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sábado, 18 de julho de 2015

A deseducação da pátria.


Denilson Cardoso de Araújo

Disse Dilma que educação seria prioridade suprema, com ações de governo formadoras, cidadãs, éticas e republicanas: pátria educadora. É... O que a Dilma fala não se escreve. Mas não ria. Tente não chorar com o capítulo atual da crise das escolas e universidades brasileiras.

Nem direi da amalucada combinação de o MEC lançar o Plano Nacional de Educação, e depois vir a Secretaria de Assuntos Estratégicos gerar o Pátria Educadora conflitando com coisas do PNE. Muito cacique para pouca educação. Dá frio na espinha. Estou com Tania Zagury: “Só de ouvir falar em reforma na educação, sinto arrepios”.

Como fazer educação com esse recorde de professores com depressão? Com o desengajamento afetivo de mestres massacrados por exigências de desempenho irreais, classes selvagens, famílias algozes, direções incapazes, secretarias omissas e governos capatazes?

Que educação se quer, com o grau máximo de violência entre alunos e de alunos contra professores, sexo em salas de aula e tráfico de drogas nos pátios, que faz crescer o clamor por câmeras de segurança, detectores de metal e polícia dentro da escola?

Que educação faremos, com esses currículos inchados de temas transversais, modismos pedagógicos, modernidades decrépitas, projetos de escolas suíças para fazer de conta em escolas etíopes? De tão fora da realidade, o que ocorre no ensino parece realidade paralela, surrealismo sem dono.

Como educar em escolas com cara de presídio - como é o clamoroso caso da Escola Jandira Bordignon, em Quitandinha, a cuja equipe heroica mando meu abraço - e escolas com cara de barraco, pardieiros espetados em barrancos, saletas de aula, becos de aula, fazendo vezes das salas faltantes? De tão vexatórias, levam alunos a tirar o uniforme na saída, para não serem apontados na rua.

Que educação teremos, em escolas sem quadras, a educação física desperdiçada no queimado pueril, sem, por exemplo, o atletismo – esporte barato e eficaz porta de acesso social a pobres, desde a Jamaica até aos guetos norte-americanos?

Como educar se quebramos as bússolas do senso de autoridade e do respeito, ao martelo das nefastas interpretações do ECA? Professores com medo de alunos, porque crianças e adolescentes lhes chegam desses criadouros de egoístas exigentes que se tornaram as desorientadas famílias.

Que educação é possível na escola onde os problemas sociais do entorno são tão graves que a equipe escolar é estimulada a suprir tudo, dar colo à comunidade e maior amor a alunos, como se um punhado de palavras carinhosas e alguns abraços pudessem suprir as profundas carências deixadas pela falta de serviços públicos decentes?

Que educação teremos com o número de alunos aumentado só para ficar bem na foto dos índices da UNESCO? Reduzir a idade de acesso escolar, usar o Bolsa Família para incrementar a matrícula, não ajuda à escola desprovida de adequados recursos e corretas políticas, que acaba virando um depósito superlotado de gente desmotivada.

Parodiando Bordieu, educação virou causa-ônibus: todos a favor, multidão na causa aglutinadora, que vira senha para o nada e para os desmandos. O governo, que não é ético, nem republicano, nem tem prática cidadã, deseduca. Atira para todos os lados sem acertar alvo algum. Sugiro a meta primária. Resgatar a autoridade do professor e a responsabilidade da família. Sem isso, não se vai a lugar algum. A não ser ao bueiro do meio milhão de notas zero no ENEM.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cinquenta mil tons de cinza.


Por Denilson Cardoso de Araújo

O Ministério da Saúde revelou preocupação com o aumento dos índices de propagação do vírus HIV. Drama específico, o incremento da AIDS entre adolescentes. Anunciam políticas de prevenção e campanhas pró uso da camisinha. Filme visto, de péssimo final. Quem quer, de verdade, resolver problemas, não trata consequências somente. Conter febre alivia o paciente, mas não o cura, se a raiz da infecção não for atacada.

No Projeto Escola da Paz saí para sacudir plateias pelos ombros, alertando para o suicídio coletivo, e por nossa inércia assistido, da atual geração. No qual o sexo é força motriz. Em comunidade carente, certa vez, abordou-me a diretora de CRAS, que revelou. O problema não é mais a gravidez adolescente. É a gravidez infantil! Cássia Godoy, da PUC-GO atribui o aumento de casos de AIDS ao fato de que “crianças e adolescentes tem começado vida sexual ativa cada vez mais cedo”. Crianças!

Ontem, minhas quase 400 palestras em escolas serranas incomodaram muita gente. Ah, ele pega pesado. Hoje, de vez em quando recebo mensagem de pais arrependidos do desdém a conselhos que lhes pareciam vulcânicos em demasia. Estão com problemas. Mas há também pais e professores gratos. Porque readequaram modos de agir e pensar, resgataram filhos e alunos.

É que no incremento da gravidez infantil e dos casos de AIDS entre menores, há a licenciosidade de uns e a omissão de todos. Progressistas de fachada gostam de citar Freud e Kinsey para dizer do direito de a criança “expressar” sexualidade. Discurso nefasto. Esquecem que sexo precoce é sempre salto em precipício emocional e hormonal. A libido é coisa feroz que, na incapacidade de senso crítico da criança, a escraviza. Crime que incentivamos até no bizarro.

Bombeiros de Londres expressaram em nota preocupação na estreia do filme “Cinquenta Tons de Cinza”, que propaga o sadomasoquismo como molde de sexualidade desejável, revelando: "Em 2013/14, atendemos 472 incidentes com pessoas presas e enroscadas, com acessórios domésticos usados no dia a dia. Isso tem aumentando constantemente, ano após ano, desde o lançamento dos livros de 'Cinquenta tons de cinza'”. Sabendo que adolescentes leem tal livro, lembro casos de atos infracionais análogos a estupro em que meninos reproduziam situações pornográficas que viram em vídeos. Filmes e livros induzem imitação, fato conhecido desde “Werther”, de Goethe, que impeliu suicídios na Europa do Século XVIII. A reprodução televisiva da execução de Saddam Husseim, em 2006, estimulou mundo afora surto de suicídios de crianças por enforcamento, inclusive no Brasil. Na semana passada, um estudante de Chicago praticou tortura sexual contra a parceira. Preso, alegou que “só” reproduzia cenas de “Cinquenta tons”. E autoridades sanitárias e policiais brasileiras andam às voltas com a descoberta de um tal “Clube do Carimbo” que, pela internet, estimula homossexuais soropositivos a orgias criminosas, só para transmitir o HIV.


A preocupação não é só a gravidez na adolescência,
mas agora a gravidez infantil.
Qual campanha de prevenção precisamos, frente à calamidade sistêmica, profunda e continuada, nascida da nossa omissão frente ao abismo? Perdoem-me, ouvidos delicados. Campanhas para usar camisinha são tapagem de sol com peneira. Atacam a febre. Basta de omissão e infâmia contra a infância! Basta de tolerância com os venenos do funk pornográfico, da internet de abuso, do Big Brother maléfico, e dos cinquenta mil tons de cinzentas formas de reduzir crianças a cinzas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nem Charlie, nem Al Qaeda.


Por Denilson Cardoso de Araújo

Em 1998, vendo no que ia dar, me afastei do PT. Interessa aqui a minha frase de então. Não quero ser refém do Lula. Não sou. Ao contrário de tantos que seguem reféns, defendendo o indefensável, quando escrevo sobre a derrocada do sonho, é tranquilo que o faço. Ser refém é ruim. Conheço famílias reféns. De filhos pródigos, porque não agiram a tempo de evitar o desabamento no vício e na ilicitude. E reféns de abusadores de liberdades, pois permitiram o intolerável. Doutrinador da tolerância, Stuart Mill ensinou que só deve ser permitida publicamente a prática daquilo que pode ser incentivado a todos. Pode ser estimulado o abuso?

Pode um ocidental, frente à principal mesquita de um país islâmico, onde a mera reprodução pictórica de Maomé é vedada, fazer chacota com o fundador do Islã? E, na piada, exibir o profeta em cartum da Charlie Hebdo: nu, de quatro e com uma estrela no ânus sob jocosa inscrição “Nasce uma estrela”? A livre expressão pode tudo? Não.

Empresário em missão estrangeira sabe. Calará sobre costumes estranhos, sob pena de fracasso dos negócios. Missionários e antropólogos, em respeito aos valores dos povos que vão converter e estudar, nem sempre dirão o que pensam. Embaixadores, acatando a diversidade dos países em que atuam, deverão engolir sapos. Até o turista deverá silêncio quando discordar de tradições dos países que visita.

A globalização fez do planeta grande praça à frente de toda igreja, casa e mesquita. Discursos e caricaturas são conhecidos ao toque do instante. O que exige maior cuidado. Da imigração, países europeus são, hoje, também muçulmanos. A leviandade de se permitir agressões a símbolos cristãos, não obriga a que todo mundo leve na boa o achincalhe da fé que cultivam. Claro que não se pode justificar estuprador porque a moça usava short cavado. Mas prudente será que, em surtos de estupro, moças de shorts cavados evitem certos lugares. Cautela do bom senso.

Muitos, que não observam cautelas, são hoje reféns da frase oportunista: Je suis Charlie. Feita para condenar o terror, dá apoio à revista. Estou fora. Não sou Al Qaeda, não sou Charlie. Nem acho lícito que o esforço de todos sustente o abuso de alguns. Garantir, à custa do Erário, que sigam desenhando Deus Pai, Cristo e o Espírito Santo se sodomizando, em vilipendiosa brincadeira, me parece contrassenso. Custear policiais como guarda pessoal de tal minoria boêmia pode roubar dos miseráveis sem champanhe e sem direitos de expressão, mais dos serviços, saúde e educação que lhes faltam.

Em nome da livre manifestação, na passagem do Papa no Rio, militantes gays e abortistas reproduziram masturbação com o crucifixo. Que, vale lembrar, um dia foi cena da menina possuída pelo demônio, no filme O Exorcista. Algo não vai bem quando esse abuso ocorre onde já se estabeleceu que o direito de livre expressão não é absoluto. O Brasil proíbe a propaganda nazista e a divulgação de certos discursos a plateias infantis, impondo classificação etária de produtos culturais. O chute na santa é vedado porque o que para uns é só estátua pode ser o sagrado de outro. Para muitos, o crucifixo é símbolo sagrado.

A França está ficando tão refém do seu discurso de liberdade de expressão radical, quanto os Estados Unidos, de seu discurso de liberdade de portar armas. Quando massacres acontecem nas escolas de um e nas redações de outro, parece uma ingenuidade não revisar tais conceitos.


A liberdade de expressão é boa herança, mas seu abuso, absolutamente, não. O Charlie Hebdo opera uma pedagogia do escândalo e do bullying. Que não seja modelo. Quem conhece a guerra do dia a dia em nossas escolas sabe do que estou falando.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Canção pré-natal.


Por Denilson Cardoso de Araújo

Para você que perdeu alguém, o Natal vai doer. Eu sei. Você vai titubear frente à árvore. Incomodar-se com as calçadas entulhadas gritando abomináveis gravações natalinas, gente na febre das compras, engarrafamentos insanos, crianças hipnotizadas e a voz oscilante, ao fundo, dizendo compre tudo, compre ainda e compre mais. Você se movendo, lesma gélida num tronco, viscosa, arrastando cansaços de séculos.

Eu sei. Já fiquei invisível no Natal. Como encarar o campeonato de sorrisos, o amigo oculto, o culto, a cantata, a cantada? Como sobreviver em tempo dourado, com crateras lunares no coração? Alguém te foi arrancado. Por isso a ceia sem gosto, o cheiro de lágrima. A oca alegria à volta, essa espécie de afronta. Ou você vai e se torna iceberg encalhando a noite famosa, ou emigra dentro de si, canto da casa, apertamento de garganta, a ocultar sentimentos molhados que moerão os dezembros de todos os calendários. Como enfrentar, com tal incompletude, a estação anual de encontros?

Escuta. A pior ofensa ao ausente é dele ter só a dor. Isso dá estagnação, água de larva. Alguém precioso assim para você merece melhor invólucro. A memória de quem tivemos ao lado ou em colo, partilhando ombro, comemorando abraços de leme, cravejando no olho o sorriso de lume, essa memória tem mil quilates. Ouro de coroa, merece veludo vermelho, não estopa rasgada.

Eu sei. Terapia da recomposição do ser. Rejeite o irritante Natal de comprismo militante, felicidade crepom, Papai Noel que agrada crianças para expulsar o Menino. Tira de você esse joio, depressão natural de um tempo corrompido. Ponha no centro do drama que te veste o trigo que importa. A manjedoura. O Menino. Que, disse Isaías, nos guiará. Berço pobre, cocho de gado comer. José deu lá tratos de água e vassoura, buscou palha nova, mas ainda é estábulo e cocho, este palácio. Lamentos não há, no abrigo escasso. Sim alegria de glórias, sim cantos, anjos, pastores, reis magos, bezerros curiosos. Tal grandeza não tinha acatado até ver a vaca com a cabeça na janela num culto em pequena igreja mineira. Galáxias de ouro à disposição, e Deus nasce entre bezerros!

Traga a dor e ponha aqui, com o ouro. A saudade, ajeite no incenso. Cuidado com esse vazio, que é tão cristal. Vai bem com a mirra. Olhe em volta. Tantos, que aqui chegam, a cada Natal, evadidos de festas, ultrajados de dores, desabrigados de amores. Aqui estão, humilde comunidade. Os que nada têm. Perderam coisas, casas, tudo. Enterraram amados filhos, amorosas mães, irmãs queridas.

Beira de manjedoura. Lugar de fazer reviver quem se foi. Puxe da memória preciosa, a piada melhor sobre a pessoa amada, os lindos casos, um sorriso, e a lágrima, duas, muitas. Santa combinação, a lágrima que purifica o sorriso que ilumina. Metamorfose da dor de chumbo em alegria dourada aqui permitida. Diga. Senhor, aqui estou, nada tenho. Ele te dará tudo. Esse Menino, que vai ser morto. Antes de vir, Ele sabia. Agora, bebê, não sabe. Terá que aprender. Dura descoberta. Mas pela Graça, Ele vai até o fim, porque você vale a pena.


Manjedoura, cruz, ressurreição - a mensagem do Natal é essa inteireza. Por isso caminho. Por isso homenageio os mortos e curo minhas perdas usando a luz que me deixaram, para lembrar: há vivos que precisam de mim. Assim me segredou o Menino. Por isso caminho. Caminhe. Coragem! Vá preparar o Natal. Escolha boa toalha. Há tempo. Quem se foi, assim gostaria. Gostará.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Balanço de um recado alto e nítido.


Por Denilson Cardoso de Araújo

Saúdo a vocês, de ambos os lados, que conseguiram emergir desta eleição – especialmente do segundo turno - sem se emporcalhar. Porque difícil foi, ficar imune à abjeta artilharia inaugurada pela campanha oficial e depois respondida, em monta menor, mas também de grosso calibre, pela campanha da oposição. Se você conseguiu não compartilhar, de viva voz ou pela internet, o ataque, a fofoca, a insanidade e as mentiras; se conseguiu tolerar e compreender o amigo que estava em febre eleitoral; se conseguiu se conter quando jovens fazendo um digamos, ébrio maio de 1968, cuspiram sobre você impropérios, seja de comunista barato ou de neoliberal nojento, você é um vitorioso.

A você, que perdeu a eleição, mas que perdeu por tão pouco, trago um recado. Não desanime. Os sensatos que olharam o mapa de resultados não desanimaram. Após o jogo sujo e pesado que a candidatura oficial aplicou nos primeiros 10 dias da campanha do 2º turno - bisando o que fizera no 1º turno contra Marina - foi uma vitória moral Aécio chegar em situação de empate. Um parêntese para quem quer, indevidamente, igualar o jogo sujo no placar. Futebol. Numa disputa de bola, incomodado com a marcação cerrada, mas leal, um atacante uruguaio mete um soco na cara do zagueiro, que cai, surpreso e de nariz quebrado. O agredido se levanta e empurra o agressor com as duas mãos no peito. Faz-se a confusão, tomo mundo se mete, vem a turma do deixa disso, o juiz aparece e resolve. Os dois pro chuveiro. Na justiça desportiva, não sei, mas se o caso fosse a julgamento na justiça comum, com as câmeras demonstrando o agravo inicial, haveria punições a ambos, é óbvio, mas o boxeador improvisado não teria o benefício da atenuante que favoreceria o zagueiro, que apenas revidou e, em intensidade menor. Assim se deu esta história. E ponto.

O recado foi alto e nítido. Para quem, como o PT, que se acostumou a ganhar eleições presidenciais por 15 a 20 milhões de votos, vencê-las por apenas 3 milhões de sufrágios é recado retumbante. O país está, sim, dividido. Existe uma inescapável exaustão com as práticas petistas que não mais poderá ser desconsiderada. O PT perdeu certa carta branca, de que se valia abusadamente.

Lula sai muito chamuscado deste pleito, pois para alcançar a vitória de Dilma, teve que, pessoalmente, descer o nível como nunca antes fizera, assumindo - em boca própria - tanto insultos pessoais como o jogo rasteiro. É claro que isso o indispõe com parcela ainda maior do eleitorado que podia não votar em Dilma, mas guardava reservas de admiração pela biografia do líder petista.

Mas também a você, que ganhou por tão pouco, e essa vitória tão cara, preciso dizer. Seja comedido na comemoração. Hoje presenciei provocações clubísticas, como se estivéssemos num dia seguinte à final do campeonato. Menos. Os prudentes não ficaram eufóricos. Veja porque.

Como óbitos precoces e súbitos que, bestificando os vivos, por vezes, beatificam vidas tortas, vitórias costumam enterrar as sujeiras da campanha debaixo dos tapetes da celebração. Mas os gols de Dilma, ao final, foram de mão, em impedimento, e com falta no goleiro. É uma vitória feia. Até hoje, 25 anos depois, lembramos de como Collor de Mello foi inescrupuloso em sua vitória de 1989. Não tenham dúvidas de que a inescrupulosa postura ditada pelo marqueteiro da campanha de Dilma - mas acatada pela direção partidária - atravessará décadas na memória dos eleitores. Não por acaso, petistas de bom calibre, como Arlindo Chinaglia em entrevista na TV Bandeirantes, deixaram claro que discordaram desse violento tom da campanha. Tendo presidido a Câmara, Chinaglia sabe como a memória negativa da campanha dificulta as negociações, por contaminar as relações partidárias e a percepção popular sobre qualquer ato governamental daqui para a frente. Assim foi com Collor, assim com Dilma será. E isso é mais grave na medida em que a vitória lhe concede, não outros quatro anos de mandato, mas sim uma maratona de obstáculos dentro de um pesado espólio que é o cipoal de equívocos, malfeitos e contradições de difícil administração acumulados.

Sem falar do desenrolar dos escândalos que, a experiência ensina, farão muito militante aguerrido se arrepender de certas veemências, fiquemos, por exemplo, com a economia. Se estabilização econômica não houvesse, inexistiria Bolsa Família. Não é imaginável Bolsa Família em tempos de inflação de 900%. Porque, para que tivesse valor, o programa precisaria de reajustes frequentes. E, por mais que nos desconforte afirmar, a indexação, ficou provado, alimenta a inflação. Assim, tendo que controlar a inflação e manter os programas sociais, ainda tendo que fazê-lo sem indexação, não é de resolução fácil a equação que cai estrondosamente sobre as pranchetas do governo que segue em palácio.

Não podemos nos esquecer que o PT, quando venceu a primeira vez, após assinar a Carta aos Brasileiros, foi governar com o projeto econômico do PSDB. Henrique Meirelles, seu presidente de Banco Central lá foi colhido. Por isso, inclusive, quem reclama da oposição meio frouxa que o PSDB teria feito em todos esses anos, se esquece de que era difícil mesmo fazer oposição a um governo que rasgara seu próprio programa para governar com as propostas alheias. Como fazer oposição a si mesmo? Só faltavam trocar beijos os economistas do PSDB e o Ministro Palocci.

Essa situação só muda quando o PT extrapola, em campo muito caro ao seu eleitorado histórico. O campo da moralidade pública, da ética na política, em que o PT fora campeão, em campanhas históricas que impactaram o país. Flagrado no ilícito, acabou cometendo mais ilícitos e insanidades para tentar justificar o injustificável. É bíblico. Um abismo chama outro abismo. E então, os erros se sucederam, e a oposição se fez. O próprio PSDB, com seu histórico pouco recomendável, engrossou a voz. E daí desceu-se àquele nível de discurso em que a assertiva, implícita e absurda, era: “nossos bandidos são melhores do que os de vocês”. Porque são de esquerda, afinal.

Disse no primeiro  turno que uma derrota faria muito bem à esquerda, para que se purgasse da arrogância e dos excessos, para que se livrasse dessa triste opção de achar que o banditismo de esquerda é perdoável porque é Robin-hood. Não é. Nem perdoável, nem Robin-hood. O modelo atual tira de quem tem algo (a classe média) para dar a pobres sim, mas também, e muito, a ricos. Afinal, a dívida externa foi integralmente paga - sem a necessária auditoria prometida por décadas; as privatizações tão acusadas de ilegais e imorais não foram revistas como prometido; os bancos seguem bem satisfeitos com os seus vastos lucros e o latifúndio permanece intocado, sob a conivência do MST. O discurso de esquerda foi reduzido - à margem a ressalva que sempre faço ao essencial Prouni – a um programa assistencial. A derrota poderia recolocar as coisas na perspectiva correta, mas como veio uma vitória tão apertada, com gosto de derrota moral, que não sejam desperdiçadas suas lições.


À parte os “episódios” Minas Gerais e Rio de Janeiro, o Nordeste foi decisivo. E é compreensível. Quem mais depende de favores governamentais, mais refém se torna. O Bolsa Família gritou alto. Ficou desenhado o mesmo arco de votos que, saindo do trópico para se escarrapachar na linha do Equador, alimentava as eleições da Arena da Ditadura. Vi ontem na Internet uma frase pesada, mas que ilustra bem tudo o que vem acontecendo. Diz Orson Scott Card, escritor de ficção científica americano: “Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado”.

A frase é forte porque, divulgada neste momento, pode fazer os mal intencionados e os obtusos imaginarem que se compara o eleitorado de Dilma a porcos. Não é isso. Se preferir, substitua porcos por suaves lebres, doces dálmatas ou diáfanas andorinhas. A figura central dessa construção verbal é o concreto e dominante “homem do balde”. O PT, hoje, para grande parte do seu eleitorado, é “o homem do balde”.

A derradeira coisa a comentar é que é uma grande pena que os maus modos dessa campanha tenham acontecido. Porque essa eleição na qual eu sequer pretendia votar (vide minha crônica de julho “Entra aí, qualquer um!”) acabou, com a morte de Eduardo Campos e a entrada de Marina no jogo, ganhando a dramaticidade que me pôs (e a tantos) de voto engatilhado. Isso o Brasil deve a Marina. A expectativa de sua possível vitória, que pôs o PT em desespero e, infelizmente, no rumo da calúnia e da agressão, deram o tempero capaz de trazer de volta alguma juventude às ruas, pelos dois lados. Rejuvenesceram-se ambos os lados. O engraçado nisso tudo é que nem sempre os jovens vieram pelos motivos corretos. Muitos se engajaram porque achavam ser esquerda o PT e outros achavam ser, o Aécio, um coroamento do carnaval cívico e confuso de junho 2013 que tinha uma “Mudança” imprecisa como enredo. Não é verdade, nem uma coisa nem outra. Ou, quando menos, são um décimo da verdade, porque nem o PT é toda essa esquerda pretendida (não fosse assim, correntes internas não estariam clamando, desde junho passado, para que o PT vire à esquerda, para trilhos que abandonou) e nem Aécio seria mudança assim tão profunda.

Mas que bom seria que os jovens abandonassem o clima rasteiro do discurso twitter para aprenderem a arte do encontro e do debate que formam consciência efetiva. Chavão não é discurso, e palavra de ordem não é fundamento. Muita gente foi às ruas, pobre de armas. Quando se tentava entabular um diálogo, vinham coisas como. Votei no Tarcisio porque ele foi bem no debate; no Eduardo Jorge, que chutava o balde; na Luciana Genro que é mais combativa; no PT, que pelo menos dá comida os pobres; não votei em ninguém porque todo mundo é ladrão.

Dizer, como disse a Dilma, e como tantos repetiram, que o mensalão do PSDB mineiro não fez um preso, para assim se defender do Mensalão petista que pôs gente na cadeia é, por exemplo, um dos “argumentos” mais expostos e mais pobres, porque não significa absolutamente nada. O que quis a Dilma dizer com o discurso do “todos soltos”? Que foi ela quem prendeu Zé Dirceu? O que quis dizer quando “argumenta” não haver presos no mensalão de Minas? Que cabia ao PSDB garrotear seus meliantes? Ora, quem investiga, julga e prende não são os partidos, nem é a Dilma ou o Aécio. A Polícia está aí, o Ministério Público, o Judiciário. Quando se “argumenta” mensalão contra mensalão, para usar a liberdade de uns (ainda não julgados) contra a condenação de outros (já julgados e presos), está se querendo insinuar que existe o quê? Um complô institucional pró PSDB, e do qual participam todos os policiais envolvidos, os promotores e os juízes. Ora, convenhamos!


Bom, acho que é hora de buscarmos a paz, a concórdia, a paciência. Porque tempos duros virão. Crises esperam. Os que tiveram nessa eleição sua primeira luta, por favor, repensem certos métodos, e poupem energias. Novas lutas virão. Aprendam que política não é guerra de extermínio. A desqualificação do outro, a humilhação do adversário, seu aniquilamento, não interessam ao bom combatente. Na Arte da Guerra, Sun Tzu ensinava a deixar sempre na composição do cerco, uma bem calculada rota de fuga para o inimigo. Porque a generosidade é estratégica. Nunca se sabe quando você pode precisar do adversário de hoje. Mas uma coisa eu sei. Você vai precisar daquela namorada com quem discutiu por causa da eleição. Daquele amigo. Do pai. Do irmão. Do colega de trabalho. Vá lá. Faça as pazes. Respeite. Abrace.

sábado, 25 de outubro de 2014

O Mundo não começou com Lula.


Por Denilson Cardoso de Araújo

O mundo não se divide entre os completamente santos e os totalmente perversos. A vida não é simples assim. Conheço gente virtuosa, mas com vícios. E vi canalhas com arroubos de bondade. Então, não me insultem a inteligência dizendo que Dilma é classe operária indo ao paraíso, a Marina purgatório e o Aécio, o inferno.

Não desertando de ideais, trago pés na realidade. Portanto, sei. Bom ficou à biografia deste país de elites machistas, caberem na cadeira importante, tanto o retirante com dedo comido na máquina quanto a mulher governante. Mas descasque estes simbolismos úteis, até necessários. Ressalvada a política de cotas nas universidades, esta sim, de caráter libertário, o conteúdo de seus governos deixa déficits ideológicos e morais inéditos, vindos de quem tinha compromissos opostos.

O mundo não começou com Lula. Século de sacrifícios de militantes pagaram em sofrimento e sangue o alto preço da oportunidade dada ao PT. Por isso dói o desperdício em compromissos abandonados na subserviência a banqueiros, manutenção do status quo econômico, exacerbação do clientelismo e práticas corruptas que condenava. O PT não fez jus a tantos que puseram sangue no tom do vermelho que antes enchia a estrela hoje desbotada. Dói ver petistas presos envergonhando o gesto militante de erguer o punho que simboliza luta. O vergonhoso discurso implícito é coisa tipo “nossos criminosos são melhores que os deles”.

Assim, o dilema do eleitor de Marina parece dispensável drama para quem admirou a miserável que senadora se tornou, moribunda que renasceu militante aguerrida, Osmarina-ninguém que personalidade mundial se tornou. Pois tal voto nasceu também do cansaço com o petismo tornado organização de militantes reféns da direção que os quer cúmplices, e que sequestra representações sindicais e sociais para esterilizá-las, tirando voz da sociedade insatisfeita.

A opção deste eleitor parece penosa, mas simples. Renovar “o inferno” de suas frustrações ou votar pela alternativa, mesmo sendo ela, a alguns, uma “cruz”. Além de ser verdade relativa atribuir direitismos a Aécio, quem disse que o PT governou à esquerda? Ah, tem o Bolsa-Família, que alimenta desfavorecidos. Mas os fideliza e compromete com um tantas vezes injustificado senso de “eu mereço” e, pela inércia na busca de ocupação, falseia estatísticas de desemprego. Populismos servem à esquerda e à direita. Estão aí fartos votos dos mesmos “grotões” que um dia garantiram eleições à ARENA da ditadura. Hoje podem dar a Dilma outro mandato.

Patrulheiros ideológicos acenderão fogueiras da Inquisição com esta crônica, mas é fato: o PSDB não é o PMDB. Trágico reconhecimento: sem esse acessório permanente do poder não se governa este país. Aluga-se a casa e o PMDB vem junto. Necessário conviver com ele. Então, se o PT anda a braços dados com Sarney, Renan e Collor; se o PSDB fez o mesmo, qual o diferencial? Marina é um deles. Outro, a indispensável alternância. Até para que o que restou da esquerda sequestrada se recomponha, se purgue e, quem sabe, dando vez aos lúcidos e honestos (que os há!) um dia retorne em condições mais fraternas, éticas e menos arrogantes. O mundo não começou com Lula. O mundo não acaba sem ele.


Se o PSDB não tinha legitimidade para resolver graves dificuldades do país, o PT, que um dia a teve, desperdiçou-a sem o fazer. Tempos penosos virão. Não estamos escolhendo revolução ou retrocesso. Apenas capitão apto a tirar o barco do labirinto de naufrágios em que nos meteram.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Abismos


Por Denilson Cardoso de Araújo

Gente que gosta de abismos. Mergulhadores, alpinistas, surfistas de ondas gigantes, equilibristas, aves, astronautas. Seres assim possuem certa asa moral que lhes dá suporte à existência arriscosa. No Cirque de Soleil, seja na lona rota da roça mineira, sempre me encantaram: trapezistas. Há rede, mas sempre a ameaça do despencamento e respiração presa no salto mortal. Corpo chicote no ar, desafiada a gravidade com a curva abusada.

Quando meninos, ou quando meninos-avós acompanhando netos, gastamo-nos na incumbência da montanha-russa. Ela nos põe em riste, olhos postos na flecha-declive que vai afundar nossos corpos no chão. Não. A ondulação dos ferros nos levita, súbitos de alívios, químicas do organismo em nossos cérebros, cestos de euforias assim fabricadas.

Você sabe. A ascensão até ao cume que nos imolará no precipício é lenta. Nos distraímos olhando a paisagem, crianças gritam, inocentes do que virá. Adultos já tensos, pois sabem. Abismo virá. Prazeres ancestrais e estranhos, esses. Flertar com o acidente, desejar controlado desastre, domar leis da natureza com truques da musculatura adestrada ou de algum maquinário que a tecnologia nos deu. Brincar com abismos pede consciência de risco, planos de fuga, aprendizados de queda, cautelas da saúde.

Nem todo mundo assim faz. Já vi trapezistas improvisados, apavorantes porque não acertam uma só acrobacia, artistas da miséria deitando em vidro quebrado e saindo rasgados, o quase mendigo desdentado incendiado na tentativa de engolir fogo. Pavoroso ver o que brinca com o abismo sem o preparo adequado. O abismo virá.

Na vida, igualmente. Ruim ver os que seguem, imprudentes, assobiantes cigarras em beira de vulcão. Desdenham formigas trabalhadeiras, despejam problemas nos armários, esqueletos que se multiplicam, infestações de cálcio doente. Varrem dramas para debaixo dos tapetes. Descuidam feridas com improvisos de gaze. Não regam cultivos essenciais à existência: família, amigos, a calma da mente, coração de paz, primaveras da alma. Gente assim nos transtorna. Amanhã, pedintes serão. Exigirão de famílias que não cultivaram, milagre do afeto que não fizeram. Gritarão ao mundo suas misérias autoproduzidas, clamando justiça. Que piedade aconteça, mas que se lhes ensine a antes cobrar de si mesmos.

Esqueletos acumulados no armário são abismo, porque monturo de ossos vira avalanche. Tapetes de problemas desvelam apocalipses. Arranhões, cânceres. Famílias-desgraça, amigos desertados, a mente incêndio de labirintos de neurônios cansados, o coração almofada de punhais da tortura, a alma em vazio sem fim. Abismos.

A mentira é abismo. Que não nos domine. Pois é ciumenta mãe de muitos abismos. Começa branca, e mastiga o ser lentamente, enquanto enegrece a cada degrau que o obriga descer até a metamorfose sem volta dos que abandonaram as límpidas asas que movem as altitudes e se tornam rastejantes comedores de lama.

Tenho visto muita lágrima nascida da imprudência de bêbados que resolveram andar em corda bamba. Adolescentes que brincam de adultos. Adultos que se fazem crianças. Gente que se antecipa ou adia, sem respeitar os ciclos da vida. Pais coleguinhas. Mães egoístas. Filhos ingratos. Casais formados no desejo somente. Abismos.


Você sabe qual é seu abismo. Você não é trapezista. Não brinque com isso. Porque no Salmo aos filhos de Coré, avisou o poeta bíblico, de maneira precisa: “Um abismo chama outro abismo” (40:7).

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O filho na boca do tigre.


Por Denílson Cardoso de Araújo

Lidar com crianças e adolescentes exige precaução. Não esperar o mal, mas antecipar-se à sua mera ameaça. Isso dá vigília, alma alerta, olheira em plantão. Vale a pena. Pois a dor do descuido é sempre cruel. Bem o sabe o pai do zoológico de Cascavel que incorreu nessa falta de precaução.

Aos 11 anos, seu filho já devia ser consciente de limites que, claramente, desconhecia. Derramou-se em insana brincadeira à volta do tigre. Uma hora, fera que é, o felino Hu reacendeu os instintos de selva, onde a lei dita que meninos provocando presas de tigre dilacerados serão.

Consta que o pai primeiro incentivou a brincadeira suicida! Quando viu o braço do filho na boca do tigre, atirou-se na área reservada, para socorrer o atacado. Hoje, aos prantos, o pai se desculpa com o mundo. E lembra que o filho, já sem braço, ainda teve fôlego de revelar o bom coração (apto, portanto, a acolher educação e limites), dizendo: não matem o tigre.


Após a instigação irresponsável, o pai teria convocado o filho. Que não obedeceu. Filho tem que obedecer a pai e mãe! É da necessidade de sobrevivência e desenvolvimento de crianças e adolescentes, é do bom senso, e – acima de tudo, por mais que digam o contrário – é da lei! Código Civil: pais devem exigir de suas proles respeito, obediência e serviços. Exigir.

No caso, temos um filho de pais separados. Problema dos tempos, o caso comprova. Pais separados tendem a afrouxar disciplinas. Certa culpa se instala, e não quer o pai, que não detém a guarda, gastar fim de semana a ser antipático disciplinador. Um erro caro. Ao mesmo tempo, a mãe guardiã, a quem sobra o encargo disciplinar, além de padecer tolerâncias hormonais femininas que retardam o pronto castigo, também não quer ser a vilã nessa história em que o pai visitante é sempre o divertido parque de diversões. Ou permissivo zoológico.

Exigir obediência, respeito e serviços significa determinar. De modo claro e audível. Fazer lei familiar. E lei só tem eficácia, assim sabe o acadêmico de direito, se sanção existir. Sanção é castigo. Pedagogia da consequência, hoje tão esquecida. Quando aquele pai mandou frouxamente o filho sair da frente da jaula da fera e não foi atendido, devia ter arrancado o menino de lá, se necessário arrastando-o pela orelha. Na situação de extremo perigo, não há diálogo possível. Primeiro, a disciplina e o socorro, depois, a conversa. Ele podia espernear, reclamar, gritar, dar-se uma cena. E daí? Ah, não quero cair em “bocas de Matilde”, como pai ditador. Então. Para evitar maledicentes, prefere o filho na boca do tigre?

Ser pai ou mãe produz indescritível prazer afetivo. Mas implica responsabilidades graves e irrenunciáveis. Preços altos, que precisam ser pagos. Inclusive o da incompreensão social aqui e ali, até o da inimizade do filho que recebe disciplina necessária.

Tem pai e mãe nesta cidade que, se não está empurrando a prole para a jaula da fera, passivamente assiste ao filho brincar com a cabeça dentro da boca do tigre. Presenteiam meninos com games proibidos, permitem filhas de comportamento cachorra, autorizam álcool a meninos curiosos, consentem sexo precoce, dão vista grossa ao pífio rendimento escolar, e deixam filhos se desperdiçarem na maconha pública dos gramados desolados de autoridade.


Levante-se. Vá arrancar seu filho da boca do tigre. Em alguns casos, talvez tenha que arrastá-lo pela orelha. Faça. E dialogue. Mas faça.

domingo, 15 de junho de 2014

Casamento Líquido.


Por Denilson Cardoso de Araújo

Boa intenção havia. Resgatar da marginalidade social famílias de fato. Vieram a Lei do Divórcio, a união estável e a descriminalização do adultério. Mas o pano de fundo foi a ascensão neoliberal. E onde o mercado é rei, coisas, leis, pessoas e famílias são insumos do sistema. A meta não é melhorar a sociedade, mas o lucro de alguns. O prazer individual, base do capitalismo, virou incenso no culto fanático ao materialismo imediatista. A paixão, esse sentimento juvenil, pisou o pescoço do amor sacrificial. Morreu a capacidade de renúncia e solidariedade que permite casamentos sólidos. Vieram os casamentos de embriaguez, sustentados no fio de cabelo da libido, destruídos no solavanco do primeiro quebra-molas da estrada.

Assim, acresço à lista de Zygmunt Bauman sobre os dias atuais (Tempos Líquidos, Vida Líquida, Amor Líquido, Mundo Líquido), o “casamento líquido”. Mal dos tempos, matriz de desgraças. Se casamento viabiliza a família, e esta é base da sociedade, impossível é sociedade decente com famílias erguidas sobre casamentos de areia.

Daí que família hoje - e casamento, portanto - é discurso de segurança pública! A esmagadora maioria dos autores de crimes vem de famílias sem pai. A violência escolar, antessala do ato infracional, nasce da falta de autoridade ou inexistência de família. Tudo agravado na avalanche de novas famílias desfuncionais oriundas de gravidezes precoces, decorrentes do sexo irresponsável estimulado pela mídia, com conivência e patrocínio governamental.

Urge quebrar este perverso círculo vicioso. Tanto tema transversal enlouquecendo as escolas, para que crianças aprendam ecologia, trânsito, gestão financeira, sexualidade... Prioridade é ensinar o valor da família, de casamentos sérios, que abdicam imediatos prazeres em prol da felicidade de ver filhos vitoriosos vindos de lares estáveis.

Delícias do relacionamento amoroso, do terno convívio, da intimidade saudável, da cumplicidade de vida e projetos que permitem o casamento, jamais descartam a capacidade de renúncia e a predisposição a cotas de sacrifício como pedras de fundação de um casamento sólido. Paixão como alicerce torna pífias as bodas: líquidas. Sentimento exigente, autocentrado, não permite equilíbrios. Açúcar que é, paixão não gosta de se molhar. E vida é tempestades.

Devia ser prioridade governamental. Países há já gastando dinheiro para auxiliar a estabilidade dos casamentos. O Japão estimula pais em casa, ao lado das mães. Outros cogitam pagar para que mães se mantenham com os filhos na primeira infância. Medidas mais baratas que bolsas família e despesas públicas com mazelas da drogadição, da criminalidade e da juventude sem rumos. Casamento sólido é medida de economia familiar e estatal. Sendo sustentáculo da família, é garantia de autoridade parental e, portanto, de filhos capazes de cidadania.


Mas para isso é necessário governos com vergonha na cara, que afrontem a mídia criminosa, que faz regra no desvio ou exceção (adultério, relações triangulares, bissexualidade, sexo precoce, homossexualidade). E - à parte enlaces ruinosos e doentios que devem mesmo acabar - é preciso casais dispostos a não abortar a relação; a enfrentar intempéries de ocasião com as mesmas mãos dadas que terçaram ternos dedos nos inícios de caminhadas ao sol da paixão. Aos que assim persistirem, após as escarpas das lutas, as lagoas douradas da vida que não se viveu em vão. Valeu a pena, meu velho, dirão.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Alô? Aqui é a Xuxa


Por Denilson Cardoso de Araújo

A Lei da Palmada não só é desnecessária, como é ruinosa para um país que vive crise sem precedentes no trato com suas crianças e adolescentes.

"Alô? Aqui é a Xuxa" foi a frase mais ouvida na quarta-feira, dia 16/10/2013, em Brasília. Xuxa metralhou telefonemas aos integrantes da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara de Deputados. Tentava a aprovação do Projeto que, propagado de forma nefasta como “Lei da Palmada”, já impõe ao imaginário popular caráter coercitivo que não poderia ter, pois só projeto é.

Se você está localizado no tempo e no espaço, saberá que a Xuxa é signo de triste modo de televisar para crianças. Deu gerações estragadas na  sexualização precoce e no consumismo desenfreado. Individualismo black-bloc, não cidadão. Faz a sociedade clamar por limites. Estragado o ontem, se quer agora demolir o amanhã.

Mas o prestígio da apresentadora parece não ter sido suficiente para afrontar o jogo de chantagens que é da rotina parlamentar. Arrancaram o tema da pauta. Mas, em Comissão Especial, venceu por unanimidade. Foi a plenário. A polêmica o pôs na CCJ. Lá aprovado, volta ao plenário. Repetindo-se o infeliz resultado, Senado. Vencendo, se gabarita à sanção do governo autor da Lei. Há que resistir!

Pela péssima ideia, alteram-se o ECA e o Código Civil, para vedar  “qualquer forma de punição corporal, mediante a adoção de castigos moderados ou imoderados, sob a alegação de quaisquer propósitos”. O infrator da 'futura' norma será submetido a medidas de aconselhamento e orientação a pais e a filhos previstas no Art. 129 do ECA.

O que ofende profundamente na proposta, além da generalização que passa recado errado à população (afrouxem!), é seu caráter populista. Imagina famílias ideais à margem do conceito base que deve reger a elaboração legislativa. Lei é feita para o cidadão médio. Eu o conheço. Nas  centenas de palestras aos pais, sempre faço a pesquisa. Ergam as mãos os que foram educados com palmadas! Quase unanimidade. Quantos acham que lhes foram úteis? A enxurrada de mãos se repete.

Equívoco, basear-se, a proposta, no “Comentário nº 08” do Comitê dos Direitos da Criança, da ONU. Que agrega países de analfabetismo famélico, nações que sangram rostos de meninos ou promovem circuncisão de meninas. Visando coibir o mais grave, recorre-se ao extremo. Para não sangrar crianças,  proíba-se a palmada! Ora! Generalização descabida, como a que faz a ONU entender ser “criança”, o menor de 18 anos! E o tal documento diz que é “'corporal' ou 'físico' qualquer castigo no qual força física é usada com intenção de causar algum grau de dor ou desconforto, por mais leve que seja”.

Educação verdadeira, que dá os tão reclamados limites, sempre é desconforto! Até dor. Em algum momento, contenção física (segurar pelo braço, sacolejo veemente) se fará necessária. Abomino socos, pontapés, chicotes, tamancos, varas de amoreira, fios elétricos, panelas, pedaços de pau, arames, varas de bambu. Não falo de quebrar dentes, provocar hematomas, arranhões, quebraduras. Crimes, covardias! Já vedados! A lei brasileira, a par de proibir torturas, penaliza especificamente maus-tratos a crianças e adolescentes. Impõe dever geral de garantir a “a integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente”, “pô-los a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” e de “qualquer forma de violência, crueldade ou opressão" (arts. 17, 18 e 5º do ECA).

O Código Penal é bastante para coibir abusos. O artigo 136 prevê detenção ou reclusão, conforme o resultado do ilícito, a todo o que “abusar de meios de correção ou disciplina”. E o art. 129 sanciona lesão corporal praticada contra descendentes. Sempre com agravante se a vítima é menor de 14 anos.

Além disso, o poder familiar é exercido na intimidade do lar, constitucionalmente garantida. Não digo que dentro de casa tudo pode ocorrer, claro que não. Mas as vedações estão postas, à farta. Abusos possuem remédios legais eficazes. A minúcia pretendida remeterá ao arbítrio do intérprete o que é “moderação”. Porta do abuso hermenêutico e da educação permissiva (tudo o que este país – desesperadamente - não precisa!), levando-nos à seara suicida de achar que educação não pode impor desconforto!


A dificuldade (desconforto!) é que nos erige. Palma da mão em bumbum de criança é elemento indispensável no arsenal pedagógico das famílias. Se será ou não usada é história outra. Mas deve estar disponível. A Lei da Palmada não só é desnecessária, como é ruinosa para um país que vive crise sem precedentes no trato com suas crianças e adolescentes. Somos ridículos: por não dar palmadas necessárias, acabaremos visitando filhos na prisão. Telefone para o seu deputado. Se não ele só escuta a Xuxa.