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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Autorização para matar.


Por Carlos Ramalhete

Um americano viajou à Irlanda, e lá ficou surpreso com a quantidade de pessoas com o que antigamente se chamava mongolismo e hoje é chamado “Síndrome de Down”. Raríssimas na sociedade americana, estas pessoas a quem Morris West se referiu como “aqueles a quem Deus deu a graça da eterna inocência” são muito mais comuns na Irlanda.

A razão da diferença proporcional é simples: nos EUA, eles são mortos. Mortos em condições controladas e assépticas, em clínicas esterilizadas, assim que o pré-natal faz com que os pais saibam que o filho é assim. Já na Irlanda, onde o aborto é proibido, a pena de morte não é aplicada de modo tão automático.

Aqui no Brasil estamos no meio-termo: muitos – não todos – são mortos; ilegalmente, mas não menos fatalmente. Mas ressurge a ideia, já proposta pelo nazismo, de que o Estado pode declarar que há vidas humanas sem valor. Vários juízes já deram autorização para que fossem abortados bebês com má-formação do crânio ou do cérebro, considerando que a condição deles seria “incompatível com a vida”, e por isso a vida que eles têm pode ser exterminada. Agora, ao que se diz, a questão vai para o Supremo Tribunal.

Eu poderia citar casos, como o do funcionário francês que vive, trabalha e criou dois filhos apesar de ter uma má-formação cerebral que lhe valeria a pena de morte se seu caso houvesse sido julgado por um desses juízes, ou o da menininha Vitória, que nasceu sem crânio e vive, ri e alegra seus pais em São Paulo desde que nasceu, há um ano e meio. Mas não interessa.

O que apavora é que a possibilidade de problemas, ou mesmo de morte precoce, possa valer uma autorização automática para matar.

Ora, todos nós morreremos. O mais saudável dos seres humanos pode morrer amanhã, e pessoas com doenças graves podem viver longos anos, muitas vezes criando coisas que perduram para sempre. Matar agora por ser provável que se morra amanhã é um passo gigantesco e apavorante: é considerar que se pode matar, que se pode julgar que uma vida presente não tem valor. Hoje podem ser crianças doentes. Amanhã podem ser idosos, como já ocorre na Holanda. Depois de amanhã, podem ser as crianças com o sexo “errado”, como já ocorre na China, podem ser os homossexuais, podem ser quaisquer pessoas que se julgue não serem “produtivas o bastante”. O céu, ou melhor, o inferno é o limite.


O perigoso é passar por esta primeira porta, é achar que se pode declarar que uma vida não tem valor. Se existe a permissão para matar, quem é a vítima é apenas um detalhe.

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa, celebrando a vida.

Por Carlos Ramalhete.

As coisas mais presentes são normalmente as mais fáceis de esquecer. Só nos damos conta de que respiramos se prestarmos atenção, mas ai de quem parar de respirar! A mais básica de todas essas coisas óbvias, porém esquecidas, é a vida. Quem lê um texto no jornal está vivo. Também quem o escreve. Todos os que nos cercam, todas as pessoas que amamos, ou mesmo quem nos são indiferentes, estão vivos. Isso é óbvio, mas não é por ser óbvio que perde valor.

A Páscoa, celebrada hoje, é a celebração da vida por excelência. A crença cristã de que o Cristo hoje venceu a morte, hoje voltou à vida para dar a Vida a todos os que o aceitarem, nos mostra a vida como uma presença, como algo que, por estar aí, suplanta a ausência que é a morte. É como a luz, que espanta a escuridão.

Além do riquíssimo sentido religioso desta festa, contudo, mesmo quem não compartilha das crenças cristãs tem nela um forte motivo para celebrar: o fato de estar vivo! Os símbolos pascais são símbolos da vida, ainda que seja fácil esquecer disto. O coelho é um animal que tem muitos e muitos filhotes: vida. O ovo é uma coisa dura e seca, aparentemente sem vida, de onde brota inesperadamente um animal: vida. Mesmo o chocolate, alimento que dá energia e disposição, é algo que nos remete a este motivo contínuo de alegria que é a vida.

Este é um dia em que somos lembrados do valor que tem a vida, para celebrá-la. É um dia em que, quando nos encontramos à mesa com toda a família, nos lembramos de celebrar a vida que continua, com uma geração vindo após a outra, com os idosos e as crianças, que um dia serão também pais e avós. É um dia em que vemos as árvores que crescem e nos dão sombra e fruto, em que vemos os pássaros que cantam e enfeitam a nossa vida, em que somos lembrados, chamados, cutucados, para que não nos esqueçamos da beleza deste fenômeno tão corriqueiro que é comum esquecermos que está além do alcance da ciência: a vida.

É óbvio, é evidente, é corriqueiro. Como é óbvio que respiramos. Contudo, assim como conseguimos nos dar conta de que respiramos, do ritmo e da profundidade da nossa respiração, também convém que consigamos nos dar conta do valor enorme de estarmos vivos, de termos ao nosso lado (vivas!) pessoas que amamos.

Tudo o que nos acontece de bom só pode nos acontecer por estarmos vivos. Mesmo os sofrimentos, mesmo as tragédias – como as que infelizmente tantas vezes têm ocupado as primeiras páginas dos jornais –, são trágicos por atentarem contra esta riqueza, tão básica que tudo o mais é construído em torno dela: a vida.

Vale a pena, assim, fazer este pequeno esforço, e – neste dia em que a cultura que, como a vida, herdamos dos nossos ancestrais, celebra a vitória da vida – prestar atenção à vida, como quem presta atenção à respiração. Começar neste dia um hábito, de certa maneira semelhante ao dos atletas e cantores que procuram perceber sempre o ritmo e a profundidade da respiração, de valorizar a vida que está presente por toda parte. Se alguém nos incomoda, quanto mais nos incomodaria estar em um deserto vazio e sem vida? Se alguém não nos dá o que achamos que merecemos, como seria pior se não houvesse quem nos desse nada, se não tivéssemos o amor, o carinho, o olhar e o toque de outro ser vivo ao nosso lado.


Vamos tentar, neste dia, seguir as pistas que ainda nos restam nos símbolos pascais que não foram totalmente substituídos pelo mais vazio consumismo: vejamos no coelho a fecundidade, no ovo a geração da vida, no chocolate a sua manutenção. Celebremos a vida.

sábado, 21 de março de 2015

SOCORRO, tem uma dinâmica atrás de mim.


Por Carlos Ramalhete.

Explicação sobre porque as famigeradas "dinâmicas" são a morte da Educação, com análise de uma delas para mostrar o tamanho do buraco

Uma das mais asquerosas manias pseudo-pedagógicas dos últimos tempos é o use de uma espécie de truque de salão misturado com técnica de amestragem de macacos chamada "dinâmica". Qual é o pressuposto fundamental destas pragas que assolam os meios educativos? É a incapacidade de raciocinar do "dinamizado".

Por funcionarem em termos contra-lógicos, partindo do particular para o geral, da experiência empírica como metáfora obrigatória da regra maior, as famigeradas "dinâmicas" acostumam suas vítimas a não aprender, a não perceber a realidade de modo coeso, a não usar o raciocínio lógico. O procedimento é sempre o mesmo: faz-se  uma gracinha qualquer, uma situação prática extremamente forçada e antinatural que depois é usada em uma espécie desvirtuada de comparação, tendo sua "conclusão" (na imensíssima maioria dos casos completamente artificial) erigida em metáfora de uma regra geral. A sensação de "profunda descoberta" que acomete os "dinamizados" (ou, na novilínua dos pseudo-pedagogos, "dinamizandos") é facilmente explicável pela artificialidade da relação impingida entre a besteira que foi feita e a pretensamente profunda sabedoria que seria sinalizada (ou, na cabeça das vítimas da dinamicomania, "provada empiricamente") pela besteira feita.

Assim a vítima da "dinâmica" aprende apenas que não há sentido na realidade, que as regras, por serem "descobertas" indo do menor ao maior, em generalização absurda a partir de um único exemplo pseudo-metafórico, na verdade não existem senão como resultado forçado de um raciocínio que não se submete a repetição não-guiada.

Dizem alguns ativistas da dinâmica que ela nada mais é que um exemplo, uma forma de preservação mnemônica da realidade que ela apresentaria como metáfora. Isso não é verdade. Ainda que macaco velho não ponha a mão em cumbuca, a cumbuca não leva à descoberta da cobiça como vício a ser evitado. Fazer alguém enfiar a mão em uma cumuca para não conseguir retirar dela o que ela contém é partir do presuposto que esta pessoa não é capaz de entender a noção de vícios e virtudes, e sua compreensão é ainda mais rasteira que a de um provecto e experiente macaco.

No caso da dinâmica (especialmente pesadelosa, desenvolvida e escrita por um pedagogo "católico") que recebi e me fez escrever este artigo, então, a coisa é ainda pior que na média. Isto para nosso fito é bom, pois torn mais fácil apontar um dedo gordo e peludo para os absurdos nela presentes.

Antes de mais nada, qual é a associação feita entre uma experiência empírica e uma verdade supostamente apresentada como metáfora? A conexão não chega a ser tênue; é simplesmente inexistente, com o agravante de desviar da reta exegese do trecho bíblico atirado qual boi de piranha na sala cheia de adolescentes com um cérebro brilhante sendo lentamente transformado em creme de xuxu sem sal pela "dinamização".

Vejamos então como se processa este espantoso mecanismo de burrecimento, usando como exemplo de trabalho a tal dinâmica. Mantenho a ortografia e gramática originais, com o texto em negrito:

Mostrar ao grupo o pé de sandália e dizer que em quem servir a peça terá direito a um prêmio.

Inicia-se assim o procedimento incentivando a cobiça, apelando para vagos sentimentos de Cinderela por parte das vítimas, que esperarão que a sandália caiba nelas..

A única maneira de saber será calçando, para descobrir o felizardo. E todos deverão experimentar a sandália.

Sabe-se de antemão que normamente a sandália não caberá em ninguém; se couber foi por erro de cálculo do "dinamizador".  Mesmo assim, todos devem experimentar. Ora, fazer com que uma menina que calça 34 experimente uma sandália 44, que evidentemente não lhe serve, é na melhor das hipóteses subestimar sua inteligência e seu sentido de proporção, ensinando-a a submter-se a medidas arbitrárias e contrárias ao senso comum. Em um ambiente catequético isso é anda mais grave, por levar a crer que é assim que a Igreja age. Afinal, teoricamente esta ordem absurda de calçar "para ver se serve" uma sandália absurdamente grande seria uma ordem da Igreja.

Espera-se que a sandália não sirva, mas pode ocorrer que em alguém sirva, então separe­o do grupo e diga-lhe que ele é um feliz ganhador do prêmio, continue o exercício até o final, se houver mais de um “ganhador” estabeleça um sorteio ou a resposta correta de uma pergunta envolvendo sandália.

A coisa então torna-se ainda mais surreal. Se o "prêmio" (uma Bíblia, ainda por cima!!!) couber em mais de um, volta-se atrás e define-se quem será a vítima frustrada da mentira inicial (Cinderela irá casar-se com o príncipe, oops, ganhará uma Bíblia quem calçar 44) por meio de expediente ainda mais alucinado: "uma pergunta envolvendo sandália". Que tal "Qual é a sandália que não tem cheiro, não desbota e nem solta as tiras?" Assim reforça-se a sensação de que não há lógica, não há regras, e todas as decisões são puramente arbitrárias e sem referência alguma a algo maior (incluindo nisso a própria realidade dos fatos e o testemunho dos sentidos, já que era evidente desde o príncípio que a sandália gigante não caberia em ninguém, mas mesmo assim todos foram forçados ao constrangimento de "experimentá-la").

O ganhador ou ganhadores deverão ler para o grupo o texto de Jo 1, 19-34.

O pezudo deverá então ser forçado a ler esta passagem. Note-se que - se a coisa houver sido feita corretamente - não haverá pezudo que calce bem a sandália gigante, e presumivelmente o "ganhador" terá sido escolhido por sorteio. Assim foi criada uma falsa expectativa, que apesar de toda a evidência dos sentidos ("ninguém aqui tem um pé deste tamanho, de quer vale calçar esta prancha?") foi mantida artificialmente ("todos deverão experimentar") apenas para, no fim, ela ser substituída por outr forma completamente arbitrária e frustrante de escolher a vítima (que não havia sido informada que teria que ler em público, coisa que a muitos causa horror). Aprende-se assim que:

1 - As decisões na Igreja são arbitrárias e não levam em consideração a realidade (tamanho evidente dos pés das vítimas em relação à sandália, etc.);

2 - As promessas feitas neste ambiente não valem rigorosamente nada (quem calçar 44 casa com o príncipe, oops, ganha a Bíblia);

3 - Quem entra para um concurso (inicialmente o frustrante concurso de tamanho de pé, imediaamente seguido pelo sorteio entre os pezudos ou entre  todos. Note-se que no caso de concurso apenas entre pezudos a arbtrariedade dos valores levados em consideração salta aos olhos) em busca de uma coisa (a Bíblia) receberá um castigo (ler alto para a maior parte das pessoas é um castigo) de que nada havia sido dito.

Notem que - ao contrário das inferências artificiais da "dinâmica" propriamnte ditas, estas são reais. A experiência das pessoas que sofrem na mão dos pseudo-pedagogos anti-catequéticos terá sido esta: frustração, submissão a regras arbitrárias, surpresas desagradáveis, etc.

A passagem a ser lida pelo pobre "ganhador", a esta altura provavelmente sendo conduzido quase à força pela pressão de seus pares, satisfeitos em ver sua humilhação (só quem nunca trabalhou com adolescentes não conhece o maligno prazer que têm em ver sofrer alguém que ganhou algo que cobiçavam. Prefiro não pensar nesta "dinâmica" sendo impingida a adultos) fas referência apenas passageira a sandálias em geral. Aliás, na verdade não faz referência algum a sandálias em geral, mas traz apenas uma vez esta palavra, quando S. João Batita diz que não é digno de desatar as sandálias de Nosso Senhor.

Presumo que seja neste ponto lida a "Frase Motivacional" ("motivacional"... Em uma civilização digna deste nome a criação ou uso desta palavra mereceria pena de algumas centenas de chibatadas):

FRASE MOTIVACIONAL:
Calçar as sandálias em alguém é um sinal de serviço.

Ah... então a promessa (vã, como era evidente pelo tamanho das sandálias e foi depois comprovado pelo sorteio de uma Bíblia ter virado sapo, digo, ter virado a humilhação de ser forçado a ler em público) de dar uma Bíbia de presente escondia na verdade a exigência de um serviço desagradável e gratuito, para não dizer humilhante. Bom saber.

Na cultura judaica representava um sinal de acolhida, (mesmo hoje em alguns lugares do interior ainda se oferece uma bacia de água para a visita lavar os pés, tirar a poeira da longa caminhada) quando alguém ia até a casa do outro o dono da casa desatava-lhe as sandálias e lhe lavava os pés,

O que não tem absolutamente nada a ver nem com a artimanha de prometer uma Bíblia para forçar os incautos a ler em público, nem com a passagem em questão. A coisa é tornada ainda pior no contexto, pois a conclusão a ser tirada desta afirmação é bastante evidente caso alguma das vítimas (que evidentemente não deve ter conhecimento algum de Teologia da Graça por ter sido exposto a "dinâmicas" no lugar de sua catequese) não tenha sido suficientemente exposta a dinâmicas e ainda preserve resquícios de sua capacidade lógica:

Desatar sandálias é sinal de serviço;
Ora, São João Batista não se considerava digno de desatar a sandália de Noso Senhor;
Logo, São João Batista não era digno de servir o Senhor.

Ora, eu sou menor que São João Batista;
Logo, eu tampouco sou digno de servir o Senhor.

Ora, não sou digno de servir o Senhor;
Logo, vamos para o Baile do Havaí, que o Carnaval está chegando!
Vamos deixar esse papo de ser Santo para outros!!!

João Batista ao dizer que não é digno de desatar as sandálias de Jesus tentar mostrar que nem na condição de servo ele se encontra, Jesus é muito maior, João fala de sua pequenês. João dá testemunho do messias, identifica-o para seus seguidores: “Eis o cordeiro de Deus”.
Calçar as sandálias é aceitar o projeto de Deus, ir onde ele nos mandar. Diz nossa tradição que o Papa calça as sandálias do pescador, numa alusão a São Pedro, nosso primeiro papa.

Começa então novamente o samba do crioulo doido. As sandálias que eram calçadas e descalçadas em outrem como sinal de serviço viram sandálias a calçar em nós mesmos. Presume-se então que São João Batista - por indigno - teria deixado Nosso Senhor descalçar Suas próprias sandálias, para depois sair correndo com elas para calçá-las em si mesmo (correndo o risco de levar um raio na cabeça), pois assim ele estria aceitando "o projeto de Deus". A prova disso seria o Papa calçando as sandálias de São Pedro.

Associar para o grupo que estas sandálias é do Cristo que nos convida para o seu grupo.

Ah, as sandálias "é" do Cristo. Pensava que fossem - desculpe, "era" - da Carla Perez. Fora o atentado à gramática, resta-nos o atentado à lógica. Se estas sandálias "é" do Cristo, ou bem o Cristo ganha a Bíblia ou bem o calçador-de-sandálias/"dinamizador" é superior a São João Batista.

Agora que sabemos teremos a disposição para calça-las? O prêmio prometido para quem o faz é o Reino de Deus. No entanto para sermos dignos dele, muitas estradas tem-se que caminhar, por isso que Cristo nos “empresta” sua sandália, para termos força e vigor nos pés, pois o Evangelho, a boa nova do reino precisa ainda ser levada a muitos lugares, esta é nossa missão primeira, o testemunho maior: “Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho (Boa nova / Reino de Deus).”

A coisa então complica. Presume-se que o mundo deverá então prestar-nos o serviço de descalçar-nos as sandálias. Presume-se ainda que - como no caso da Bíblia que virou humilhação de ser em público - possamos dizer que essa história de Reino de Deus deva ter alguma treta escondida. Não, não vou falar da pontuação do texto. Chega.

Vem então outro exercício em negação do raciocínio:

02 ­ Após leitura dividir o grupo em subgrupos para reflexão sobre o texto lido e o exercício realizado. Qual reflexão se tira de um e de outro? (pode-se criar algumas perguntas temáticas). Realiza-se a apresentação dos subgrupos.

Então o grupo é dividido em "subgrupos".  Muito prático: assim é impedido completamente o rciocínio. Cada "subgrupo" vai evidentemente procurar as obviedades açucaradas que pareçam mais adequadas para obter a aprovação do Mestre-de-Insensatez/"dinamizador". Se não tiverem nenhuma idéia brilhante (panos brancos nas jaelas, sandálias gigantes infláveis, sei lá) "pode-se criar algumas perguntas temáticas" para guiá-los no exercício de conformidade irracional.

Em seguida cad subgrupo submete os outros a ouvir suas obviedades açucaradas. Brilhante.

03 ­ Comentário sobre as participações no exercício e dos subgrupos.

O que seria este comentário? Pela minha experiência, ele seria normalmente dividido em duas partes: os "oohs" e "aahs" de êxtase diante da "profundidade" paulocoelhiana das obviedades açucaradas dos outros subgrupos (tudo é "grupo" e "subgrupo", para evitar que - horror do horrores - alguém tenha alguma idéia original) e alguma recriminações àqueles que não entraram no espírito da coisa por não term deixado, como aparentemente deveriam ter feito, o cérebro na chapelaria ao entrar. Essas recriminações, claro, serão matizadas e politicamente corretas para não parecerem "julgamentos". Talvez no fim haja alguma sessão de abraços ou coisa parecida para os monguinhos, oops, os "dinamizandos" "ficarem de bem".

Vem então:

04 ­ Feedback

O fidibéque é a hora de todo mundo fazer "ooh!"e "aah!" para as paulocoelhices mais açucaradas, normalmente escolhidas pelo chefe da sessão de irracionalização.

05 ­ Insights

É a hora do "isso!" e do "ah, isso quer dizer que [insira aqui uma paulocoelhice que ainda não havia sido mencionada]". Pelos nomes em inglês, deviam ser "that's it!", mas já seria querer demais.

06 ­ conclusão

A conclusão é bastante evidente: se o tempo usado para esta tentativa de transformação de seres humanos em macacos novos que metem a mão em cubuca tivesse sido usado para uma aula de catecismo bem dada, mostrando sempre a conexão do que é ensinado com os dilemas morais que as vítimas da "dinâmica" atravessam em suas vidas, ele não teria sido jogado fora. Com um exercício de não-pensamento (mais conhecido como "dinâmica"), o tempo passa como se a pesoa estivesse assistindo TV, ou seja, sem que ela pense um silogismozinho de segunda que seja. Nada de bom é aprendido, e forçosamente são feitas inferências que reforçam todo os preconceitos e falsos juízos que a sociedade já prega sobre a Igreja (irracionalidade, arbitrariedade, falta de percepção da realidade, etc.).

Já cansei de ver isso acontecer. Sempre que dou um curso ou uma palestra para um grupo relativamente pequeno de adolescentes (pequeno o suficiente para permitir que sejam submetidos a esta "dinâmica" sem gastar nisso um dia inteiro) vejo como estão todos sedentos por conhecimento, procurando desesperadamente perceber o sentido do mundo, o sentido do que prega a Igreja, as linhas-mestras que os guiarão em seus dilemas morais (não há dilemas morais mais fortes que os que acometem os adolescentes!)... Quando finalmente conseguem escapar destas "dinâmicas" dos Infernos e ter uma aula em que possam perguntar e ter respostas, debater, discutir, aprender, é então que eles mostram todo o seu potencial.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O estudo da Filosofia.

Por Carlos Ramalhete

Movido por um saudável entusiasmo com São Tomás de Aquino, há quem não entenda muito bem o que é a filosofia e para que ela serve, e assim corra o risco de cair numa idolatria pseudo-tomista.

Ora, ensina-nos o próprio São Tomás que "studium philosophiae non est ad hoc quod sciatur quid homines senserint, sed qualiter se habeat veritas rerum" ("o estudo da filosofia não trata do que as pessoas pensaram, mas da verdade das coisas"; isso deveria ser tatuado no lado de dentro das pálpebras de quem quer que procure estudar filosofia).


Filosofia é um instrumento, é uma forma de organizar a razão... para entender o mundo de maneira correta. Ela não começa e nem acaba com S. Tomás, mesmo que ele nos tenha fornecido o arcabouço da melhor filosofia ao aprimorar o pensamento aristotélico. Não interessa o que São Tomás pensou; interessa a verdade do que ele pensou e como isso pode nos ajudar a perceber a verdade das coisas, que, isto sim, é o importante. Poderia não ter sido São Tomás a desenvolver este ferramental, que ele ia funcionar do mesmo jeito. São Tomás poderia ter dito uma besteira, e ela seria uma besteira do mesmo jeito. Mas o ensino filosófico dele é maravilhoso não por ser de um Doutor da Igreja (Doutores da Igreja não são necessariamente filósofos, e podem fazer má filosofia ou costurar meias mal; a teologia, não a filosofia, deles é o que faz com que a Igreja lhes tenha dado este título), sim por ser ótimo para perceber a verdade das coisas.

Isto significa que estudar São Tomás não é nem pode ser um fim em si; ao contrário, devemos estudar, e muito, São Tomás para que possamos usar o ferramental magnífico que ele desenvolveu para estudar o mundo. Aliás, para que estudemos corretamente Deus e o mundo. Não adianta rigorosamente nada estudar S. Tomás e não aplicar o estudado a tudo o que nos cerca; seria como comprar o melhor microscópio do mercado e nunca tirar a tampa da lente, contentando-se em ler e reler o manual, brincar com todos os controles, etc.

Filosofia é uma coisa, e teologia é outra. Aquela é a serva desta, porque sem o estudo daquela dificilmente se poderia entender corretamente esta (sem estudar metafísica não dá pra entender chongas de sacramentologia ou de cristologia, por exemplo). A Revelação, recebida, preservada e ensinada pela Igreja, é uma Verdade que não passa, e que podemos usar como parâmetro para julgar a verdade de outras coisas, de pensamentos teológicos, de algumas descobertas filosóficas que tocam a teologia, etc. Mas a filosofia não trata da Revelação; ela é um instrumento que nos ajuda a entender coisas reveladas, por ser um instrumento de compreensão de tudo.

O estudo da filosofia, assim, não serve para "inventar novidades", sim para entender, com o auxílio do ferramental filosófico (que, mais uma vez, não se limita a São Tomás), a verdade acerca do que nos cerca. E o que nos cerca pode perfeitamente bem não ter chongas a ver com a Revelação, e pode perfeitamente ser um problema inédito.

Por exemplo, são questões filosóficas as questões que hoje se colocam sobre o valor da vida (o que é um feto? É um ser humano? Faz parte da mãe? Está vivo?), sobre os limites da autoridade do Estado (ele pode inventar que dois barbados juntos são uma família? Ele pode desarmar os cidadãos? Ele pode proibir bebida/cigarro/gordura?), etc.

O que a filosofia tem a fazer é descobrir a verdade das coisas: descobrir o que é o Estado, descobrir o que é a vida, a família, o feto, o ser humano, a mãe, a comida, o cigarro, a bebida, a arma, a defesa própria ou de terceiros, etc. É por isso que ela é a serva da teologia. Sem que se saiba o que é um feto, não se pode discernir se ele merece ser protegido pelo mandamento de não matar. Até hoje tem gente que mente que São Tomás teria sido a favor do aborto, pq ele dizia que só após a animação do feto ele é um ser humano. Ora, o problema era de filosofia natural (medicina, biologia, etc.): a animação é o que possibilita o crescimento, e a filosofia natural do tempo dele achava que o feto só começava a crescer na hora em que a gravidez se tornava perceptível (ou seja: não haveria um momento em que fosse permitido abortar, de qqr jeito). Hoje sabemos que a animação começa quando ocorre a concepção.

O que a Igreja sempre pregou que se fizesse é a chamada "filosofia perene", ou seja, um único corpus de conhecimento que vai sendo aumentado e melhorado com o tempo, tendo como estrutura básica o ensinado por São Tomás, dirigido basicamente à questão da quididade ("o que é isto?") e daí se espalhando para outras coisas (por exemplo, pq dois corpos se atraem, como eles se atraem, qual é a relação entre a atração, a massa e a distância, etc., como o Newton fez ao fundar a física newtoniana, este ramo moderno da filosofia natural, com seu livro "Princípios matemáticos da filosofia natural").

Não se trata de pegar São Tomás e estudá-lo como o pessoal da "filosofia" moderna faz com seus autores, estudando cada sistema delirante de epistemologia (pq aquilo não é filosofia, é má epistemologia) sem relação real com o mundo, sem tentar descobrir a verdade das coisas, sim de agregar mais e mais a este corpus magnífico, composto não só de São Tomás, mas de descobertas de milhares de filósofos, inclusive alguns modernos (Ortega y Gasset, por exemplo, que era um Heideggeriano - logo moderno -, contribuiu com importantes insights sobre o que é ser humano, sobre a organização da sociedade, etc.).

São Tomás, que é simplesmente o nome mais importante por ter uma obra vastíssima e profundíssima e por ter aperfeiçoado o ferramental básico aristotélico, dizia que somos como anões nos ombros de gigantes, sendo os gigantes a soma das descobertas de todos os ancestrais. Bom, deste gigante S. Tomás é hoje o tronco, o centro da massa corpórea, por assim dizer, em termos de importância, mas isso não quer dizer nem que a filosofia comece com ele (Platão e Aristóteles seriam os pés, por exemplo) nem que ela termine com ele. Agora mesmo há gente, por exemplo, usando as descobertas da neurologia para aperfeiçoar a epistemologia tomista (que já previa muito do que foi descoberto pelos neurologistas modernos, aliás).

Mas mesmo na filosofia moderna (e em filmes, e em jornais, e no bate-papo do botequim) dá para achar coisas boas, que possam passar a fazer parte da filosofia perene ao serem encaixadas neste corpus preexistente. Quando se lê um autor de filosofia moderno, ele deve ser lido em busca de coisas com que possa contribuir para a filosofia perene, evitando a armadilha da filosofia moderna, que constrói elaborados castelos de cartas autorreferentes, sem comunicação entre os sistemas. Costumo dizer que filosofia moderna é uma forma de RPG, em que se constrói mundinhos fechados, e é um perigo muito grande que alguém estude São Tomás como os modernos estudam filosofia moderna.


Para saber mais sobre este assunto, recomendo vivamente o livro de nosso bom Pe. Emílio, "Filosofias da Hora e Filosofia Perene".

sábado, 17 de janeiro de 2015

Eclesiologia protestante


Por Carlos Ramalhete.

O principal erro do protestantismo não é o Sola Scriptura; este é a caixa de Pandora, e só isso. O que, porém, levou Lutero a abrir esta caixa? Um erro de eclesiologia. A eclesiologia protestante está de cabeça para baixo, e é isso que os leva a aceitar algo tão irracional quanto "acreditar só na Bíblia" quando a própria Bíblia diz que não é para "acreditar só na Bíblia" (e isso se deixarmos de lado outras coisas importantes, como o fato de não haver nenhum cânone definido no próprio texto inspirado, o que já faz do cânone bíblico algo extra-bíblico...).

Vejamos então um pouco de eclesiologia.

O que é comunhão? É a participação no Corpo de Cristo. Todos nós, batizados, somos enxertados no Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja. Nosso Senhor é Cabeça da Igreja, e a alma da Igreja (ou seja, sua forma, aquilo que lhe dá coerência) é o Espírito Santo. Assim como um corpo sem alma não é uma pessoa, uma reunião de pessoas sem a união e a coerência que são dadas pela alma, que é o Espírito Santo, não é uma Igreja.

O protestante, porém, não entende que o Espírito Santo seja a alma da Igreja. Ele O vê como uma espécie de "assistente pessoal", como uma espécie de garantia pessoal de infalibidade dada a cada protestante. É por isso que ele não aceita a Comunhão dos Santos.

Assim, nada mais natural para ele que considerar que quando se junta trezentos "crentes" em uma sala duas vezes por semana se tenha uma "Igreja". Não há união nenhuma entre eles, senão o fato de estarem todos no mesmo lugar, ao mesmo tempo, fazendo a mesma coisa. Para eles, o Espírito Santo não dá uma coerência, uma união indissolúvel na unidade do Corpo de Cristo.

É por isso que é tão comum vermos em seitas protestantes a citação bíblica (presente nas fachadas de muitas seitas) que afirma que "Jesus Cristo é o Senhor". Isto ocorre porque na Sagrada Escritura S. João nos ensina que só no Espírito Santo podemos dizer isso. O que significa o que escreve S. João? Que só na Igreja, ou seja, só sendo enxertados neste Corpo Místico de Cristo e sendo animados (tendo como alma da Igreja, tendo como forma - ou princípio de coerência - da Igreja) pelo Espírito Santo podemos dizer isso. De nada vale dizer que Ele é o Senhor quando se está fora da Igreja. Será o mesmo que dizer bu-bu-bu ou bó-bó-bó, e valerá um dia um belo "apartai-vos de Mim, malditos, pois não os conheço".

Faltando-lhes, assim, a noção mais básica da Igreja como Corpo uno e indivisível de Cristo, que é o sentido da comunhão (somos irmãos em Cristo pelo batismo, não por estarmos ao lado um do outro em um banco de igreja; o que nos une é Cristo. É isso que faz ser péssimo dar as mãos no Pai-Nosso, por exemplo, passando assim um sinal trocado de que a nossa união é direta entre um e outro, e não através do Cristo), eles tendem a chamar de "comunhão" o mero irenismo, o mero coleguismo (frequentemente hipócrita, pois é necessário um esforço consciente em evitar quaisquer questões mais espinhudas - e isso inclui até mesmo a eficácia do batismo! - para que dois "crentes" de seitas diferentes, ou até de cultos em horários diferentes na mesma seita, não comecem a debater sem possibilidade de chegar a uma definição de quem está certo).

É o mesmíssimo mecanismo que os leva a chamar trezentas pessoas com crenças diferentes, desunidas em tudo que não na presença física regular no mesmo lugar e horário e no apego a algumas fórmulas dogmáticas (cujo sentido é diferente para cada um), de "Igreja". Se isso é "Igreja", o que faz e mantém a "Igreja"? A Graça? Os Sacramentos? A Santidade? O Espírito Santo?

Claro que não. O que impede que soçobre esta união acidental (radicalmente diferente da união substancial dos cristãos no Corpo Místico de Cristo - os protestantes unem-se pelo acidente da localização, enquanto os cristãos unem-se na substância da Igreja, de que somos a matéria e o Espírito Santo é a forma) é apenas o bom-mocismo, a fuga das questões difíceis, o empenho em ser um "xuxuzinho" para todos os outros. Se o "crente" Zeca briga com o "crente" Joca, acabou a "comunhão". Se Zeca e Joca levam a briga deles mais além e as pessoas se dividem entre pró-Zequistas e pró-Zoquistas, acabou a "Igreja".

É por isso que a Igreja nos ensina que não podemos chamar estas seitas de "Igrejas"; elas não o são.

A Igreja é uma só e é visível, e é a Igreja Católica. Nós não "fazemos Igreja", mas somos nela enxertados. Somos a matéria que recebe sua coerência pelo Espírito Santo e passa a constituir uma união substancial, um ente, que é a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, a Igreja. Nossas brigas - ao contrário do que ocorre entre os protestantes - não são fator de divisão, mas de união. O que nos une não é estarmos bem um com o outro, mas nos deixarmos ser animados pelo Espírito Santo, nos apegarmos à Verdade. Se não brigarmos, se não discutirmos, seria como uma Aids no Corpo Místico de Cristo, o que é inimaginável. O erro, a mentira,m tudo isso é inimigo do Corpo de Cristo. Isto é como um vírus ou uma bactéria, que depende dos anticorpos para ser expelido. Ele precisa, porém, ser reconhecido pelo sistema imunológico para que possa ser expelido.

Estas brigas são exatamente isso: um reconhecimento do erro para que ele possa ser expelido. Se eu sento o tacape nos blasfemos que batem palmas na Missa (a Missa é o Calvário, e só quem bateu palma no Calvário foram os judeus e os romanos...), estou sinalizando um inimigo do Corpo de Cristo que está tomando algumas de Suas "células", que somos nós. Precisamos salvar estas células e expelir o inimigo. Depois que as células mais próximas do invasor o detectaram, elas mandarão um aviso para o cérebro, que pode - ou não - tomar conhecimento disso. Nós não reparamos na imensa maioria das invasões bacterianas e viróticas que nosso corpo enfrenta. Algumas nos chegam ao conhecimento, e dizemos "estou gripado, preciso me tratar". Isto é uma definição magisterial. Antes que ela surja, porém, é extremamente necessário que o inimigo tenha sido apontado e combatido, pois ela só surgirá quando a crise for realmente gravíssima. Assim como para as células próximas a uma pequena ferida que está inflamada a crise parece grave, mas o cérebro nem se dá conta do que está acontecendo até que a dor aumente muito, nós que estamos próximos às crises devemos agir de maneira forte, mesmo que o cérebro ainda não se tenha dado conta. Se agirmos eficientemente, o cérebro jamais se dará conta. Nosso Senhor prometeu que a Igreja não seria vencida, mas não que não perderia membros por gangrena (como ocorreu tantas vezes; basta ver o Norte da África, antes terra cristã).

Para o protestante isso seria inimaginável, pois o mais natural seria que os batedores de palmas fizessem uma outra "Igreja", onde todos batem palmas o tempo todo. O fator da "comunhão" desta "Igreja" seria justamente o ânimo de aplaudir a torto e a direito. Não há fator de unidade que não o acidental, não há sentido algum em permanecer na mesma "Igreja" se há brigas lá. Isso ocorre porque eles não percebem que a Igreja não é feita por homens (como o corpo humano não é feito por células: se juntarmos milhões de células não teremos um corpo humano, mas um embrião com duas células já é um corpo humano por ter uma alma, ter algo que não é sua matéria e lhe dá sua coerência), e não percebem os inimigos da igreja como realmente inimigos. Para eles, a divisão - que para nós seria a horrenda perda de um membro da Igreja, pois quem se separa do Corpo não é mais Corpo, como uma mão amputada não é mais a mão de alguém e sim um monte de carne e ossos a caminho da putrefação - é uma solução, uma maneira de fazer com que ainda haja "comunhão" (entendida como companheirismo, amizade humana e natural, etc.).

Assim eles têm esses pedaços de carne putrefata dominados por bactérias X e outros dominados por bactérias Y, e são justamente as bactérias que eles vêem como os elos de união interna, como a coerência interna daqueles pedaços de carne putrefata. Todas as seitas juntas aceitam algumas frases-chavão (Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia...), com cada uma delas entendendo estas frases de modo completamente diferente, como se as colônias de bactérias nos pedaços de carne estivessem em acordo em dizer que é bom devorar carne, e só. Uma transforma a carne em nitrogênio e a outra em metano, mas ambas chamam a transformação que efetuam de "devorar carne".


Pudera que quem pensa assim fique horrorizado ao ver a ação dos anticorpos no Corpo vivo, e confunda a bronca de São Paulo nos que pregavam a união natural como superior à união em Cristo (ou seja, estar ligado a Apolo ou a Paulo, e não a Cristo; ter uma "comunhão" de companheirismo com Apolo ou Paulo como mais importante que ter a mesma única Fé e o mesmo único batismo no mesmo único Senhor, fazendo assim parte do mesmo único Corpo Místico de Cristo) com o seu oposto: uma bronca nos que - como S. Paulo - brigam contra a infiltração do erro para que a Verdade pristina sempre prevaleça.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Universidade para quem?


Por Carlos Ramalhete

Em 1919 meu avô fez vestibular, com exames orais e escritos. Dentre outras, havia prova oral de latim. Em 2001, um analfabeto passou em nono lugar no vestibular. No princípio do século passado, havia faculdades de Filosofia, Direito, Medicina e Engenharia. Ano passado, vi cartazes anunciando uma faculdade de “visagismo e estética capilar” (sim, senhoras e senhores, faculdade de cabeleireiro!).

Alguma coisa está errada. Não adianta tentar tapar o sol com uma peneira: algo está muito errado. Perdeu-se, na verdade, o sentido da expressão “ensino superior”. O ensino superior, como o nome indica, deveria ser de nível mais elevado. Em termos de ensino, um nível mais elevado significa algo mais árduo, mais complexo, mais aprofundado. Peço perdão aos cabeleireiros, visagistas e esteticistas capilares, mas dificilmente se poderia argumentar que “escova japonesa” é matéria para curso superior.

Por mais que doa ao igualitarismo feroz que hoje domina a sociedade, é necessário reconhecer que o ensino superior deve forçosamente ser restrito para que continue sendo superior. Não falo de restrições financeiras, mas de uma restrição natural: a intelectual. Há quem tenha capacidade intelectual para estudos superiores, e há quem não a tenha. Pessoas péssimas podem tê-la, e pessoas maravilhosas podem não a ter; não há nisso nenhum mérito próprio.

Quando, contudo, um contra-senso tão absoluto quanto “universidade para todos” se torna projeto de governo, vale temer que o próximo projeto seja engravidar todos os homens ou fazer salada de todas as plantas. É tão possível ter-se uma universidade que realmente seja um local de ensino superior e ao mesmo tempo tenha “todos” como alunos quanto prometer a gravidez ou a palatabilidade universais.

Há pessoas que têm fortíssimos talentos naturais, sem que tenham a capacidade intelectual ou o interesse necessários para passar por um verdadeiro ensino superior. Conheço vendedores que ficariam ricos com uma loja de cortadores de grama no deserto do Saara, mas penaram enormemente enquanto confinados aos bancos escolares e simplesmente não têm interesse algum pela leitura. Eu, por outro lado, iria à falência vendendo cerveja gelada e água mineral no mesmo deserto, mas preciso me conter para não gastar todo o meu parco salário em livros. Isso não me faz melhor nem pior que o bom vendedor; seria contudo impossível ignorar que somos diferentes.

Para que uma sociedade seja saudável,
é preciso que haja pessoas diferentes
Para que uma sociedade seja saudável, é necessário que haja pessoas diferentes: bons vendedores, bons carpinteiros, bons pedreiros, bons agricultores e bons estudiosos. Uma política educacional sensata não pode nem querer fazer universitários de todos nem, como se tentou fazer no Camboja, transformar toda a população em agricultores. O que se pode obter com este tipo de política é simplesmente o fim do ensino superior ou da agricultura. No Camboja houve fome generalizada; no Brasil temos a mais triste indigência intelectual.

Como parte do mesmo projeto de massificação da faculdade, foram para escanteio os cursos técnicos, da escola normal aos cursos de metalurgia, química e outras disciplinas, que levaram ao crescimento do país na segunda metade do século passado. Hoje não vale mais a pena fazer um curso técnico: às disciplinas especificamente técnicas tornou-se obrigatório somar todas as disciplinas do Ensino Médio, fazendo com que os cursos técnicos demorem um tempo enorme, valendo mais a pena – justamente! – fazer um curso dito superior.

O resultado é que pessoas talentosas, que seriam excelentes técnicos, artesãos, pedreiros, professoras do ensino fundamental ou vendedores, são mantidos afastados do mercado de trabalho por anos, ocupando vagas do ensino superior. Ao mesmo tempo, as disciplinas do ensino superior são empobrecidas e niveladas por baixo, para que a imensa multidão de pessoas que não deveriam estar lá tenha capacidade de entendê-las. As faculdades de Direito formam hoje técnicos em legislação positiva, que sabem direitinho qual é o artigo do Código que se aplica a tal situação sem que sejam capazes de dizer o que é o Direito, de dissertar sobre o conceito de justiça ou, sequer, de passar na prova da OAB. Ao mesmo tempo, o diploma do IME, do ITA ou de outras instituições que ainda se podem dizer de ensino superior não é mais nem menos “diploma universitário” que o obtido pelo graduado em moda, dança, “visagismo e estética capilar” ou reforma de móveis.


Se quiserem que eu engravide, ao menos já sou barrigudinho. Só tenho medo da salada de comigo-ninguém-pode.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

As Portas do Inferno.


Por Carlos Ramalhete.

...teriam prevalecido sobre a Igreja?!

Tem gente que acha que sim...

Dada a confusão que se seguiu ao Concílio, as barbaridades litúrgicas perpetradas na maioria das paróquias, será que seria correto dizer que as portas do Inferno teriam prevalecido sobre a Igreja?

Seria gravíssimo, se fosse esse o caso. É exatamente por isso que - além de lutar contra os abusos - devemos também lutar contra o cisma, que parte da premissa de que as Portas do inferno teriam prevalecido. Explico.

Nosso Senhor disse que as portas do Inferno não prevaleceriam sobre a Igreja, não que ela não passaria por maus pedaços. O Papa Paulo VI disse que "uma fumaça de Satanás entrou na Igreja", mas não disse que Satanás prevaleceu sobre a Igreja. O Santo Padre João Paulo II disse que Igreja está vivendo o seu Calvário... mas o Calvário é um período de dor e sofrimento, não uma derrota.

O Papa Paulo VI mandou fazer uma liturgia nova com um intuito nobre mas mal guiado (não devemos nos esquecer que a infalibilidade papal não significa impecabilidade papal; Papas erram, e erram de montão. Só o que eles não conseguem fazer é pregar o erro como se fosse verdade, e vice-versa): ele achava que se a liturgia da Igreja fosse simplificada ela atrairia mais facilmente os protestantes. Infelizmente, além da ideia ser péssima o sujeito que ele botou para fazer isso não era lá muito confiável. O primeiro texto da Instrução Geral do Missal novo foi recusado pelo Papa e teve que ser parcialmente reescrito, por quase deixar de lado pontos essenciais da Fé católica em sua explicação da Missa. O Bispo que o fez foi mais tarde acusado de ser maçom. Ele jura de pés juntos que não é. O Papa acreditou que era ao menos ao ponto de dar a ele a nobre missão de núncio apostólico no Irã de Khomeini (fanático muçulmano, perto de quem o Osama era uma coisinha fofa).

A Missa que saiu daí, ainda por cima, foi levada às mãos das Conferências Episcopais. Elas começaram a traduzir *a Missa toda* (não só as leituras) e a inserir coisas que não estavam lá, tirar coisas que estavam, etc. Isso era a década de setenta; no mundo o movimento hippie havia atingido seu auge, e surgia o punk. Todo o mundo estava em um processo de mudança social e cultural acelerada, e a liturgia da Igreja viu-se agarrada neste movimento pelas Conferências Episcopais. O Papa Paulo VI, que Deus o tenha, via-se completamente desprovido de poder de fato desde que havia condenado bravamente a contracepção artificial e sido desobedecido por quase todos. As Conferências Episcopais (no Brasil a CNBB) faziam e aconteciam, mandavam e desmandavam. Para tornar a coisa pior, nas Conferências estavam muitíssimos hereges, e eles - aproveitando a fraca liderança do Papa - conseguiam aumentar os seus números, fazendo novos Bispos no mesmo estilo.

A ação deles na liturgia também foi apavorante. Além dos erros propositais de tradução (como na Consagração, quando o "Sangue, que será derramado para vós e para muitos" virou "Sangue, que será derramado por vós e por todos", ou o Cordeiro que Deus, que passou a tirar "o pecado" - único? - do mundo, ou, ou, ou...); os padres foram incentivados (para não dizer forçados) a celebrar em português, enfiando-se atrás do altar, de costas para o Sacrário, como se fossem apresentar o Sacrifício para os fiéis, não em benefício dos fiéis para Deus; as invencionices aumentaram por todo lado - especialmente na Europa, onde os bispos holandeses chegaram a lançar um catecismo herético que continuaram a vender mesmo depois de ele ter sido condenado por Roma - e, com a facilidade de comunicação dos dias de hoje, rapidamente avançaram por todo lado. Os fiéis passaram a receber o Santíssimo de pé e na mão, dado por um leigo. As Missas passaram a ter bandas de rock, com violão e bateria na igreja. E por aí vai.

Em suma, o Demônio atacou, e com vontade.

Atacou mas não venceu. O Papa Bento XVI, desde o começo de seu pontificado, tentou tomar novamente as rédeas. Lançou o novo Catecismo, que desmancha cuidadosamente os erros do Catecismo Holandês (veja como o Catecismo de JPII dá muita ênfase à Cristologia, por exemplo, que é a área onde havia mais heresias no Catecismo Holandês); já deu ordens (que não são obedecidas, mas estão aí para ajudar os bons padres e bons Bispos que as queiram impor) contra o uso de leigos em ministérios do Sacerdote, etc.

A técnica dele é a polonesa: manter firmemente o essencial, ceder no acidental e procurar lentamente recuperar o terreno perdido quando algo acidental foi cedido. É assim que a Polônia sobrevive até hoje, tendo sido sempre atacada e invadida pelos alemães e pelos russos.

A Missa de Paulo VI é válida, ou seja, é uma missa verdadeira, por mais que seja fácil fazer dela ocasião de desrespeito. Há padres que a celebram de maneira respeitosa e digna, e até mesmo um movimento que busca incentivar que ela seja celebrada de maneira 100% católica (se você lê inglês visite o site do Adoremus, associação dedicada à luta pela ortodoxia na Missa Nova). A Igreja, mesmo durante esta confusão, não ensinou jamais nada de errado. A fumaça já está se dissipando, e a diferença entre a nossa situação atual e a de há vinte anos é gigantesca!


Assim, podemos sim dizer que a Igreja sofreu um dos ataques mais fortes que o Inferno já tentou contra ela, mas não que as Portas do Inferno tenham prevalecido.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

As raízes e seus ramos


Por Carlos Ramalhete

As primeiras universidades foram instituições religiosas. Do mesmo modo, os valores humanos dos laicistas mais exacerbados – como a dignidade da pessoa humana, o valor da vida ou a adesão a um código ético – são versões reduzidas e resumidas de preceitos cristãos.

Contudo, em alguns meios de intelectualidade rasa, é moda prezar os valores oriundos do cristianismo e, ao mesmo tempo, desprezar a religião que os gerou. Antes dela, na Roma pagã, por exemplo, a vida humana pouco valia: o pai tinha direito de vida e morte sobre toda a família, e no circo o “palhaço” era morto por feras. Se não fosse a ascensão do cristianismo, ainda hoje seria assim; se o cristianismo desaparecesse, os valores humanistas também desapareceriam, por falta de base. Sem sua base cristã, a única razão para aceitar estes valores é “porque sim”.

O fato é que nossa sociedade está passando por uma séria crise de adolescência, revoltando-se contra as origens de tudo o que ela diz prezar. Esta crise também se reflete nas universidades, de que um ou outro deseja expulsar a expressão religiosa. Ora, ao negar o desejo humano de Deus, faz-se apenas com que falsos deuses – partidos, “celebridades” ou teorias da moda – tentem inutilmente preencher o vazio. Além disso, proibir alguém de professar sua fé no ambiente universitário é tão arbitrário quanto exigir que se siga, obrigatoriamente, uma religião. É a ditadura do laicismo.

Quando começou esta separação artificial entre os valores que vêm do cristianismo e a fé que lhes deu origem, há coisa de 200 anos, seus defensores ainda pregavam a necessidade da crença religiosa como meio de garantir o bom comportamento da “massa ignara”. Depois, nem isso mais admitiam: no Rio há ainda a Igreja Positivista do Brasil, a que pertencia Benjamin Constant, que mantém uma imitação de capela católica com Gutenberg e Descartes no lugar dos santos, qual museu de uma tentativa frustrada de criar o homem sem Deus, há cerca de um século.

Hoje esta crise adolescente está em seu auge, com a sociedade querendo negar a figura do pai – Deus – e ver-se livre da figura da mãe – a cristandade –, sem aceitar que é deles que vem. Pipocando como espinhas, ateus militantes vendem mentiras requentadas e movimentos laicistas procuram impedir a expressão religiosa, sem que percebam que estão atacando a religião em nome de valores que provêm dela mesma, de valores que, antes da ascensão do cristianismo, seriam tidos por loucura.

Universidade de Oxford. Seria bom buscar as origens do
que hoje é o que conhecemos como sistema universitário.
É pena, mas até mesmo na universidade este tipo de contra-senso ainda aparece. É perfeitamente normal que, como o adolescente que não precisa mais ser guiado pela mão ao atravessar a rua, a universidade tenha se distanciado um pouco de suas origens. A especialização extremada do ambiente acadêmico de hoje, em que o químico ignora o que estuda o biólogo, também deixa pouco espaço para a discussão teológica, forçosamente mais abrangente que os caminhos hoje separados das ciências. Mesmo assim, apenas em meio a pessoas pouco afeitas ao raciocínio lógico seria concebível não perceber a tremenda contradição que é pregar valores que vêm da religião e ao mesmo tempo atacá-la; na universidade, seria de se esperar que isto não acontecesse. Afinal, crises de histeria adolescente não ficam bem sequer nos adolescentes, quanto mais em universidades.

O papel da religião na universidade, assim, é cuidar para que ela não se distancie dos valores em que se baseiam tanto ela quanto a própria sociedade ocidental. Como o tronco de uma árvore, que comunica às raízes o que vem das folhas e às folhas o que vem das raízes, a presença religiosa impede que a ciência perca seu norte ético. Para tal, deve haver na universidade ao menos um chamado à oração e à meditação, um reconhecimento explícito da necessidade de proteção divina (como há na Constituição, aliás), uma capela, atos de culto oficiais e imagens religiosas...


Em suma: apoio, abertura e tolerância para com as manifestações religiosas de todos os que, juntos, compõem este “universo de mestres e estudiosos” chamado universidade. Só assim ela pode evitar a triste posição de adolescente mimado que renega a origem de sua existência, valores e sobrevivência.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Verdadeiro e Falso Ecumenismo.


Por Carlos Ramalhete.

Se "Fora da Igreja não há Salvação", o que é o Ecumenismo?

Infelizmente esta é uma confusão muito comum, especialmente em certos meios ditos "progressistas"; esta confusão, na verdade, é fruto do chamado "relativismo", uma heresia já condenada pela Igreja muitas e muitas vezes.

Antes de mais nada, vejamos o que é o ecumenismo verdadeiro (não o da LBV...):

A palavra "ecumênico" sempre foi usada no sentido de uma reunião do conjunto dos bispos da Igreja. Assim, por exemplo, um Concílio que reúna os bispos do mundo todo é um concílio ecumênico, mesmo (e especialmente!) se não houver nenhum não-católico presente.

Infelizmente esta palavra começou a ser usada no fim do século passado para definir um movimento surgido nos meios protestantes, que busca fazer uma reunião meramente jurídica de todas as seitas protestantes (não devemos nos esquecer que na eclesiologia protestante a Igreja, com "I" maiúsculo, não existe visivelmente, sendo composta por uma união invisível de todas as seitas); assim este movimento pseudo-ecumênico, expresso por exemplo no Conselho Mundial de Igrejas, deseja fazer com que as seitas aceitem a validade, por exemplo, dos Sacramentos ministrados por outras seitas. No caso de seitas que não acreditem em sacramentos, o objetivo do movimento seria fazer com que admitissem que as seitas que acreditam são verdadeiramente "cristãs" no mesmo sentido que o são os membros de sua seita própria.

Ora, esta visão é incompatível com a Fé cristã. O protestantismo prega que a fé apenas salva, mas não se preocupa com a questão que evidentemente surge em decorrência desta crença: fé em quê? Para um protestante, trata-se de uma aceitação subjetiva de um "jesus" salvador, não de uma aceitação real d'O Jesus Salvador. Digo isso por uma razão simples de perceber: se cada um interpreta diferentemente a Escritura e acredita que o que Ele pede é uma coisa diferente do que outro protestante (por vezes na mesma seita!) acredita, não se está aceitando Jesus, mas sim inventando um "jesus" pessoal, um "jesus" que corresponde na verdade apenas às ânsias e preconceitos do "crente".

Assim Monique Evans e Tiazinha, por exemplo, crêem em um "jesus" que não vê absolutamente problema nenhum na difusão de pornografia, "jesus" esse radicalmente diferente, por exemplo, do "jesus" de uma senhora da "Assembléia de Deus", que não tira suas saias longas e não corta o cabelo.

Do mesmo modo o "pastor" Caio Fábio acredita em um "jesus" que permite o divórcio (em frontal contradição com as próprias palavras de Cristo registradas no Evangelho!), mas preocupa-se principalmente com problemas sócio-policiais da população favelada...

Para Monique Evans e Tiazinha, entretanto, Caio Fábio é certamente um cristão, e presumivelmente o contrário também é verdade.

Este é o "espírito ecumênico" do Conselho Mundial de Igrejas, que aliás já está tendo problemas graves devido a, por exemplo, a pregação pró-homossexualismo de algumas seitas que dele fazem parte, pregação essa que já provocou a saída de vários grupos deste Conselho.

A mensagem do falso ecumenismo é "tolerância", compreendida como na verdade mero indiferentismo: não importa em que "jesus" é a fé do "crente", importa que ele tenha fé.

O "ecumenismo" da LBV é aparentemente o paroxismo deste tipo de mentalidade indiferentista, mas na verdade o é apenas para consumo externo. Nas creches e escolas da LBV, por exemplo, as crianças são indoutrinadas na doutrina própria desta seita, que entre outras coisas ensina o reencarnacionismo, as várias revelação sucessivas (incluindo aí Allan Kardec e o próprio fundador da LBV), a inexistência do Espírito Santo (visto como uma reunião de "espíritos evoluídos"), etc.

Assim eles consideram que todas as religiões são aceitáveis, mas a verdade seria a pregada por eles. Como são reencarnacionistas, não vêem necessidade de confronto; afinal se o sujeito for um bom protestante, ou católico, ou macumbeiro, na "próxima encarnação" ele poderá ter acesso à verdade LBVista...

Estes falsos ecumenismos são totalmente diferentes da noção católica de ecumenismo. Já vimos que a palavra "ecumênico" sempre teve na Igreja a conotação de algo relativo a uma reunião de toda a Igreja, não de uma reunião interreligiosa. Vimos igualmente que o relativismo é algo totalmente contrário à fé cristã.

Como então se coloca o afã "ecumênico" da Igreja, no que diz respeito ao diálogo com os protestantes e cismáticos orientais?

Trata-se de, como Cristo, ir buscar à ovelha que está afastada, trazer para a Igreja aqueles que estão fora dela, quer formal quer materialmente. O Concílio Vaticano II pede, como norma pastoral, que isto seja feito partindo-se do que já é de conhecimento ou uso do herege ou cismático. Nisto o texto conciliar corrobora a imortal sabedoria do Doutor Angélico, S. Tomás de Aquino, que já dizia: "Ao debater com pagãos, uso a Razão; com judeus, o Antigo Testamento; com hereges, toda a Escritura".

Assim devemos perceber os reflexos da verdadeira Fé cristã que estão contidos em cada seita ou crença pessoal, para a partir destes reflexos incentivar o herege ao estudo para que ele perceba os erros e incoerências da falsa fé que tem.

"Ora", diria o indiferentista, "e os 'elementos de santificação' que existem nas seitas?" Respondo que eles existem, como podemos ver nos próprios documentos do Concílio, apenas em função da Igreja. Trata-se de, para usar uma parábola evangélica, migalhas que caem da mesa. Um batismo válido ministrado por uma seita protestante não é válido por ter sido ministrado por esta seita, mas sim apesar disto!

Assim um batismo válido ministrado por, digamos, uma seita pentecostal faz com que a pessoa que foi batizada torne-se não pentecostal, mas católica. Alguém que morra logo após um batismo válido ministrado por uma seita pentecostal morre como católico, e como tal é salvo.

Este pertencer invisível à Igreja, entretanto, não é garantia de salvação. Muito pelo contrário, aliás. Alguém que tenha nascido em um ambiente protestante, nunca tenha tido contacto algum com a verdadeira fé (situação evidentemente impossível no Brasil...) e siga a falsa fé em que foi educado após um batismo válido pode ser salvo, se, e somente se, ele nunca abandonar a Graça de Deus infusa pelo batismo.

Ora, como é abandonada esta graça? Pelo pecado mortal (pecado cometido deliberada e conscientemente em matéria grave). Assim a chance de um protestante se salvar está em não pecar nunca mortalmente após um batismo válido (e batismo é só uma vez: se ele foi batizado em criança é este o batismo válido; se o foi em adulto, não adianta reiterar o batismo: o segundo vale apenas por um banho sem sabonete...), seguindo assim sempre a sua consciência de forma irrepreensível e aceitando todas as graças dadas por Deus.

Ora, será que isso é comum? Será que é comum que uma pessoa, mais ainda, uma pessoa sem acesso ao Santíssimo Sacramento e fechada em um ambiente de mentiras e heresias, consiga sempre corresponder à graça de Deus de tal maneira que nunca, jamais peque mortalmente? Certamente que não.

Tal acontecimento é evidentemente raríssimo, mas pode existir. Devido a sua raridade e, mais ainda, à presunção em que implicaria confiar que ocorra tal comportamento, é um dever de caridade de todo católico buscar trazer à Igreja este pobre protestante, para que, tendo acesso aos Sacramentos e à Verdade, possa evitar as chamas eternas do Inferno.

A única outra chance que um protestante hipotético, nascido e criado sem contacto algum com a Igreja, poderia ter de salvar-se é uma perfeita contrição na hora da morte. O que é uma perfeita contrição? É um arrependimento completo de seus pecados, movido por um amor absoluto e perfeito a Deus. Por Deus vem o horror aos pecados, e Deus não deixaria de perdoar alguém que estivesse tão perfeitamente arrependido de seus pecados e a buscar a união com Ele.

Ora, o protestantismo desincentiva a contrição, vista por eles como demonstração de falta de fé. Afinal, eles acreditam que o pecado do homem é encoberto por Jesus, mas continua existindo; eles não acreditam em santificação do homem, mas acham que Cristo mente a Deus Pai, dizendo que o homem está sem pecado, para que ele possa entrar no Céu. Assim preocupar-se por um pecado cometido seria uma demonstração de falta de fé no "pistolão" celestial que os faria entrar no Céu mesmo sendo sempre pecadores. E é apenas, nesta heresia, a falta de fé que pode fazer com que alguém não seja salvo...

No caso de um católico que apostate e venha a ser, digamos, batista ou pentecostal, a situação é muito mais grave, assim como é gravíssima a situação de um protestante nascido em país católico (e que assim teve contato com a Verdade). Isto ocorre por uma razão muito simples: a Verdade atrai quem a busca, e a graça da conversão é sempre dada por Deus a todos, mesmo os piores pecadores.

O próprio fato de um católico apostatar da Verdadeira Fé e unir-se a uma seita é na verdade um ato de afastamento de Deus, de negação de Sua Graça. O nosso protestante hipotético que nunca tivesse conhecido a Igreja nem cometido pecado mortal, por exemplo, seria indubitavelmente alguém que, pela oração, pela caridade, pelos meios que estivessem a seu dispor, procurara sempre aceitar a graça de Deus. Este protestante hipotético, caso tivesse qualquer chance de contacto com a Igreja (nem que fosse pela TV ou pela Net), aceitaria a graça que Deus sempre está a oferecer a todos os pecadores e hereges e se converteria.

Assim um protestante em país católico ou, pior ainda, um católico que se tornou protestante é alguém que se negou a aceitar uma graça dada por Deus, escolhendo separar-se de Deus. Vemos assim como é perigosa esta situação. A pessoa escolheu, movido provavelmente por interesses outros (possibilidade de segundas núpcias, desejo de ser o árbitro final do certo e do errado - a exemplo de Adão e Eva no Paraíso...), abandonar a Cristo e inventar seu próprio "jesus", negando-se assim a aceitar aquilo que Deus pede dele e para o quê Ele oferece a cada instante os meios (a graça da conversão).

Mesmo que esta pessoa tenha cometido este ato (negar-se a aceitar a graça) sem ter consciência de seu erro, isto não deixou de ser um ato de separação de Deus. Trata-se de ao mesmo tempo a comprovação de uma negação provavelmente habitual da graça (posto que se ele estivesse habitualmente disposto a aceitar as graças dadas por Deus não teria negado a mais importante!) e uma decisão de não mais aceitar a reconciliação com Deus (feita pelo Sacramento que Cristo instituiu) após um pecado mortal que ele venha a cometer.

Além disso, provavelmente não durará muito para ele cometer um pecado mortal, visto o seu fechamento, doravante habitual, para a graça. Não podemos esquecer que é apenas pela graça de Deus livremente aceita que podemos não pecar; a nossa natureza sozinha nos leva a pecar. "Abyssus abyssum invocat", o abismo atrai abismo. Quanto mais a pessoa peca, quanto mais ela se afasta da graça de Deus, mais fácil se torna pecar.

O dogma (um dogma é algo que é Verdade Revelada, que deve ser crida por todo cristão; um exemplo disso é a Santíssima Trindade, Três Pessoas e Um Só Deus) nos afirma claramente que "Fora da Igreja não Há Salvação". Não é possível salvar-se fora da Igreja, que é a Comunhão dos Santos. Não é possível salvar-se em estado de pecado mortal, não é possível salvar-se em uma seita herética.

A eventual salvação de um herege vem de sua conversão ou, no caso de alguém que nunca, jamais, tenha tido acesso à Igreja, pela aceitação de todas as graças dadas por Deus, o que levaria a uma conversão caso ele tivesse a oportunidade; é a isto que se refere o documento *Diálogo e Anúncio* do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso: "Em muitos casos, eles já podem ter respondido implicitamente à oferta de Deus de salvação em Jesus Cristo; um sinal disto pode ser a prática sincera das próprias tradições religiosas, à medida que elas contêm autênticos valores religiosos. Podem já ter sido atingidos pelo Espírito e, de certo modo, estar associados, sem o saberem, ao Mistério Pascal de Jesus Cristo (cf. GS 22)."

É o caso de alguém nascido protestante ou até pagão, sem jamais ter tido contato com a Fé Cristã verdadeira, que tenha sempre, ao longo de sua vida, respondido "sim" a tudo o que Deus dele pediu, praticando sinceramente as práticas religiosas de sua comunidade, no que elas contém de conforme à Lei Natural. Assim alguém que tenha sido criado, digamos, em uma comunidade de adoradores de ídolos que fazem sacrifícios humanos não poderia jamais tomar parte nos ditos sacrifícios, abomináveis à luz da Lei Natural que todos nós já temos inscrita em nosso coração e que não precisamos aprender de fontes externas.

A associação deste hipotético pagão ou protestante com a Igreja, Corpo Místico de Cristo, ocorreria sem que ele o soubesse; sua resposta habitual de aceitação das graças dadas por Deus corresponderia, na Infinita Misericórdia do Senhor, a uma aceitação da oferta de Deus de Salvação no Cristo Jesus. Esta oferta só não foi aceita de forma explícita por não ter sido conhecida, pelo fato deste protestante ou pagão hipotético nunca ter visto um só católico em toda a sua vida.

Esta pessoa está assim unida de forma invisível à Igreja; ela está materialmente na Igreja, mas não formalmente, e só não está formalmente na Igreja por falta de oportunidade. Enquanto ela se mantiver dentro da Igreja, ainda que desta forma invisível, ela pode ser salva. Se um dia, porém, ela deixar de aceitar as graças dadas por Deus e pecar consciente e deliberadamente em matéria grave, ela só poderá voltar à Igreja se tiver uma perfeita contrição, já que não tem acesso ao Sacramento da Confissão.

Assim, portanto, é o dever de todo católico unir-se ao afã ecumênico da Igreja, buscando a conversão dos hereges e cismáticos, buscando trazê-los de volta à Igreja, fora da qual não há Salvação.

O Santo Padre João Paulo II, através de organizações com este objetivo, trata desta nobre missão no âmbito mais amplo, buscando fazer com que seitas e grupos cismáticos voltem à Igreja em bloco. Até agora já foram vários grupos a abandonar seus erros e voltar à fidelidade e obediência ao Romano Pontífice, condição necessária (ao menos implicitamente) para a salvação.

A nós cabe fazê-lo no âmbito individual, trazendo pessoas (amigos, conhecidos, vizinhos...) de volta à Igreja, de volta a Cristo, de volta à possibilidade de Salvação.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.