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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

PNE e ideologia de gênero


Por Paul Medeiros Krause

“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.” Millôr Fernandes, que não prestou as melhores homenagens ao vernáculo nessa frase, bem se deu conta de como às vezes se compreende erradamente a democracia. O mesmo ocorre com a ideia de estado laico ou laicidade do Estado. O Estado é laico enquanto agasalha a minha religião ou ideologia particular, mas é confessional quando promove a religião ou ideologia particular do outro... Não deve ser assim. Precisamos ser minimamente objetivos. Na democracia, onde impera o pluralismo de ideias, não se impõem ideologias, religiões ou formas de pensar. O Estado não substitui as consciências, o intelecto humano. Estado laico é aquele que não adota qualquer religião ou ideologia oficial.

A ideologia de gênero, fundamentada em postulados marxistas unidos sobretudo à psicologia de Freud, sustenta que as diferenças de sexo são convenções. Que os papéis que homem e mulher desempenham são socialmente construídos, socialmente determinados. Segundo os teóricos da ideologia de gênero, a primeira opressão, a primeira exploração injusta do trabalho alheio, foi a do homem em relação à mulher, no patriarcado. Muitos autores de Direito de Família, que agora, ideologicamente, eles preferem chamar de “Direito das Famílias”, estão comprometidos com a cosmovisão marxista, com a interpretação marxista da história, e nem dissimulam isso, citando sem constrangimentos A origem da família, da propriedade privada e do estado, de Engels, por exemplo. Já tive a oportunidade de destacar isso no artigo: A moral burguesa como fonte dos ‘direitos sexuais’ e do novo conceito de ‘famílias’[1].

Segundo a ideologia de gênero, deve ser construída uma sociedade polimorficamente perversa, em que os indivíduos, ao arrepio da sua sexualidade biológica, podem e devem construir a sexualidade que quiserem. Fico a perguntar-me se os órgãos sexuais masculino e feminino, se a diferença existente entre os gametas, também são uma construção social, artificialmente criada por uma sociedade capitalista opressora... Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco vão obrigar – por lei, decreto ou portaria – dois óvulos a gerarem uma criança ou dois espermatozoides a se fundirem...

Nem vou descer a detalhes sobre o absurdo que representa, sobre a violência que significa, expor crianças de tenra idade a essa patologia ideológica nas escolas, apresentada como se fosse algo neutro, acima do bem e do mal. Não vou deter-me aqui no abuso, no constrangimento moral, na confusão psicológica que representa a supressão dos banheiros femininos e masculinos nas escolas infantis. Não vou comentar o fato de crianças de oito a dez anos manusearem pênis de borracha em salas de aula. Há tantos críticos, e com toda razão!, do abuso sexual de crianças. Mas será que o abuso só se dá fisicamente, não pode ocorrer apenas na consciência, naquele núcleo mais íntimo da pessoa, sendo abusador o próprio Estado?

O poder descomunal do Estado pode ocorrer
nas consciências e com com o nosso pleno aval.
Não podemos esquecer-nos da força descomunal do Estado, a que um indivíduo jamais poderá resistir sozinho. Justamente em razão da desproporção de forças que há entre o Estado e o indivíduo, não pode aquele beneficiar uma ideologia particular, tornando-a obrigatória, colocando o súdito refém de uma peculiar visão de mundo, violando-lhe as convicções e a consciência, a liberdade de consciência e de crença, mormente quando se encontre na vulnerável condição de educando. A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença (art. 5.º, VI).

Ora, nossa Constituição não albergou, como ideologia oficial, o materialismo histórico. Pelo contrário, um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é o pluralismo político (art. 1.º, V). Nós não somos camundongos, não somos ratos de laboratório sujeitos a experimentos sociológicos. Nossas crianças não são cobaias das invencionices dos cientistas sociais.

Dispõe o art. 22, XXIV, da Constituição da República: “Compete privativamente à União legislar sobre: XXIV – diretrizes e bases da educação nacional”. O art. 24, IX, da Constituição complementa:“Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: IX – educação, cultura, ensino, desporto, ciência, tecnologia, pesquisa, desenvolvimento e inovação”.Acrescenta o § 1.º do art. 24: “No âmbito da legislação concorrente, a competência da União limitar-se-á a estabelecer normas gerais.”

O art. 214 da Lei Maior, com a redação que lhe foi dada pela Emenda Constitucional n.º 59, de 11 de novembro de 2009, prescreve: 

“A lei [leia-se: lei federal, ou melhor, lei nacional] estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a: I – erradicação do analfabetismo; II – universalização do atendimento escolar; III – melhoria da qualidade do ensino; IV – formação para o trabalho; V – promoção humanística, científica e tecnológica do País; VI – estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto.”

Diz o art. 3.º da Constituição: 

“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer formas de discriminação.”

Acrescenta o art. 5.º da Constituição: 

“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I – homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.

Diz mais o art. 226 da Constituição: 

“A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1.º O casamento é civil e gratuita a celebração. § 2.º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei. § 3.º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar a sua conversão em casamento. § 4.º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. § 5.º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.”

Pergunta-se: em que momento a Constituição menciona gênero? Igualdade entre gêneros? Identidade de gênero? Só há menção a sexo, igualdade entre os sexos e entre homem e mulher. Não há nem sequer o reconhecimento da união estável entre pessoas de mesmo sexo. Observe-se que o art. 226, § 3.º, é original na Constituição, oriundo do Poder Constituinte Originário, não do Derivado, portanto, não pode ser considerado inconstitucional.

Portanto, o Plano Nacional da Educação (PNE), aprovado pela Lei n.º 13.005, de 25 de junho de 2014, já não poderia trazer nada a respeito da ideologia de gênero. A Constituição fala de sexo, não de gênero. O sexo biológico é um dado objetivo. Não foi inventado por nenhum teórico das ciências sociais. O PNE seria inconstitucional se agasalhasse a ideologia de gênero, pois a Constituição não permite ao Estado brasileiro comprometer-se com uma peculiar visão de mundo, utilizando-se de sua descomunal força para torná-la obrigatória, submetendo os brasileiros a um estupro intelectual, ao estupro das suas consciências. A família goza de especial proteção do Estado. O direito dos pais de educarem seus filhos em conformidade com as suas consciências e crenças não pode ser violado pelo Estado.

A citação seguinte deve levar-nos a refletir:

“Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram sendo preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores. Tudo isto não é senão raciocínio lógico e consequente.”[2]

Da mesma forma que o nazismo não nasceu nos ministérios de Berlim, mas em gabinetes de cientistas e filósofos, a ideologia de gênero não é invenção do Ministério da Educação (MEC). Não podemos permitir que as salas de aula das crianças brasileiras se tornem alvo de experiências sociológicas, de invencionices criativas, como se nossas crianças fossem cobaias dos teóricos da ideologia de gênero.

A distinção entre os sexos é um dado objetivo. É necessária inclusive para a conservação e perpetuação da espécie humana. Mas não é só isso. Ela é um dado da tradição. Aprendemo-la com os nossos pais e avós. E a verdadeira democracia dá ouvidos aos antepassados:

“A tradição pode ser definida como uma extensão dos direitos civis. Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, os nossos antepassados. É a democracia dos mortos. A tradição se recusa a submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos que simplesmente por acaso estão andando por aí. Todos os democratas objetam a desqualificação pelo acidente do nascimento; a tradição objeta a desqualificação pelo acidente da morte. A democracia nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso criado; a tradição nos pede para não ignorar a opinião de um homem bom, mesmo que ele seja nosso pai." 

Eu, de qualquer modo, não consigo separar as duas ideias da democracia e da tradição; parece-me evidente que são a mesma ideia. Teremos os mortos nos nossos conselhos. Os antigos gregos votavam com pedras tumulares. É tudo muito regular e oficial, pois a maioria das pedras tumulares, como a maioria das cédulas de votação, é marcada com uma cruz.”[3]

Não podemos comportar-nos como adolescentes que acreditam nos colegas de rua e desprezam a opinião dos pais. Os teóricos da modernidade não podem simplesmente passar por cima das grandes tradições ocidentais.

Ilustrativo é o seguinte trecho de A descoberta do outro, do autor carioca Gustavo Corção:

“A opinião é uma atitude que o sujeito toma diante do objeto sem que o objeto importe. Não se mede pelo objeto, não tem proporção com ele. [...] Ter razão importa sem que o objeto importe. [...] [...] [...] O mecanismo da opinião pode ser descrito como uma interposição da vontade entre a inteligência e o objeto. A justa proporção com o objeto fica prejudicada, só podendo existir quando a inteligência está em livre confronto com o objeto, isto é, na contemplação. Gostaria de tornar bem clara a imensa gravidade desse problema e a importância vital do restabelecimento, na estrutura de nossa pessoa, desse respeito pelo objeto, dessa abertura para fora pela qual tanto a inteligência como a vontade, a boa vontade, aspiram à suma objetividade. O grande desvio do pensamento moderno tem origem nessa inversão interior, pela qual a vontade se arroga um direito de conquista onde somente à inteligência cabe o primado. Todos nós, mais ou menos europeus, estamos impregnados de idealismo filosófico até a medula dos ossos, estamos convencidos que nossa dignidade mais alta reside nesse subjetivismo obstinado que tenta reduzir todas as coisas do céu e da terra a meia dúzia de opiniões. Muita gente pensa que isso é grandeza e marca de caráter e que a personalidade humana se define por esse fechamento diante dos objetos e se engrandece por essa deformação interior. Diante dos objetos mais simples o homem liberal, que agasalha suas opiniões, que desconfia de tudo que não seja o morno recôncavo de sua interioridade, cai em guarda numa posição crispada; a vontade mete-se de permeio entre a porta dos sentidos e a inteligência, e como o seu caminho é mais curto, ou porque seja ela mais ágil, sua sugestão chega antes do conceito e gera o preconceito. A inteligência perde a liberdade e a vontade então convence o sujeito de que ele é um livre-pensador. É nessa questão nevrálgica da liberdade que a vontade mais se excita, e, no diálogo interior, clama que lhe pertence exclusivamente a decisão nessa matéria. Como na vida exterior vive sendo ofendida, esbarrando, chocando-se, atritando-se, a vontade procura se desforrar e volta-se para dentro. Volta-se contra o próprio sujeito, enrola-se no cerne nobre da pessoa e morde a inteligência. A liberdade psicológica e voluntariosa, nascida no conflito com as objetividades, substitui a liberdade ontológica que tem raiz na adequação entre a inteligência e o ser. O primado da inteligência é usurpado, e então, em vez do reto juízo, nasce a opinião. [...] O senso da objetividade, a que já me referi nos capítulos anteriores, é aquele pelo qual a inteligência tende para o objeto e tem consciência de sua responsabilidade primeira no juízo. A diminuição desse senso gera o subjetivismo, a reivindicação do direito de opinião, o liberalismo, o voluntarismo, e todas as correntes filosóficas idealistas que buscam no objeto uma ressonância apenas do sujeito. [...] E isso acontece porque a vontade interfere, mete-se entre o objeto e a inteligência, e procura se adequar à mobilidade, que é uma categoria proporcionada à sua essência. A atividade impera sobre a contemplação, o apetite domina o juízo, a opinião substitui a verdade.”[4]


Para concluir, os planos estaduais e municipais da educação, como visto, já não podem, como não poderia o plano nacional, albergar a ideologia de gênero, sob pena de inconstitucionalidade e deslavado autoritarismo. Acertadamente o Congresso Nacional, notadamente o Senado, extirpou sobredita ideologia do plano nacional. Espanta-me, pois, que o MEC, desrespeitando a Constituição e deliberação do Congresso Nacional, pressione de modo mais ou menos sutil estados e municípios a inseri-la em seus planos. No caso de estados e municípios, a inconstitucionalidade é ainda mais gritante: a União, no exercício da competência legislativa concorrente, edita normas gerais, de âmbito nacional. Não podem estados e municípios, ao editarem as normas suplementares, contrariar as normas nacionais baixadas pela União.

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[1] KRAUSE, Paul Medeiros. A moral burguesa como fonte dos ‘direitos sexuais’ e do novo conceito de ‘famílias’. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 18, n. 3613, 23 maio 2013. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/24515>. Aceso em: 30 jul. 2015.
[2] FRANKL, Viktor E. Sede de sentido. Introdução, tradução e notas de Henrique Elfes. 3. Ed. São Paulo: Quadrante, 2003. p. 45.
[3]  CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. Traduzido por Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. p. 80-1.
[4] CORÇÃO, Gustavo. A descoberta do outro. 2. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1945. p. 80-1, 110-1.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Diário de um pároco de aldeia.


Por Paul Medeiros Krause.

Uma das minhas melhores leituras dos últimos e de todos os tempos é certamente "Diário de um pároco de aldeia", do grande escritor francês, católico, Georges Bernanos, que curiosamente viveu um tempo no Brasil, na cidade de Barbacena, Minas Gerais, distante 170 km de Belo Horizonte. O livro, da É Realizações, conta com a primorosa tradução de Edgar de Godói da Mata Machado, saudoso professor de Introdução ao Estudo de Direito, neotomista, da Faculdade de Direito da UFMG, que possui um primoroso "Elementos de Teoria Geral do Direito".

Muito me agradaram as figuras utilizadas por Bernanos e seu estilo ácido, sincero e preciso. O seu diagnóstico sobre o cansaço, a mediocridade e o tédio do mundo burguês parece-me único. Não creio ter lido ainda coisa tão milimetricamente acertada.

Outra obra prima de Bernanos é o famoso "Sob o sol de Satã", que já adquiri, mas ainda não comecei a ler. Preferi seguir por "Joana, relapsa e santa", menorzinho, um opúsculo.

Há no "Diário" trechos verdadeiramente antológicos, impagáveis, terrivelmente precisos. Deixo-lhes uma pequena amostra, para abrir-lhes o apetite. Assim começa, magistralmente, a meu sentir:

"Minha paróquia é uma paróquia como as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Ontem, eu dizia ao vigário de Norenfontes: o bem e o mal devem equilibrar-se numa paróquia, só que o centro de gravidade é colocado embaixo, muito embaixo. Ou, se se prefere, um e outro se sobrepõem, sem misturarem-se, como dois líquidos de densidade diferente. O padre riu em minha cara. É um bom cura, muito benevolente, muito paternal e que passa mesmo, no arcebispado, por um espírito forte, um tanto perigoso. Suas troças fazem a alegria dos presbitérios e ele as apoia com um olhar que desejaria vivo, mas que eu acho, no fundo, tão gasto, tão cansado, que me dá vontade de chorar.

Minha paróquia é devorada pelo tédio, eis a palavra. Como tantas outras paróquias! O tédio as devora sob nossa vista e nada podemos fazer. Um dia, talvez, o contágio tomará conta de nós, descobriremos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.

A ideia me veio, ontem, na estrada. Caía uma dessas chuvas finas que nos penetram os pulmões inteiros e descem até o ventre. Do lado de Saint-Waast, a aldeia surgiu-me bruscamente, tão confusa, tão miserável sob o horrível céu de novembro! Vapores de água subiam, como fumo, de todas as partes e ela parecia ter-se deitado, ali, na relva húmida, como um pobre animal cansado. Que coisa pequena, uma aldeia! E essa aldeia era minha paróquia. Era minha paróquia e eu nada podia fazer por ela; via-a tristemente mergulhar na noite, desaparecer... Mais alguns momentos e já não enxergava minha paróquia. Nunca havia sentido tão cruelmente sua solidão e a minha. Pensava no gado que ouvia mugir em meio à cerração e que o vaqueirinho, de volta da escola, maleta debaixo do braço, ia conduzindo, através do pasto úmido, para o estábulo quente, cheiroso... E ela, a pequena aldeia, parecia aguardar também -- sem grande esperança --, depois de tantas noites passadas na lama, um dono que a conduzisse para algum lugar improvável, algum inimaginável asilo.

Oh! bem sei que tudo isso são ideias loucas, que não posso tomá-las inteiramente a sério, sonhos apenas!... As aldeias não se levantam, à voz de um aluno de grupo escolar, como os bois. Não importa! Na tarde de ontem, acho que um santo a tinha chamado."

Aqui, caro leitor, logo na sequência, vem o diagnóstico terrível, o mais perfeito que julgo ter lido:

"Dizia a mim mesmo que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para dar-se conta disso; não é fato que se apreenda assim, de relance. É uma espécie de pó. A gente vai e volta sem o ver, respira-o, come-o, bebe-o; é tão tênue, tão fino, que nem ao menos range sob os dentes. Mas se a gente para um segundo, ei-lo que cobre nosso rosto, nossa mão. Temos de nos sacudir, sem cessar, para libertar-nos dessa chuva de cinza. Daí por que o mundo tanto se agita."

Prossegue o formidável autor:

"Dir-se-á talvez que, há muito, o mundo se familiarizou com o tédio, que o tédio é a verdadeira condição do homem. É possível que a semente espalhada por toda a parte germinasse, aqui e ali, em terreno favorável. Pergunto, porém, se os homens conheceram algum dia esse contágio do tédio, essa lepra! Um desespero malogrado, uma forma torpe de desespero que é, sem dúvida, como que a fermentação de um cristianismo desfigurado."


Fica aqui a dica ao amável leitor, recomendando-lhe que não demore a dar-se o prazer da leitura.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Erasmo, o asno.


Por Paul Medeiros Krause.

Erasmo de Roterdã (sim! Trata-se de um caso de homonímia!) era um ser de uma espécie superior. Na verdade, para dizer melhor, era um ser superior da sua espécie. Asno de nascimento e por um implacável decreto da natureza, possuía uma inteligência maior que a de muitos seres humanos, tanto que fora admitido – apesar do seu mau cheiro de animal e dos hábitos alimentares pouco ortodoxos – aos estudos, aprovado no vestibular e encontrava-se cursando o último período de direito, em uma honrada instituição universitária.

Aquela criatura peluda, que precisava sentar-se nas últimas carteiras para não atrapalhar a visão dos colegas, era um dos melhores alunos da classe, possuía boas notas e deixava pasmos todos os que assistiam às suas incríveis intervenções em sala de aula, saborosamente perspicazes. Tudo indicava seria ele o orador da turma – apesar dos relinchos que às vezes inadvertidamente soltava –, pois além de ter boa voz, escrevia bem, ousando até a publicar artigos no jornal dos estudantes. Todos criam que ele ganharia o prêmio conferido ao melhor aluno da turma.

No princípio do curso, Erasmo chegou a interessar-se por algumas colegas, mas era um pouco tímido e reservado – quase um criado-mudo! –, devido à terrível fama de seus ancestrais de dedicar-se diuturnamente a asneiras. Um certo complexo de inferioridade assaltava-o, dificultava-lhe as relações, além do seu temperamento assertivo e um tanto quanto renitente. De quando em quando, alguns colegas montavam nele, expondo-o à zombaria coletiva, mas havia também os companheiros leais e inseparáveis, que o defendiam, animavam e admiravam.

Alguns diziam:

– Esse burro vai longe!

Outros prognosticavam:

– Esse asno vai acabar sendo juiz!

Outros criticavam-no por às vezes pastar alguma grama da redondeza, ao que ele, espirituosamente, retrucava:

– Vocês comem o bandejão e estão falando de mim?!

Erasmo era um espantoso caso de animal com alma racional. Muitas vezes fora expulso da faculdade pelos vigias, açoitado por alunos de outras turmas, que imaginavam tratar-se de um quadrúpede estúpido qualquer e o enxotavam como se faz a um cachorro que entra numa igreja. Contudo, logo vinha alguém que conhecia os seus peculiares predicados, a sua inusitada condição de aluno quadrúpede, de animal dotado de razão, mais do que isso, de aguda razão. Alguns acabavam recordando-se de tê-lo visto uma ou outra vez falando no orelhão.

Mesmo andando sobre quatro patas, algumas coisas estupefaziam-no. Ele tinha a impressão de que muitos de seus colegas ruminavam, só que com a silenciosa docilidade dos cordeirinhos. Ele via uma estranha linearidade no comportamento do rebanho, equivalente à dos de sua espécie que sempre fazem a mesma coisa, sem maiores reflexões, desde que o mundo é mundo. Percebia, com estarrecimento, que alguns de seus amigos eram tão dóceis aos mestres quanto seus irmãos aos capatazes. Novamente, com uma diferença: seus irmãos sabiam dar coices!

Mas, voltemos ao último semestre. Erasmo estava concentrado nos estudos. Vivia como um asceta. Não bebia, não fumava, não ia pras baladas. Nem sabia quem estava pegando quem. Ele nem se dava conta da existência de uma sua colega, mula, que partilhava algo de sua índole. Só por isso não a mencionei ainda. Também ela era um ser superior. Superior às outras mulas. Ademais, era belíssima, meiguíssima, finíssima, humílima e vários outros íssimas. Não se sabe como, mas era mais bela que todas as outras alunas reunidas e elevadas à décima potência. O sonho de consumo de qualquer animal menos distraído. Também ela passara pelos dissabores de possuir uma alma racional em corpo de animal. Apenas seu nome soava um pouco estranho: Suplícia, mas tinha algo que ver com a sua sorte. Suplícia apaixonou-se por Erasmo.

Lançando mão de recursos mais ou menos sutis, de expedientes mais ou menos criativos, Suplícia tentava a todo custo chamar a atenção de Lutero, digo, de Erasmo, que, absorto em suas meditações, absolutamente não a notava. Deixava ela às vezes cair os livros no chão para que ele pegasse, o que este fazia de bom grado, mas sem distinguir o dolo específico contido na ação da estupenda, extraordinária, magnífica e fenomenal colega.

Depois de muita persistência de Suplícia, caíram as escamas dos olhos de Erasmo e ele viu. Viu que ela o amava. Começaram a namorar... Só que o namoro não demorou muito, pois Erasmo era um asceta, um místico, um ser esquisito, que só pensava em estudar.

Suplícia não se conformou com o rompimento, que lhe partiu o coração. Caiu em depressão profunda, começou a embriagar-se e a usar drogas. Sua aparência tornou-se horrível. Parecia não dormir. Alguns diziam:

– Vejam o seu estado deplorável! Está apaixonada! Não se valoriza!

Outros comentavam:

– Não suportou o baque. Ficou louca. Perdeu a cabeça.

Suplícia tentava preencher o vazio que havia em si, o vazio deixado por Erasmo. Mas trocava os pés pelas mãos, digo, as patas traseiras pelas dianteiras. Rolava ladeira abaixo, na ladeira da existência. Perdeu o juízo.

E essa, meus amigos, acreditem ou não, é a verdadeira história, é a verdadeira origem da mula-sem-cabeça.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A extrema-unção.


Por Paul Medeiros Krause

Uma simpática amiga, cujo esposo também é meu amigo, pediu-me certa vez que eu escrevesse sobre a unção dos enfermos, este sacramento terrível outrora chamado de extrema-unção. (Foi o Concílio Vaticano II, nos números 73-75 da Constituição 'Sacrosanctum Concilium', que ordenou a troca do nome). Parece-me que o momento é oportuno para falar dele, pois o mês de novembro, o último do ano litúrgico, além de mês dos mortos, dos finados, é dedicado à meditação dos novíssimos, isto é, dos últimos acontecimentos da vida do homem: morte, juízo, céu, inferno e purgatório. Comecei a redigir este texto em novembro.

Toda vez que eu saibo de alguém das minhas relações que fica gravemente enfermo, a primeira coisa que me ocorre é indagar se tal pessoa recebeu a unção dos enfermos. Pode ser que às vezes eu cometa uma indiscrição. Em algumas ocasiões, os parentes próximos do enfermo assustam-se, como se tal indagação equivalesse a uma sentença de morte para o doente. É como se eu dissesse: “Coitado, esse aí vai vestir o paletó de madeira!”, “Esse aí já era!”, “Vai bater a cachuleta!”, “Finou-se!”.

Ainda não fui capaz de vencer a falta de habilidade com as palavras e com as pessoas, mas tenho pelo menos dois argumentos em minha defesa, que, se não me absolvem, pelo menos me atenuam a culpa: o primeiro é que a unção dos enfermos não se destina apenas aos que vão morrer, mas tem finalidade curativa, destina-se a curar, ainda que precipuamente a alma. Diz São Tiago no final da sua epístola (Tg 5,14-15): “Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados.” (Pois bem. Embora o católico não viva apenas da Bíblia, mas da Bíblia, da Tradição e do Magistério, o sacramento de que nos ocupamos tem base bíblica, embora não exclusivamente. A Tradição e o Magistério também o consagram). O segundo é este: com a salvação eterna não se brinca; não podemos deixar que uma pessoa se perca por respeito humano.

O Código de Direito Canônico também vem em meu socorro. No cânon 1001 ele diz:

"Cân. 1001. Cuidem os pastores de almas e os parentes dos enfermos que estes sejam confortados em tempo oportuno com esse sacramento".

Já falei disso uma outra vez: a estranha capacidade do homem de nossos dias de esquecer o mais importante, de relegar o essencial ao segundo plano, deixa-me perplexo. A hora da morte não é para brincadeiras. Ninguém vai se preocupar com sujar ou estragar um terno, atrapalhar o penteado, perder a pose ou a compostura, se o que estiver em jogo for uma vida humana, se uma pessoa estiver morrendo na sua frente e um ato seu puder salvá-la. Ocorre que aqui estamos diante de algo muito mais grave do que a mera morte física ou biológica: a morte espiritual, o inferno eterno, sofrimentos insuportáveis a que nenhuma outra morte porá fim.

A ideia que faço do inferno é a seguinte: é a de um desespero insuportável, de uma dor talvez até mais moral, espiritual, do que física, pior que a de um suicida, com o agravante de que não há morte que possa interrompê-la, não há remédio para esse mal. Digo isso porque o desespero de um suicida é o pior sofrimento que eu consigo imaginar sobre a face da terra.

Um padre sábio uma vez me disse ter notícia de muitos casos de moribundos que parecem estar justamente esperando a unção dos enfermos para morrer. Eles sobrevivem miraculosamente, ou quase isso, até a chegada do sacerdote. Recebida a unção, eles entregam a alma a Deus. Observemos que a unção dos enfermos, como atesta São Tiago, perdoa os pecados. Além disso, conforta e revigora a alma, fortalece-a no combate da doença e das tentações. Talvez esses moribundos não se salvassem se não tivessem recebido o sacramento.

Santa Faustina, em seu "Diário", demonstra-nos que a hora da agonia é uma hora tremenda, é uma hora grave e decisiva, em que os demônios tentam-nos com especial força. Não deve ser por qualquer motivo ocioso que nas Ave-Marias pedimos a intercessão de Nossa Senhora para a hora da nossa morte. Santa Faustina tinha muita compaixão pelos agonizantes.

Estabelece, a respeito da unção, o Código de Direito Canônico:

"Cân. 1004 - § 1. A unção dos enfermos pode ser administrada ao fiel que, tendo atingido o uso da razão, começa a estar em perigo por motivo de doença ou velhice.

§ 2. Pode-se repetir este sacramento se o doente, depois de ter convalescido, recair em doença grave, ou durante a mesma enfermidade, se o perigo se agravar.

Cân. 1005 - Na dúvida se o doente já atingiu o uso da razão [normalmente se considera a idade de sete anos], se está perigosamente doente, ou se já está morto, administre-se o sacramento.

Cân. 1006 - Administre-se este sacramento aos doentes que ao menos implicitamente o pediram quando estavam no uso de suas faculdades.

Cân. 1007 - Não se administre a unção dos enfermos aos que perseverarem obstinadamente em pecado grave manifesto."

O Papa Paulo VI, na sua Constituição Apostólica sobre o Sacramento da Unção dos Enfermos, de 30 de novembro de 1972, esclarece que a referida unção é atestada na tradição da Igreja, sobretudo em sua liturgia, pelos mais antigos testemunhos, tanto no Oriente como no Ocidente.

O mesmo Paulo VI aprovou o Rito da Unção dos Enfermos e sua Assistência Pastoral, promulgado por Decreto da Sagrada Congregação para o Culto Divino de 7 de dezembro de 1972.

El niño enfermo de Arturo Michelena
É importante frisar que antes de uma operação cirúrgica pode ser dada ao enfermo a unção sagrada sempre que uma doença grave seja a causa da intervenção. A velhice também, desde que comece a oferecer perigo de morte, é motivo para a unção dos enfermos. O tempo oportuno do sacramento, pois, é o momento em que começa o perigo de morte. Não é necessário que esta seja iminente, que o enfermo esteja à beira da morte. Basta a probabilidade, não se exigindo que seja mais provável que morra do que sobreviva.

Do referido ritual de 7 de dezembro de 1972, extrai-se:

"Para atender mais facilmente aos casos particulares, em que os fiéis, por doença repentina ou qualquer outro motivo, se vejam de repente em perigo de morte, recorra-se ao Rito Contínuo, pelo qual o enfermo recebe sucessivamente os sacramentos da Penitência, da Unção e da Eucaristia sob forma de viático.

Porém, se há perigo de morte iminente e não houver tempo para ministrar todos os sacramentos do modo que foi estabelecido, dê-se primeiro ao doente a oportunidade de uma confissão sacramental, ainda que realizada genericamente em caso de necessidade; em seguida seja-lhe dado o viático, que todos os fiéis em perigo de morte têm a obrigação de receber. Finalmente, se ainda houver tempo, seja-lhe ministrada a Sagrada Unção.

Se, por motivo de enfermidade, não puder receber a sagrada comunhão, seja-lhe conferida a Unção dos Enfermos."

Recorde-se que a unção dos enfermos perdoa os pecados, se o enfermo não estiver em condições de obter tal perdão pelo sacramento da Penitência, como esclarece o Catecismo da Igreja Católica. Se o enfermo estiver lúcido e em condições de confessar-se, deve fazê-lo, dispondo-se bem para receber a unção, sobretudo se estiver em pecado mortal. Como esclarece o Padre Paulo Ricardo, o perdão dos pecados na unção dos enfermos é efeito secundário. Ele é efeito primário de outro sacramento: a confissão.

Acrescente-se, ainda, que o sacerdote, ao administrar os sacramentos ao fiel em perigo de morte (se possível, a confissão, a unção e a Eucaristia ou "viático"), pode conceder-lhe a bênção apostólica com a indulgência plenária (em artigo de morte), mesmo que tal fiel já tenha recebido outra indulgência plenária no mesmo dia. Trata-se de uma exceção.

Sobre isso, a norma 18 da Constituição Apostólica sobre a Doutrina das Indulgências do Papa Paulo VI, de 1.º de janeiro de 1967, complementa:

"N. 18. No caso da impossibilidade de haver um padre para administrar a um fiel em perigo de morte os sacramentos e a bênção apostólica com a indulgência plenária a ela ligada, de que se trata no cân. 468, parágrafo 2, do CDC [trata-se do Código de Direito Canônico anterior], concede benignamente nossa piedosa Mãe Igreja a esse fiel bem disposto a indulgência plenária a lucrar em artigo de morte, com a condição de ter ele durante a vida habitualmente recitado algumas orações. Para aquisição dessa indulgência é louvável empregar um crucifixo ou uma cruz. Essa mesma indulgência plenária em artigo de morte pode ser ganha por um fiel, ainda que ele já tenha no mesmo dia ganho outra indulgência plenária."


Por tudo isso, meus amigos, não negligenciemos o tesouro espiritual que a Igreja, Mãe solícita e mestra, põe em nossas mãos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Máscaras.


Por Paul Medeiros Krause

Prezado leitor, será que nós estamos plenamente convencidos de que Deus criou-nos para a felicidade suprema e completa? Será que nos conduzimos por essa verdade?

A nossa vocação inadiável é para a felicidade.
Estou me aproximando dos meus quarenta anos, no ano que vem os completo, se Deus quiser, e as leituras e a experiência de vida acumuladas até aqui levam-me a crer que a maioria de nós não nos convencemos da nossa vocação inadiável para a felicidade. Ou, dito de outra forma, estou convencido da existência de uma tentação sutil, sorrateira, que o demônio arma aos crentes: a ideia ilusória de que seguir o caminho de Deus significa negar a própria natureza, o aniquilamento do próprio eu, o sacrifício da espontaneidade e da criatividade, a mutilação da personalidade.

O demônio é como o PT, na verdade, o PT, verdadeira sucursal do inferno, é como o demônio: acusa os outros do que ele faz. A grande verdade é que o capeta, quanto mais uma pessoa a ele se confia, de forma tácita (talvez a mais comum) ou expressa, mais destrói a sua natureza, o seu eu, a sua identidade única, a sua liberdade e espontaneidade. As personalidades confiadas ao pai da mentira são fragmentadas, sem unidade e coerência. O diabo, astuto conhecedor da natureza humana, sugere continuamente aos homens a ideia de que Deus os quer tristes e frustrados, os quer mutilados, quer negar-lhes tudo. Lembremo-nos da primeira mentira da serpente no Livro do Gênesis: “É verdade que Deus vos proibiu de comer de toda árvore do jardim?”.

O Livro do Gênesis é de uma atualidade gritante. Aquela mentira é diuturnamente soprada aos ouvidos da nossa alma pelo inimigo do gênero humano. Desgraçado, derrotado, sumamente infeliz, invejoso, escravo dos seus vícios, Satanás deseja ver-nos desgraçados, destroçados, fragmentados, sumamente infelizes como ele.

Há uma máxima, salvo engano, da teologia escolástica: “A graça não anula a natureza, mas a leva à perfeição”, isto é, a ação de Deus, a ação do Espírito Santo na alma em estado de graça, não destrói a natureza humana, não a mutila, não a cerceia, mas eleva-a, aperfeiçoa-a. Nesse sentido, só pode ser uma tentação diabólica pensar que a ação do Espírito Santo na nossa alma aniquilará o nosso próprio eu, sufocará a nossa individualidade, destruirá os nossos gostos, as nossas inclinações, eliminará os nossos lazeres, lançará uma camisa de força em nossa criatividade. Nada mais falso! É justamente o contrário. O Espírito Santo tão somente aperfeiçoará os nossos mais legítimos anseios, orientando-os para o seu pleno atingimento.

Usamos máscaras, desconhecemos a verdade
e nos apresentamos a Deus como homens que não somos.
É por desconhecer essas verdades que muitas vezes usamos máscaras. É por ignorar isso que tantas vezes nos apresentamos diante de Deus e dos homens como nós não somos, exibindo virtudes que não possuímos e dissimulando nossos defeitos. Muitas vezes, até para rezar, utilizamos entonações sentimentais, piegas, esquisitas, pasteurizadas, como se a eficácia da nossa oração dependesse de uma certa homogeneidade, da opinião exterior da assembleia, e não da nossa nudez, da nossa tranquila simplicidade diante de Deus, que conhece até as dobras das nossas almas. Muitas vezes temos a ideia falsa de que Deus deseja um monte de robozinhos que O sirvam. Esses robozinhos, se olharem para o lado, já estariam pecando. Nada disso. Isso é escrúpulo.

 “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Deus não nos quer com máscaras. Deus não nos quer com poses de santos; quer-nos santos, sem pose. Santos ao natural, com os cabelos ao vento. Ele não quer entonações afetadas, sorrisos forçados, artificialismos. Ele quer que sejamos santos com toda a tranquila espontaneidade que emerge das nossas almas banhadas pela luz do seu Espírito. Deus quer expandir a nossa personalidade ao máximo, e não manietá-la.

O Espírito Santo é criativo por natureza, e Ele quer que sejamos livres, criativos também. Deus só nos proíbe a autodestruição. O pecado é uma espécie de automutilação, de autoflagelo ou suicídio espiritual. A Lei de Deus, portanto, só nos proíbe de ferirmos a nós mesmos e aos outros. O pecado nos desfigura; a graça nos cura.

É sempre bom lembrar as palavras do Papa João Paulo II no início do seu Pontificado: “Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarai as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem 'o que é que está dentro do homem'. Somente Ele o sabe!”

O que Deus nos tira, meus irmãos, é o que não é Dele: são as falsas alegrias, os falsos gozos, as falsas amizades, as falsas esperanças neste mundo ilusório, pois, como diz São Paulo, “a figura deste mundo passa”.

Tenhamos a coragem de ser nós mesmos. De corresponder cada vez mais à nossa própria identidade, à nossa própria criatividade. Deus que nos criou com todos os nossos dons quer que os desenvolvamos ao máximo, e não que enterremos nossos talentos na terra. Ele mesmo disse isso no Evangelho. Ele não quer tolher a nossa personalidade, não quer vestir-nos uma camisa de força. Pelo contrário, o Espírito Santo é o espírito da abertura, da alegria, da liberdade calma, da espontaneidade tranquila, da simplicidade serena. Nosso Criador não nos deu dons para que nós os atrofiássemos.


Confesso a vocês, e talvez já tenha dito isso antes, para mim, as manhãs de domingo são uma metáfora, uma figura do paraíso, da eternidade. Quando vou fazer meu esporte nas manhãs de domingo, vejo tanta alegria, tanta espontaneidade, tanta criatividade nas pessoas: vejo bicicletas diferentes, skates diferentes, tantos tipos de brinquedos e diversões. Vejo coisas que eu nem imaginava que existissem. Estou seguro de que o paraíso é assim: uma explosão de felicidade, de criatividade e de espontaneidade, em que as nossas personalidades se mostram integralmente e encontram a sua plena realização e o seu pleno desenvolvimento, sob o sol luminoso da presença de Deus.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O primogênito.


Por Paul Medeiros Krause.

Há um pequeno trecho do evangelho de São Lucas que costuma escandalizar algumas pessoas pouco afeitas à interpretação das sagradas escrituras. Parece mesmo que o Divino Espírito Santo gosta de chocar e confundir alguns espíritos mais suscetíveis e sempre prontos a arrancar os cabelos diante de qualquer dificuldade interpretativa. É o seguinte: “e ela deu à luz seu filho primogênito” (Lc 2, 7).

A Bíblia de Jerusalém traz a seguinte nota ao trecho citado: “No grego bíblico, o termo não implica necessariamente a existência de irmãos mais novos, mas sublinha a dignidade e os direitos da criança”.

Certamente, muitos lembram-se da passagem de Esaú e Jacó, em que o primeiro, por um prato de lentilhas – figura do pecado, em que trocamos a graça de Deus por qualquer bagatela criada -, cede ao segundo o seu direito de primogenitura. Recordamo-nos, também, do episódio em que Jacó se disfarça de Esaú, com a cumplicidade de sua mãe, para receber a bênção paterna, destinada ao filho primogênito.

Deus põe à prova a nossa confiança. Ele não aprecia espíritos excessivamente desconfiados, inseguros. Pouco ou nada adiantaria o Espírito Santo ter inspirado a redação da Bíblia se Ele também não suscitasse uma espécie de “Suprema Corte Constitucional” que nos fornecesse uma “interpretação conforme à Constituição” do texto sagrado. Essa “Suprema Corte Constitucional”, que nos interpreta a Bíblia conforme à revelação de Deus, conforme Deus, é a Igreja Católica.

Os teólogos da libertação dizem que o verdadeiro intérprete da Bíblia é o povo, oprimido pela hierarquia católica. Mas eles, os teólogos da libertação, possuem também duas imagens representativas no evangelho: Judas, ladrão dos direitos divinos, que quis roubar o dinheiro do perfume que ungiu Jesus, sob pretexto de ajudar os pobres, e Jesus Barrabás (“Bar-Abbas”, filho do pai. “Bar” significa filho; Bartimeu é o filho de Timeu. Segundo muitos manuscritos antigos, Barrabás chamava-se Jesus), o Jesus agitador, assassino, revolucionário, que pega em armas para promover justiça social. Os teólogos da libertação são os que agitam o povo para escolher o Jesus mundano, revolucionário, o Jesus “Che Guevara”, em lugar de Jesus Cristo que veio salvar o povo dos seus pecados.

Ora, diz-nos o evangelho, toda autoridade vem de Deus. (Quem entregou Jesus a Pilatos tem pecado maior). Autoridade, não autoritarismo. Cristo deu as chaves do reino dos céus a Pedro e constituiu apóstolos. É, pois, a hierarquia católica sim que detém condições, lançando mão de todos os meios próprios, históricos, linguísticos, espirituais, para fixar a correta interpretação do texto bíblico.

 “Não vos deixarei órfãos”, disse Jesus. Nem mesmo em questões interpretativas. A Igreja que é nossa mãe e mestra toma-nos pelas mãos e nos explica carinhosamente a palavra do Pai.

Pois bem, meus amigos. Feita essa digressão, convém recordar que na Bíblia não há palavras ociosas. Às vezes, um mesmo trecho bíblico possui infinitos sentidos lícitos possíveis, que não contrariam o ensinamento da Igreja. Sempre há sentidos espirituais muito profundos ocultos em cada uma das palavras do texto sagrado.

Se aquele pequeno trecho de São Lucas realça a dignidade do recém-nascido, também chamado depois por São Paulo de “primogênito da criação”, “o novo Adão”, há também outros sentidos possíveis de ser encontrados nele.

De fato, Jesus Cristo foi o filho primogênito de Maria. O princípio do evangelho de São Lucas já indica o que a Igreja com tanta sabedoria intuiu: que Maria é nossa mãe. No Evangelho de São João não está dito: “Mulher, eis teu filho!” e “Eis tua mãe” (Jo 19, 26-27)?

Diz São Luís Maria Grignion de Montfort, no “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”:

“Conforme a explicação de alguns Santos Padres o primeiro homem nascido em Maria é o homem-Deus, Jesus Cristo; o segundo é um homem puro, filho de Deus e de Maria por adoção. Se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasceu nela, os predestinados, que são membros deste chefe, devem também nascer nela, por uma consequência necessária. Não há mãe que dê à luz a cabeça sem os membros ou os membros sem a cabeça; seria uma monstruosidade da natureza. Do mesmo modo, na ordem da graça, a cabeça e os membros nascem da mesma mãe, e, se um membro do corpo místico de Jesus Cristo, isto é, um predestinado, nascesse de outra mãe que Maria, que produziu a cabeça, não seria um predestinado, nem membro de Jesus Cristo, e sim um monstro na ordem da graça.”

Acrescenta São Luís Maria:

“Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um pai que é Deus e uma mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por pai, e Maria por mãe; e quem não tem Maria por mãe, não tem Deus por pai.”


Por isso, meus irmãos, meditemos sempre com profunda veneração nessas palavras de São Lucas: “e ela deu à luz seu filho primogênito”. Não nos perturbemos ante a sua abundância de sentido. Nós somos os outros filhos de Maria.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Nossa Senhora do Carmo.


Por Paul Medeiros Krause

Certamente o leitor já ouviu falar das sete maravilhas do mundo, que alguém classificou como pertencentes ao “mundo antigo”. Nomearam também depois as sete maravilhas do mundo moderno. Queria eu revelar-lhe que possuo de meu lado as minhas próprias sete maravilhas. Creio que ao leitor seja igualmente permitido ter as suas. Gostaria, pois, de falar de uma dessas belezas extraordinárias, descomunais, que pelo menos a mim causa especial deslumbramento.

Em primeiro lugar, trago reminiscências da juventude e algumas ligações afetivas: minha missa de colação de grau em Direito coincidiu com o dia de Nossa Senhora do Carmo. Recordo-me também agora de que a nossa missa em ação de graças pela conclusão do segundo grau teve lugar na Igreja Nossa Senhora do Carmo, do Sion. Perto da minha casa há um mosteiro de monjas carmelitas, das quais eu sempre tive inveja – não sei se no bom ou no mau sentido –, em razão da sua heroica coragem de deixar o mundo e generosidade para com Deus. (Na verdade, parece-me que enclausurado, fora dos muros do Carmelo, encontra-se o mundo. Livres são as irmãs). Santa Teresa foi uma das leituras favoritas da minha adolescência e juventude. E ainda hoje o é.

Quando menino eu não gostava de cidades históricas. Achava-as tristonhas. Os passeios em Ouro Preto sempre me pareciam enfadonhos. Chegado, porém, à idade adulta, elas passaram a atrair-me irresistivelmente. E, nessas idas e vindas, conheci Tiradentes, já com vinte e seis anos.

Gostei tanto da cidade que passei a ir até lá várias vezes ao ano, dedicando-lhe pelo menos alguma parcela das minhas férias. Muitas vezes, a parcela única, total. E foi assim que descobri uma das maravilhas escondidas do mundo: a novena de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei (que é bem próxima a Tiradentes). É tal o esplendor da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, são tão solenes os dias de preparação e os festejos da Rainha do Monte Carmelo, tão extraordinárias as execuções barrocas da bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, que eu me arrisco a afirmar isto: a festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei, com sua novena preparatória, é uma das sete maravilhas escondidas do mundo. Não se trata de uma apoteose, de uma epifania, apenas para mim. Trata-se de um colosso maravilhosamente escondido, um tesouro encravado entre as serras de Minas.

Que há nessa novena, que há nessa festa? Beleza, tradição e devoção. É possível sentir a fé de nossos avós em sua pureza genuína, simples e profunda, cercada, adornada de grande dignidade, de uma suntuosidade real. Ali se tem a impressão de que a Rainha dos Anjos recebe homenagens mais condignas. De que a misteriosa realeza de Deus deixa-se entrever, deixa escapar algumas faíscas. Há uma pompa real na igreja, na música, nas imagens, na procissão e na própria cidade que a procissão percorre.

Após as missas às 18h30, há a magnífica novena, enriquecida pela execução de obras antigas e belíssimas por parte da orquestra, entremeada de esplêndidas pregações de aproximadamente meia hora. Costumam ser três os pregadores, que se substituem a cada três dias. Não raro um dos pregadores é um bispo. Um detalhe que a meu ver enriquece o ato é o uso do púlpito antigo, localizado no meio da Igreja, no alto.

A procissão com as belíssimas imagens barrocas de Nossa Senhora do Carmo e São Simão Stock merece uma especial menção. É tocante a parada da imagem de Nossa Senhora diante do cemitério da Ordem Terceira do Carmo, como que a significar a visita da Mãe de Deus às almas do purgatório, para trazer-lhes alívio e levá-las definitivamente ao paraíso. Na missa das três horas, no dia da Virgem do Carmo, há a imposição do escapulário para aqueles que se inscreveram previamente na Confraria do Escapulário. Vale lembrar que o uso do escapulário, mediante o necessário rito de imposição pelo sacerdote, é enriquecido com abundantes graças espirituais que testemunham o favor de Nossa Senhora pelos carmelitas.

Ainda se destaca nos dias da novena a disponibilidade de inúmeros sacerdotes para o atendimento de confissões individuais, artigo raro em dioceses devastadas pela teologia da libertação, mas abundante na bela e conservadora São João. A São João del-Rei dos sinos, referência nos artefatos litúrgicos, efervescente na música, de Dom Lucas Moreira Neves, de Nhá Chica resiste valentemente à crise de identidade católica que destroça vários lugares do Brasil.


Quero eu persuadir a tantos quantos eu possa, a tantos quantos têm sede de água viva, têm fome de Deus e do belo, que pelo menos uma vez na vida se permitam desfrutar da sétima maravilha escondida do mundo, participando da novena (ainda que por alguns dias) e da festa de Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Calvário de Bernardo e o meu.


Por Paul Medeiros Krause.

Em primeiro lugar, quero fazer saber ao leitor que me sinto indigno de dirigir-lhe a palavra. Se há alguém que não sabe do que fala, esse alguém sou eu. Este texto não é manifestação da minha sabedoria; ao contrário, o é da minha intemperança. Os insensatos gostam de falar do que não sabem. Falam mais por gosto do que por conhecimento ou competência. É este o caso. Eis a manifestação da minha intemperança ou verborragia incontida.

Contudo, ainda assim, gostaria de atrever-me a dirigir-lhe a palavra a propósito de algo sobre que penso algumas vezes: a dor, o sofrimento. A dor é um mistério. Por vezes, causa um incômodo inaudito, insuportável. Aparentemente, o sofrimento é um acontecimento ilógico, uma contradição da natureza, um paradoxo divino. Se Deus ama-nos e é onipotente, por que permite o sofrimento?

Há quem diga que a Igreja Católica gosta de incutir nas pessoas o sentimento de culpa. Há quem afirme que a Igreja de Roma vê mal em tudo e em todos e que seja vítima de terrível pessimismo. Ouso pensar de forma contrária. Se há algum excesso no catolicismo, é de otimismo.

A minha desconfiança, por vezes, é a de que a Igreja não nos conta toda a verdade. Ou, pelo menos, não insiste tanto nela. Não que ela, a Esposa de Jesus Cristo, seja desonesta conosco, longe disso. A minha sensação é a de que ela não quer esmagar-nos, desanimar-nos. Ela não revela logo ao doente toda a gravidade da sua doença. A minha suposição é a de que a realidade do pecado é muito mais grave, desesperadora e terrível do que imaginamos.

Somente quem não se conhece suficientemente e ignora a gravidade do que seja um simples pecado venial, pode achar que sofre injustamente. Só quem não conhece a própria malícia e não faz a ideia mais pálida que seja da pureza inconcebível de Deus pode chegar ao tresloucado e disparatado ato de dizer que sofre injustamente. Essas pessoas – e eu mesmo quando me queixo das minhas unhas encravadas! – são o mau ladrão do Evangelho, que, mesmo sendo bandido, queixa-se a Cristo por estar sendo crucificado. Aquele ladrão queixoso, que tanta revolta nos causa!, somos nós: todo murmurador é um mau ladrão! Ladrões, usurpadores da glória de Deus, todos somos pelo pecado. Mas podemos escolher ser o bom ladrão.

Quanto a isto estou plenamente convencido: não há quem sofra injustamente. A não ser Cristo e Nossa Senhora, todos pecamos. O pecado é uma realidade gravíssima. Causa uma desordem tal na nossa relação com Deus, na nossa relação com os outros homens, na nossa relação com nós mesmos e com a natureza que não somos capazes de imaginar. Basta dizer que é uma ofensa a um ser infinito, Deus. Ora, uma ofensa a um ser infinito, por imperativo de justiça, exige uma reparação infinita. Qualquer sofrimento que tenhamos, por maior que seja, é insuficiente para reparar as ofensas que fazemos a Deus. Respeito quem pense o contrário. Mas permita-me dizer-lhe que padece de uma cegueira brutal. Acredite: a realidade é que você sofre pouquíssimo, bem menos do que merece!

Assim, a primeira conclusão a que chego é a de que nenhum sofrimento é injusto. Que ninguém se atreva a queixar-se. Oferecendo o seu sofrimento a Deus como reparação dos seus pecados, você ainda é um devedor falido que não tem com que pagar a sua dívida. O Evangelho afirma isso.

O segundo ponto das minhas reflexões é: o sofrimento é um ato de confiança de Deus no homem. Ao permitir-nos sofrer, Deus mostra-nos que não somos feitos de açúcar. Mais do que isso. Ele revela-nos que somos meninos mimados, que, na verdade, são muito mais capazes de sofrer do que imaginam. O nosso limite, o limite do suportável, vai muito além do que pensamos ou do que gostaríamos. Mas é nesse muito além que brotam os atos de heroísmo.

O sofrimento do menino Bernardo.
O caso do menino Bernardo, pelo que se supõe, assassinado pelo pai e pela madrasta, em um primeiro momento, desconcerta-nos, aflige-nos, deixa-nos perplexos. O mistério da iniquidade, o mistério da maldade trava-nos o raciocínio. Quebra-nos as pernas. Corta-nos as asas. Prostra-nos.

Não há dúvida de que a história trágica, dilacerante, de Bernardo esmaga-nos. Deixa-nos moídos, despedaçados. Contudo, não me soa irrazoável supor que diante da grandeza do paraíso de que ele agora goza, e que é eterno, todo o seu mal na terra não passou de umas cócegas, de uma coceira.

Será que nós meditamos de fato no que alguns teólogos dizem: a menor pena no purgatório é maior do que o maior sofrimento da terra? Assim, não estará Deus, muitas vezes, trocando uma pena maior no purgatório por uma pena menor nesta terra? Será que temos bem presente o que dizia São Paulo, que o prêmio da vida futura não tem proporção, não tem parâmetro de comparação com os males da vida presente?

Não nos enganemos: todo pecado exige reparação. A Igreja ensina que quando recebemos a absolvição na confissão a nossa culpa é perdoada, mas não a nossa pena temporal no purgatório. Além disso, a esse mundo governado pelo egoísmo e pelo individualismo, é bom recordar: vivemos a comunhão dos santos. Uma alma que se eleva, eleva o mundo. Uma alma que cai, faz cair o mundo. Estamos ligados uns aos outros por uma espécie de comunhão ou linha invisível. Cristo poderia ter reparado todas as nossas penas no purgatório, a sua paixão era suficiente para isso, mas ele não concedeu essa graça de forma automática. É possível obter a reparação integral da pena temporal por meio das indulgências plenárias. Mas não são todos os que recorrem a esse tesouro espiritual depositado nas mãos da Igreja. Tudo indica que uns reparam pelos outros. Parece absolutamente certo que algumas pessoas reparam em lugar de outras. É bem possível que seja o caso de Bernardo. Se com Cristo foi assim, por que não seria conosco? Se Deus assumiu a condição humana, por que não assumiríamos em parte a paixão divina? Se Deus se solidarizou conosco, por que não nos solidarizaríamos com ele e com os outros homens?

Simão Cirineu
Como quer que seja, Simão Cirineu grita-nos alguma coisa. A paixão de Cristo é suficiente para eliminar toda a nossa culpa e toda a nossa pena. Mas Deus, nos insondáveis mistérios da sua Providência, quis que Simão Cirineu, na verdade, toda a humanidade, se lhe associasse, de alguma forma, no caminho do calvário. Deus quis que participássemos, de alguma maneira, do calvário. Notemos que o Cirineu não se ofereceu. Ele foi obrigado a carregar por alguns momentos a cruz de Cristo. Talvez aquela gota de água derramada no cálice de vinho do ofertório signifique a nossa minúscula participação no sofrimento redentor de Cristo.

Convido o leitor a fazer um pouco de discernimento dos espíritos. Observemos bem como são as obras de Deus: elas são como um banho frio. No começo, o banho frio é incômodo e difícil; no meio, acostumamo-nos a ele; no final e depois do final, dá mais prazer e mais duradouro do que um banho quente. As obras de Deus causam-nos um desconforto no instante inicial e uma paz longa e duradoura no final e após o final. Assim é a quaresma. Assim é a nossa vida, que é uma espécie de quaresma, de prelúdio da páscoa definitiva.

As obras do demônio funcionam de modo inverso: o prazer máximo, por curtíssimo instante, vem no começo; no meio da ação, já estamos enjoados; no final e após o final, sentimos um amargor perene. Por um prazer de cinco minutos, desgraçamos a nossa vida inteira. Assim é o pecado. Assim é a vida de pecados, a que se segue a insatisfação eterna, o inferno de tormentos.

Não sei se alguém já observou que o tempo pascal é superior em número de dias ao período da quaresma. E por ensinamento do próprio Santo Agostinho são desestimulados o jejum e as penitências corporais no período pascal, que é como que o dia de páscoa estendido até pentecostes.

Vendo por esse prisma, a quaresma, a exigência de mortificação, soa quase como uma brincadeira de Deus. Ele pede-nos uma privação de quarenta dias, para depois dar-nos um período de festa de cinquenta dias!...

Mas essa é a lógica de Deus. Atrevo-me a dizer que o sofrimento é uma brincadeira de Deus com os homens. Há uma tal desproporção entre o sofrimento e a recompensa, que diante desta aquele é uma cócega, apenas uma coceira.

Se observarmos bem, esse tempo quaresmal, com seus quarenta dias que são uma figura da nossa vida, da nossa penosa peregrinação rumo ao paraíso, é uma pausa restauradora. A Igreja em sua sabedoria demarcou um tempo nem exageradamente extenso, nem demasiadamente curto. Em quarenta dias é possível começar a arrancar os maus hábitos, a sair da má rotina, a puxar pela raiz os vícios, a dar ao corpo uma espécie de convalescença pelas surras que levou dos próprios pecados.

A nossa vida, por decreto divino, também não será excessivamente extensa nem excessivamente curta. A nossa vida, a nossa vida amarga, o nosso desterro de misérias, a nossa quaresma personalíssima prepara-nos para uma páscoa de bem mais de cinquenta dias.


Voltemos ao pensamento de São Paulo. Os sofrimentos dessa vida não têm comparação com a recompensa futura. Aguarda-nos o banquete pascal da eternidade. O sofrimento é uma brincadeira de Deus.