com a riqueza de sua Doutrina Social, a realidade social. Até o momento não tenho encontrado nenhum tipo de dificuldade em relação a esta questão. Pelo contrário, em nosso Estado, a DSI é bem vista e bem acolhida. Temos uma longa tradição de presença da Igreja na realidade da transformação social que visa o bem da população. Muitas iniciativas sociais, entre elas o cooperativismo, tem as suas origens em ambientes da Igreja.

In Guardia: Falando em DSI, como o Sr. vê o equilíbrio partidário e as atuais posturas dos partidos brasileiros?
Vejo com muita preocupação a atual conjuntura partidária brasileira. No sentido de que, a grande maioria dos atuais partidos não tem fundamentos ideológicos claros e nem propostas programáticas concretas para a solução dos problemas gravíssimos que afetam a população deste país. A meu ver, os partidos presentes no universo político do Brasil são simplesmente “hotéis” de hospedagem política (em determinados casos, hotéis de curta permanência...). Ou seja, os partidos, em geral abrigam aqueles que, na verdade, só e tão somente pretendem ingressar na “carreira política”, ou seja, profissionalizarem-se na política, tendo isto como objetivo primário. Posteriormente, bem posteriormente, poderá acontecer uma preocupação com os problemas da sociedade etc. Infelizmente, não sou muito otimista em relação à atual conjuntura política brasileira. O que existe mesmo de ideário político hoje, defendido com unhas e dentes, em geral é aquele marxista. O resto é puro fisiologismo e oportunismo...


sábado, 14 de dezembro de 2013

Entrevista. Dom Fernando Arêas Rifan para a Revista In Guardia.

Entrevista de Dom Fernando Arêas Rifan exclusiva para a Revista Eletrônica In Guardia publicada em 06/06/2012.


In Guardia: Como é sempre bom começar do começo, o Sr. pode nos dizer como foi a descoberta de sua vocação sacerdotal?

Dom Fernando: Por pura bondade de Deus, eu nasci numa família católica. Meus avós eram muito piedosos, pessoas de oração. Meu pai era congregado mariano, presidente da obra social da paróquia – dispensário do Divino Espírito Santo – e minha mãe do Apostolado da Oração. Eu fui, desde cedo, da cruzada eucarística, coroinha e cantor do coral na minha igreja matriz. Nesse ambiente, surgiu a minha vocação, meu desejo de ser padre, como eram os padres que eu conhecia. Isso estou falando do que acontecia comigo, subjetivamente, porque na verdade não fui eu que escolhi ser padre, foi Nosso Senhor que me chamou. Apesar de filho único, entrei para o seminário aos 12 anos de idade. E lá fiquei por 12 anos, até a minha ordenação sacerdotal, aos 24 anos de idade. Hoje tenho 37 anos de sacerdócio e 10 anos de episcopado.  

In Guardia: Por que escolheu a então União Sacerdotal São João Maria Vianney para exercer seu sacerdócio?

Dom Fernando: As coisas não eram assim naquele tempo. Era uma paróquia, uma diocese e um seminário normais. Entrei para o seminário diocesano, da Diocese de Campos, em 1963, e fui ordenado sacerdote pelo então Bispo Diocesano de Campos, Dom Antônio de Castro Mayer, na Catedral Diocesana, em 1974. Fui nomeado diretor diocesano do ensino religioso e pároco da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, cargo que exerci por 10 anos, além de secretário do Bispo. Tudo isso na Diocese de Campos. Não havia, naquela época, a União Sacerdotal, que só foi criada em meados dos anos 80.

In Guardia: Sabemos que a Administração Apostólica São João Maria Vianney tem um formato, digamos assim, diferente de Dioceses e Arquidioceses às quais estamos acostumados. O Sr. pode nos explicar um pouco sobre como funciona dentro do Direito Canônico?

Dom Fernando: A União Sacerdotal reunia os padres que foram tirados das suas paróquias e igrejas pelo Bispo sucessor de Dom Antônio. Eles continuaram atendendo o povo, em capelas particulares, numa situação canonicamente anormal e mesmo irregular. Isso durou até o ano 2001, quando o Beato Papa João Paulo II transformou a união sacerdotal em Administração Apostólica, para regularizar aquela situação e conservar na plena comunhão da Igreja esses sacerdotes (eram 25) e fiéis ligados às formas litúrgicas e disciplinares anteriores do Rito Romano (Liturgia de São Pio V).   
            Canonicamente, a Administração Apostólica é uma circunscrição eclesiástica equiparada a uma Diocese (C.D.C. cânon 368), uma porção do povo de Deus, cujo cuidado pastoral é confiado a um Administrador Apostólico, que a governa em nome do Sumo Pontífice (cânon 371 §2). Ela se compõe, como as outras dioceses, de paróquias, párocos, seminário próprio, cúria, religiosas, religiosos, catequistas e fiéis em geral.     
A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney foi criada pelo Decreto “Animarum bonum”, da Sagrada Congregação para os Bispos, de 18 de janeiro de 2002, oficializando juridicamente a vontade de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, expressa na carta autógrafa "Ecclesiae unitas", de 25 de dezembro de 2001. Eu sou o atual Bispo Administrador Apostólico, membro do Regional Leste 1 e da CNBB, de cujas reuniões participo normalmente.
Já faz 10 anos da criação da nossa Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, evento que celebraremos durante todo esse ano de 2012, usando como lema a frase do salmo 88: “Misericordias Domini in aeternum cantabo” – “Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”, e como tema: “10 anos de graças: gratidão, reflexão e missão”.

In Guardia: A Administração Apostólica tem hoje quantas paróquias, clérigos, seminaristas e atinge quantos leigos efetivamente?

Dom Fernando: Hoje a Administração Apostólica tem 33 padres incardinados, 13 paróquias, 3 Reitorias, umas 130 Igrejas e lugares de Missa, 35 seminaristas. Temos umas cem religiosas, 15 escolas e 2 asilos. Temos muitas associações religiosas tradicionais e catequistas. Os fiéis são cerca de 30 mil. Mas a Administração Apostólica é aberta, para todos que desejarem nela entrar, no território coincidente com a Diocese de Campos.

In Guardia: Como o Sr. vê a atual conjuntura das vocações sacerdotais, tanto dentro como fora da Administração Apostólica?

Dom Fernando: O número dos nossos seminaristas sempre foi nessa margem. Mas sentimos a falta de mais vocações, mesmo aqui na Administração Apostólica. O baixo número de vocações em geral se deve à secularização da sociedade, ao hedonismo reinante, à tibieza e falta de oração, à decadência das famílias católicas, à falta de espírito de heroísmo e tendência individualista entre os jovens. É claro que também a crise na Igreja influenciou e influencia no baixo número de vocações.

In Guardia: Uma dúvida comum de muitos seminaristas e também clérigos que nos acompanham é como funciona a formação dos seminaristas. Existe alguma diferença fora do padrão de normalidade dos demais seminários? Quais as matérias estudadas por eles e o que deles é exigido?

Dom Fernando: A formação dos nossos seminaristas é regulada pela Congregação para a Educação Católica (para os Seminários e as Instituições de Estudos), que aprovou nosso programa de estudos e regulamento. Aqui, portanto, se estudam todas as matérias exigidas nos demais seminários e o regulamento é semelhante: oração, retiros espirituais, conferências, vida de comunidade, estudo, aulas, recreios, esporte, passeios, distrações etc. A diferença está na disciplina mais tradicional e na Liturgia, porque, como toda a Administração, conservamos a forma antiga do Rito Romano e o primado do canto gregoriano, ao lado do polifônico. Temos uma equipe de bons padres formadores que se ocupa do nosso Seminário.

In Guardia: Ainda sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X temos um Motu Proprio datado de 1988 chamado Ecclesia Dei que, embora pequeno, tratou de forma bem direta as ordenações feitas por D. Lefebvre e a não autorização por parte da Santa Sé. Pois bem, à época o Sr. já fazia parte da então União Sacerdotal São João Maria Vianney. Como o Sr. e seus contemporâneos viram, à época toda a situação? O Sr. pode nos contar um pouco dessa história?

Dom Fernando: Nós não éramos nem somos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, mas sim padres diocesanos que com eles tínhamos em comum a Liturgia na forma antiga e a formação tradicional. Foi um tempo de perseguição mais forte à Missa na forma antiga e aos católicos que a conservavam. Na ocasião, víamos as ordenações feitas por Dom Lefebvre como algo que seria necessário, devido à crise, um caso de necessidade. Por isso as apoiamos.
Depois, estudamos melhor os documentos do Magistério, especialmente a Encíclica Ad Apostolorum Principis, de Pio XII, o Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta de João Paulo II e especialmente a “Nota Explicativa” do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, de 24 de agosto de 1996 (mas que só conhecemos no ano 2001), sobre a interpretação autêntica desse Motu Proprio Ecclesia Dei, onde, sobre o “estado de necessidade no qual Mons. Lefebvre pensava se encontrar” se explica que “deve-se ter presente que tal estado deve verificar-se objetivamente, e que não se dá jamais uma necessidade de ordenar Bispos contra a vontade do Romano Pontífice, Cabeça do Colégio dos Bispos. Isto de fato significaria a possibilidade de ‘servir’ a Igreja mediante um atentado contra a sua unidade em matéria conexa com os próprios fundamentos desta unidade”. Então chegamos à conclusão que não se poderia jamais ter tomado aquela atitude, que realmente seria contra a doutrina e a Tradição da Igreja.
In Guardia: Ainda sobre a FSSPX e o Motu Próprio Ecclesia Dei quanto menciona as ordenações desautorizadas, nesse documento foi expressamente mencionado que (...) “tal ato foi uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima” (...) e ainda (...)”A raiz deste ato cismático pode localizar-se numa incompleta e contraditória noção de Tradição.” É assim que hoje a Administração Apostólica concebe aquela atitude?
Dom Fernando: Com já disse acima, tal conclusão se impõe a quem tem como critério de verdade e orientação o Magistério da Igreja, como temos e devemos ter.
A Nota Explicativa do Motu Proprio, citada acima, falando dessas ordenações episcopais contra a vontade do Papa, procura esclarecer: “Parece antes de tudo que o cisma de Mons. Lefebvre foi declarado em relação imediata com as ordenações episcopais realizadas em 30 de junho de 1988 sem o mandato pontifício (cf. CIC, can. 1382). Todavia, aparece ainda claramente pelos precedentes documentos que tal gravíssimo ato de desobediência constituiu a consumação de uma progressiva situação global de índole cismática”.
É pelo Magistério vivo da Igreja que se pauta a nossa Administração Apostólica. Portanto, vemos aquela atitude do mesmo modo que a vê o Magistério.
 A propósito, escrevi minha Orientação Pastoral – O Magistério vivo da Igreja, onde explico bem a nossa posição. Se mudamos alguma atitude nossa, foi para nos adequarmos às orientações do Magistério. Cito alguns trechos:
Muitas vezes, na ânsia de defender coisas corretas e sob pressão dos ataques dos opositores, mesmo com reta intenção podem-se cometer erros e exageros que, após um período de maior reflexão, devem ser retificados e corrigidos. São Pio X comentava que no calor da batalha é difícil medir a precisão e o alcance dos golpes. Daí acontecerem faltas ou excessos, compreensíveis, mas incorretos. Erros podem ser compreendidos e explicados, mas não justificados. Santo Tomás de Aquino nos ensina: “Não se pode justificar uma ação má, embora feita com boa intenção” (Decem praec. 6 (cf. C.I.C. 1759)”.
“Por essa razão, em carta ao Papa de 15/8/2001, os sacerdotes da antiga União Sacerdotal São João Maria Vianney, agora constituída pelo Papa em Administração Apostólica[1], escreveram: "E se, por acaso, no calor da batalha em defesa da verdade católica, cometemos algum erro ou causamos algum desgosto a Vossa Santidade, embora a nossa intenção tenha sido sempre a de servir à Santa Igreja, humildemente suplicamos o seu paternal perdão"”.
“É preciso sempre ajustar a prática com os princípios que defendemos. Se reconhecemos as autoridades da Igreja é preciso respeitá-las como tais, sem jamais, ao atacar os erros, desprestigiá-las. Se houve algum erro ou exagero no passado quanto a isso, não há nada de mais em se corrigir o erro. Os princípios, a adesão às verdades da nossa Fé e a rejeição aos erros condenados pela Igreja continuam os mesmos. O que é preciso é evitar as generalizações, ampliações e atribuições indevidas e injustas. A justiça e a caridade, mesmo no combate, são imprescindíveis. Se houve alguma falha também nesse ponto, corrigir-se não é nenhum desdouro. Afinal, errar é humano, perdoar é divino, corrigir-se é cristão e perseverar no erro é diabólico”.
Também ali explico a correta noção de Tradição, conforme o Magistério da Igreja. E no meu livro “Considerações sobre as formas do Rito Romano”, esclareci bem: “A Igreja ensina que a consciência subjetiva do fiel ou do teólogo não é critério de verdade porque tal consciência subjetiva “não constitui uma instância autônoma e exclusiva para julgar a validade de uma doutrina... Opor ao Magistério da Igreja um magistério supremo de consciência é admitir o princípio do livre-exame, incompatível com a economia da Revelação e da sua transmissão na Igreja, assim como uma concepção correta da teologia e da função do próprio teólogo. Os enunciados da Fé não resultam de uma investigação puramente individual e de um livre exame da Palavra de Deus, mas constituem uma herança eclesial. Se alguém se separa dos Pastores, que velam por manter viva a tradição apostólica, é a ligação com Cristo que se encontra irreparavelmente comprometida” (CDF, Instrução Donum Veritatis).
É o Magistério que me faz conhecer o que pertence ou não à Tradição apostólica: não sou eu que deve julgar o Magistério em função do que posso compreender da Tradição. Se o Magistério não está acima da Tradição nem da Sagrada Escritura, está acima de todas as nossas interpretações da Tradição e da Sagrada Escritura. Isto é o que explicou claramente o Beato João Paulo II ao então Cardeal Joseph Ratzinger: “... não é o antigo como tal nem o novo em si mesmo o que corresponde ao conceito exato da Tradição na vida da Igreja. Este conceito designa, com efeito, a fidelidade duradoura da Igreja à verdade recebida de Deus através dos acontecimentos mutáveis da história. A Igreja, como o pai de família do Evangelho, tira com sabedoria ‘de seu tesouro o velho e o novo’ (cf. Mt 13,52), mantendo-se na obediência absoluta ao Espírito da Verdade que Cristo entregou à sua Igreja como guia divino. Esta delicada tarefa de discernimento a Igreja a cumpre por meio de seu Magistério autêntico (cf. LG 25) (Carta In questo periodo ao Cardeal Ratzinger (04-VIII-1988: AAS, 1988, pgs. 1121-1125).


In Guardia: Passando ao Motu Proprio Summorum Pontificum o que o Sr. tem a nos dizer sobre a disseminação do rito extraordinário em meio a Dioceses que antes sequer imaginavam celebrar no rito antigo?

Dom Fernando: O Motu Proprio  Summorum Pontificum foi grandemente aplaudido por nós e, graças a ele, pouco a pouco, muitas dioceses têm adotado a Missa na forma antiga. Creio que o Motu Proprio serviu para dirimir muitos preconceitos. O Santo Padre Bento XVI explicou que ele deseja a paz litúrgica na Igreja e que a Missa na forma extraordinária poderá fazer muito bem à Liturgia em geral. Esperamos que isso aconteça mais e mais. Aqui no Brasil, as coisas estão andando devagar, pouco a pouco.

In Guardia: O que o Sr. diria para os párocos que desejam celebrar no rito Tridentino, mas encontram alguma barreira de ordem pastoral? Como agir?

Dom Fernando: Os párocos, tendo formação tradicional, vão compreender o que disse o Papa: que a Missa celebrada na forma antiga só poderá fazer bem. É claro que é preciso ter correta orientação e adesão ao Magistério da Igreja. E os párocos têm autorização dada diretamente pelo Santo Padre para a celebrarem e permitirem sua celebração.

In Guardia: Presenciamos em várias Dioceses uma quantidade razoavelmente grande de sacerdotes que gostariam de celebrar no rito Tridentino, contudo o ensino do latim nos seminários não foi bem feito ou simplesmente não aconteceu. Existe alguma forma mais fácil para esses sacerdotes aprenderem o rito?

Dom Fernando: A nossa Administração Apostólica, em parceria com outras dioceses, tem promovido pelo Brasil “Encontros Summorum Pontificum”, para incentivar e ensinar aos sacerdotes a Missa na forma extraordinária. O primeiro encontro foi na Diocese de Garanhuns, em 2010, o segundo na Arquidiocese do Rio de Janeiro, em 2011, e o terceiro será na Arquidiocese de Salvador, Bahia, de 14 a 18 de setembro próximos, com um dia aberto aos leigos. Estamos preparando também cursos práticos de latim litúrgico. Para celebrar a Missa na forma extraordinária os sacerdotes devem conhecer o latim, ao menos básico, e saber pronunciá-lo bem. Há muitos missais bilíngues que poderão ajudar na tradução.

In Guardia: Passando às recentes notícias sobre as “negociações” entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o que o Sr. pode nos dizer sobre as expectativas?

Dom Fernando: A expectativa é grande. Temos um grande desejo de que eles regularizem sua situação canônica e resolvam logo esse problema da plena comunhão com a Igreja. Pode ser muito difícil, dado a posição que eles tomaram e que muitos deles mantêm, segundo seus escritos atuais. Mas, para Deus, nada é impossível. Rezemos. E, se eles regularizarem sua situação com a Igreja e afinarem sua doutrina com a do Magistério, serão muito bem-vindos e ficaremos alegres com isso. Nós também recebemos a mesma graça.
            Aliás, quando o Santo Padre lhes levantou a excomunhão, para facilitar o caminho deles à plena comunhão, eu escrevi aos quatro Bispos da Fraternidade:
“Eu e toda nossa Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, seus sacerdotes e fiéis, os felicitamos e nos congratulamos de todo o coração com V. Exas. pelo levantamento das excomunhões que vos atingiam e agradecemos ao Santo Padre por este gesto de paternal misericórdia e generosidade, que terá uma frutuosa repercussão em toda a Igreja. Como nós também fomos objeto da mesma bondade do Santo Padre, que levantou a excomunhão de Dom Licínio Rangel em novembro de 2001, o que nos conduziu à nossa completa regularização em 18 de janeiro de 2002, nós estaremos sempre em oração para que V. Exas. possam também chegar à completa regularização de toda a Fraternidade São Pio X, como o desejou o Papa. Nós confiamos todo esse caso ao Imaculado Coração da Santíssima Virgem, a quem V. Exas. com tanta confiança recorreram para a sua solução”. 


In Guardia: A FSSPX tem a teoria de que as discussões com a Santa Sé têm como fim mostrar às autoridades eclesiásticas que a Fraternidade está plenamente unida ao Magistério perene da Igreja Católica Apostólica Romana, à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou como se diz, à Tradição da Igreja, ou seja, que não haveria qualquer perigo de heresia, de ensino contrário à doutrina dos Papas. Seria essa mesma a situação ou o Sr. vê de outra forma?

Dom Fernando: Se a Santa Sé aceitar isso, julgando assim, ótimo. Se eles acertarem os ponteiros doutrinários e corrigirem, daqui em diante, muitas afirmações e atitudes não perfeitamente consoantes com a doutrina católica, a reconciliação será perfeita.
A Santa Sé disse que o problema deles é doutrinário. Deles. Eles reconhecem que o problema é doutrinário, mas dizem que não é deles, mas da Santa Sé, da Igreja (!). Rezemos para que eles afinem sua doutrina com o Magistério vivo da Igreja. Afinal, é dogma de Fé, definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano I, que “esta Sé de São Pedro permanece imune de todo erro, segundo a promessa de Nosso Divino Salvador feita ao Príncipe de Seus Apóstolos: ‘Eu roguei por ti, para que tua Fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos’ (Lc 22,32)” (Const, Dog. “Pastor Aeternus”, sobre a Igreja de Cristo, D-S 3070 e 3071). Esse mesmo Concílio Ecumênico Vaticano I define que “este carisma da verdade e da fé, que nunca falta, foi conferido a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra...” (Const, Dog. “Pastor Aeternus”, sobre a Igreja de Cristo, D-S 3070 e 3071). Como disse São Pio X: “O primeiro e maior critério da fé, a regra suprema e inquebrantável da ortodoxia é a obediência ao magistério sempre vivo e infalível da Igreja, estabelecido por Cristo columna et firmamentum veritatis, a coluna e o sustento da verdade.” (Alocução Cum vera soddisfazione, de 10/5/1909). Arvorar-se em juiz ou critério de verdade no lugar do Magistério ou em juiz do Magistério seria pretensão descabida.

In Guardia: Por diversas vezes vemos membros da FSSPX e mesmo pessoas não ligadas a ela, mas que tem uma identidade de mais forte ligação com ela, afirmarem que o Rito Novo favorece o surgimento de heresias e isso pode levar a crer que, por esse motivo, não é legítimo. Como o Sr. vê tais afirmações?

Dom Fernando: Esta opinião sobre a ilegitimidade do Rito Novo não está de acordo com a doutrina católica e, por isso mesmo, não é aprovada pelo Papa Bento XVI, cuja posição é bem outra.
Com efeito, o Santo Padre, o Papa Bento XVI, em sua Carta aos Bispos que acompanha o Motu Proprio Summorum Pontificum, afirma expressamente, como sendo algo óbvio e lógico: “Obviamente, para viver a plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades que aderem ao uso antigo, não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros. De fato, não seria coerente com o reconhecimento do valor e da santidade do rito a exclusão total do mesmo”. Está claro, portanto, nas palavras do Santo Padre, que se deve reconhecer o valor e a santidade da nova liturgia, e, em consequência, não excluí-la totalmente.  
Na minha Orientação Pastoral – O Magistério vivo da Igreja, e no meu livro “Considerações sobre as formas do Rito Romano”, explico bem:
“Levados pelo legítimo desejo de conservar a riqueza litúrgica do rito tradicional e chocados, com razão, em sua fé e piedade com os abusos, sacrilégios e profanações a que deu azo a reforma litúrgica, os católicos da linha tradicional, não querendo ver a “liturgia transformada em show” (Card. Ratzinger) nem querendo compartilhar com erros e profanações que viam, apegaram-se legitimamente às formas tradicionais da liturgia. Por isso, merecem toda a nossa compreensão, nossos louvores e nosso apoio todos os que lutam pela preservação da Liturgia na sua forma tradicional”.
“Assim também, em nossa Administração Apostólica, por faculdade a nós concedida pela Santa Sé, conservamos o rito da Missa na sua forma tradicional, isto é, a antiga forma do Rito Romano, como o fazem igualmente muitas congregações religiosas, grupos e milhares de fiéis em todo o mundo. Nós a amamos, preferimos e conservamos por ser, para nós, melhor expressão litúrgica dos dogmas eucarísticos e sólido alimento espiritual, pela sua riqueza, beleza, elevação, nobreza e solenidade das cerimônias, pelo seu senso de sacralidade e reverência, pelo seu sentido de mistério, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresentando assim mais segurança e proteção contra abusos, não dando espaço a “ambigüidades, liberdades, criatividades, adaptações, reduções e instrumentalizações”, como lamenta o Papa João Paulo II (Enc. Ecclesia de Eucharistia). E a Santa Sé reconhece essa nossa adesão como perfeitamente legítima. Assim, por ser uma das riquezas litúrgicas católicas, exprimimos através da Missa na sua forma tradicional o nosso amor pela Santa Igreja e nossa comunhão com ela”.
“Mas jamais se pode usar a adesão à Liturgia tradicional em espírito de contestação à autoridade da Igreja ou de rompimento de comunhão. Há que se conservar a adesão à tradição litúrgica sem pecar contra a sã doutrina do Magistério e sem jamais ofender a comunhão eclesial. Ensina o Papa João Paulo II: ‘A diversidade litúrgica pode ser fonte de enriquecimento, mas pode também provocar tensões, incompreensões recíprocas e até mesmo cismas. Neste campo, é claro que a diversidade não deve prejudicar a unidade. Esta unidade não pode exprimir-se senão na fidelidade à fé comum ... e à comunhão hierárquica’ (Carta apostólica Vigesimus quintus annus)”.
“Os limites, impostos pela teologia católica às reservas e críticas, nos impedem, por exemplo, de dizer que o Novus Ordo Missae, a Missa promulgada pelo Santo Padre Paulo VI, seja heterodoxa ou não católica. A sua promulgação (feita pelo Papa Paulo VI e reeditada duas vezes por João Paulo II e confirmada pelo Papa Bento XVI) (forma, no sentido filosófico) é a garantia contra qualquer irregularidade doutrinal que pudesse ter havido na sua confecção (matéria), embora ela possa ser melhorada na sua expressão litúrgica. E é a sua promulgação oficial, e não o modo de sua confecção, que a torna um documento do Magistério da Igreja”.  
“Quem, na teoria ou na prática, considerasse a Nova Missa, em si mesma, como inválida, sacrílega, heterodoxa ou não católica, pecaminosa e, portanto, ilegítima, deveria tirar as lógicas consequências teológicas dessa posição e aplica-la ao Papa e a todo o Episcopado residente no mundo, isto é, a toda a Igreja docente: ou seja, sustentar que a Igreja oficialmente tenha promulgado, conserve há décadas e ofereça todos os dias a Deus um culto ilegítimo e pecaminoso – proposição reprovada pelo Magistério (cf. notas 70 e 71) - e que, portanto, as portas do Inferno tenham prevalecido contra ela, o que seria uma heresia. Ou então estaria adotando o princípio sectário de que só ele e os que pensam como ele são a Igreja e que fora deles não há salvação, o que seria outra heresia. Ademais isso não vem significar absolutamente que estejamos aprovando abusos e profanações que ocorrem até com certa frequência em Missas celebradas no novo rito. Estamos falando do rito em latim tal qual foi promulgado pelo Santo Padre Paulo VI e aprovado pelos seus sucessores”.

In Guardia: Alguns entendem que a melhor forma de “legalização” da situação da FSSPX seria a criação de uma Prelazia Pessoal. Esse seria o melhor caminho?

Dom Fernando: Após a afinação doutrinária, creio que essa seria a melhor solução, como foi o nosso caso, a criação da Administração Apostólica Pessoal. Mas isso depende muito das implicações canônicas e da convivência com os Bispos nas suas respectivas dioceses. Creio que a Santa Sé está examinando esta possibilidade.

In Guardia: O Sr. sempre tentou deixar bem claro em seus textos a diferença entre o sagrado e o profano no ambiente propício para a celebração da Santa Missa. O que o Sr, pode indicar como profano no Rito de Paulo VI, não dentro dos abusos reconhecidamente cometidos, mas em relação ao rito como consta nas rubricas? Existe esse ponto que podemos chamar “profano”?

Dom Fernando: Não posso dizer que haja algo de profano num rito aprovado oficialmente pela Igreja, como é o caso da forma ordinária do Rito Romano. E se houvesse algo profano, foi sacralizado pela aprovação da Igreja.
Mas, como já explicamos, isso não quer dizer que o rito seja o melhor possível e que não possa ser melhorado. Eu creio que o rito ordinário, por não ser tão preciso e exigente nas rubricas como é o rito na forma extraordinária, pode dar azo a muitos abusos, devido ao ambiente atual e à falta de formação teológica e litúrgica de muitos.  
Por exemplo, a fórmula do  rito atual: “com essas ou com palavras semelhantes” (his vel similibus verbis), foi escrita para pessoas de boa formação e de bom senso. Mas, para os que não os têm, pode ser ocasião de introduzir muitas coisas profanas, como nas saudações de início e fim da Santa Missa. Como comentou o então Cardeal Ratzinger: “No novo Missal, encontramos muito frequentemente fórmulas como: sacerdos dicit sic vel simili modo (o sacerdote diz assim ou de modo semelhante)... ou então: hic sacerdos potest dicere (aqui o sacerdote pode dizer)... Esta fórmula do Missal oficializa de fato a criatividade; o padre se sente quase obrigado a mudar um pouco as palavras, de mostrar que ele é criativo, que ele torna presente à sua comunidade esta liturgia; e com esta falsa liberdade que transforma a liturgia em catequese para esta comunidade, destrói-se a unidade litúrgica e a eclesialidade da liturgia” (Card. Ratzinger, Autour de la question liturgique, 24 juillet 2001, Fontgombault).
Outro exemplo: a possibilidade de se introduzir instrumentos considerados profanos, tais como guitarras e baterias. Antigamente, e o seguimos na forma extraordinária, não se podia tocar na Igreja quaisquer instrumentos de percussão, cujo som e timbre criam um ambiente profano. Aliás, até hoje, é recomendado o uso do órgão, como o instrumento mais próprio para a Igreja, o que infelizmente não é observado em muitos lugares.






[1] “Neste tempo forte do vosso ministério episcopal, que é a visita ad limina, é para mim uma grande alegria acolher a vós que tendes o encargo pastoral da Igreja na Região Leste 1 do Brasil, da qual fazem parte as dioceses do estado do Rio de Janeiro e a ‘União São João Maria Vianney’, que eu quis constituir em Campos como Administração Apostólica Pessoal” – Discurso do S. Padre o Papa João Paulo II aos bispos do Regional Leste 1, na visita ad limina, 5 de setembro de 2002.