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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A Estola.


Por Kairo Neves

A estola é um dos paramentos mais ricos de significado no Rito Romano, consiste de uma faixa estreita de tecido de acordo com a cor da liturgia do dia decorada, geralmente com bordado. É usado na celebração da missa, dos sacramentos e dos sacramentais.
Papa Bento XVI usando estola
sobre as vestes corais

História

A estola não possui a mesma origem da casula, da dalmática e da alva, isto é, do hábito romano antigo; ao contrário, ela vem do oriente. Assim se explica que também nos ritos orientais existam paramentos muito semelhantes com a estola ocidental. Como a grande maioria dos paramentos, vem do uso profano. No princípio a estola, provavelmente, era uma tira de tecido muito fino destinada a limpar o rosto ou resguardar o pescoço; era distinta das classes mais altas.

Passado para o uso litúrgico ainda no oriente, logo deixou seu formato original e, já no século IV, passou ao formato de faixa.

Seu nome em grego é “Orárion”, até hoje assim se chama o paramento relativo à estola diaconal no rito bizantino.  Por conta deste nome, que os nórdicos acreditavam vir do verbo latino “orare” (orar, mas também, falar, pregar), o uso da estola logo passou a ser distintivo daqueles que tinham autoridade para pregar à assembleia dos fiéis, isto é os diáconos, presbíteros e bispos. Assim, ao fim do século VI, a estola já é tida como distintivo dos ordenados, ainda que houvesse já diferenças no uso por cada uma das ordens.

O Sínodo de Laodicéia proibia os clérigos menores, entre eles os sub-diáconos a usarem estola e regulamentava seu uso pelos diáconos, isto é, a tiracolo sobre o ombro esquerdo.  O Concílio de Braga II no século VI, que ordenou que os diáconos usassem a estola sobre a alva para distingui-los dos sub-diáconos.

Lembrando que quando falamos do uso da estola diaconal sobre o ombro esquerdo, nessa época, nos referimos estola que saindo de baixo do braço esquerdo, cruza as pontas sobre ombro esquerdo cai com as pontas tremulantes do lado esquerdo do corpo, como ainda se usa no oriente.
Orarion usado por diáconos
do Rito Bizantino


Apenas no século XII, a estola diaconal no ocidente, por conta na grande necessidade de simplificação do pensamento romano se encurtou, passando a ser preso sobre o braço direito. E no século XIV, passou para baixo da dalmática.

Os sacerdotes, porém, já nessa época usavam a estola sob a casula; os bispos sob a dalmática e a casula. Assim já se representou Santo Ambrósio em sua catedral no século V. O uso de os presbíteros cruzarem a estola sobre o peito surgiu no século VII, por ordem no Concílio de Braga III, apesar de só ser escrito no missal romano no século XVI, por São Pio V.

Em relação ao nome, apesar de seu nome primitivo ser usado para regulamentar o uso da estola, entre os séculos VI e VII, nos países nórdicos da Europa já se usava o nome estola no lugar de “orarium” que seria o termo latinizado de deu nome grego. Em meados do século XIII, o termo antigo foi completamente abandonado e o nome estola passou a ser exclusivamente usado no mundo latino.

O diácono

O diácono põe a estola a tiracolo, apoiada no ombro esquerdo e preza debaixo do braço direito. O diácono usa a estola assim com alva sempre que oficia em uma missa; nas celebrações solenes sobre a estola endossa com dalmática.

Estolão diaconal do rito romano
No rito antigo, durante períodos de penitencia, os diáconos não utilizavam a dalmática, então a estola diaconal usada era mais encorpada, chamada de estolone, estola larga, estolão. No rito novo, pode-se ter diácono oficiando em todas as celebrações eucarísticas, mas não necessariamente sempre usa a dalmática, tendo-a como um elemento de “solenização”. Assim, nas missas ferais, memórias e mesmo nos domingos da quaresma, segundo o costume, pode fazer uso de uma estola maior e mais larga, mas sempre, presa da forma convencional.

Fora da celebração eucarística, o diácono pode usar a estola com a dalmática para ministrar sacramentos e sacramentais e ainda liturgia das horas. Para celebração das LH em que se dá a bênção eucarística, o diácono usa estola diaconal com o pluvial. Para distribuir a comunhão ou tocar nos vasos que contém a sagrada eucaristia, ou ainda para receber a comunhão em missa que não oficie, faz uso da estola sobre batina e sobrepeliz.

Na forma extraordinária, os diáconos-assistentes não vestem estola, na forma ordinária, vestem-se como os diáconos oficiantes.

A estola diaconal de Paris

Estola diaconal de Paris
Existe na França, um modelo de estola diaconal em uso no rito romano e ao que parece aprovado para a arquidiocese de Paris, mais próximo ao formato antigo.

Apesar de parecer um interessante meio de retorno às fontes, essa estola têm mostrado-se um grande mal. Primeiramente por que nos parece um arqueologismo litúrgico, um paramento retirado do “túnel do tempo”, que já não se usa a muitos séculos em nosso rito por conta da própria evolução paulatina do rito. Ademais, essa estola tem dispensado o uso da veste que é própria do diácono, a dalmática.

A estola diaconal no Rito Ambrosiano.

Diáconos de Milão usando
a estola semelhante ao uso oriental.
Algo interessante da Arquidiocese de Milão é que, apesar da mudança do uso da estola ocorrida no universo romano, no rito ambrosiano a estola mante seu uso mais próximo ao dos ritos orientais, isto é, sobre a dalmática e com as pontas pendentes do lado esquerdo.

Outra diferença é que os diáconos-assistentes, apesar de não usarem alvas, portam a estola sobre a dalmática.

  O presbítero.

O presbítero usa estola com casula sobre alva sempre que celebra ou concelebra a Eucaristia. Usa ainda com pluvial para procissões, para expor o Santíssimo de forma solene, para dar a bênção eucarística solene e para alguns sacramentos celebrados de maneira mais solene, se esses se realizarem fora da missa.

Estola presbiteral cruzada
sobre o peito.
A maneira de usar estola com alva é tradicionalmente cruzando-a sobre o peito e prendendo-a com o cíngulo. Embora esse detalhe não conste mais nas rubricas do missal é vivamente recomendado aos sacerdotes manter este uso.

Sempre de cor roxa, usa-se com sobrepeliz para os sacramentos da confissão e unção dos enfermos. Para bênçãos em geral, e para a exposição e bênção eucarística, para tocar num recipiente com a sagrada eucaristia e para receber a comunhão usa-se de cor branca, igualmente com sobrepeliz.

Uso da estola com sobrepeliz
Quando se usa com sobrepeliz, os sacerdotes deixam a estola cair sobre o peito, paralelamente. A estola que se usa com sobrepeliz, pode ser a mesma que se usa com alva e casula. Existe, entretanto, um costume antigo de usar um modelo que é um pouco maior e possui por vezes um pequeno detalhe que liga as pontas da estola; é conhecida como estola pastoral.

O bispo

O papa com a estola à mostra
após retirar a casula para a adoração
da Santa Cruz
O bispo usa a estola ao redor do pescoço caindo paralelamente sobre o peito, seja com alva seja com sobrepeliz. Entre as duas partes da estola, o bispo usa a cruz peitoral, ainda que se possa fazer uso dela sobre a casula.





As ínfulas

O triregnum de Bento XVI,
com seu brasão bordado nas ínfulas
.
Mitra com as ínfulas
à mostra
As mitras latinas, bem como o triregnum, possuem duas tiras atrás, as chamadas ínfulas (infulae: do latim, tiras). Essas tiras são por muitos liturgistas relacionadas com a estola, seu uso é relacionado com a plenitude do sacerdócio. Assim, as ínfulas seriam uma reafirmação do simbolismo presente na estola.

A estola papal


Papa usando mozeta branca,
por ocasião do tempo pascal,
com estola dourada
Papa usando tradicionalmente
estola vermelha
com mozeta vermelha
O papa, enquanto bispo, usa a estola sempre com as pontas paralelas. Existe, entretanto, um uso próprio do Sumo Pontífice. O papa usa estola sobre vestes corais, pode usá-la toda vez que aparece em público, mesmo para alguma função não estritamente litúrgica. Apesar disso, não a tem usado para a oração do ângelus e outras ocasiões mais sociais e menos litúrgicas, mesmo usando vestes corais.

Essa estola é longa, até abaixo do joelho, ricamente bordada com arabescos, flores e folhas com extremidades mais
Pouco usual,  estola branca sobre mozeta vermelha.
alargadas e munida de franjas. A cor é sempre branca ou vermelha, de acordo com a ocasião, sem uma regra específica. Existe, porém, o costume de o papa usar mozeta branca durante o tempo pascal e com ela sempre estola branca (dourada); com a mozeta vermelha usa-se geralmente a estola vermelha, mas  por vezes o Papa usa também a estola branca.




Referências Bibliográficas:
·        Stefano Sanchirico, Cerimoniario papal, L’Osservatore Romano;
·        Pe. João Batista Reus, Curso de Liturgia;
·        Pietro Siffrin, Stola, Enciclopedia Cattolica, XI;

domingo, 3 de agosto de 2014

As Celebrações Litúrgicas na Ausência do Presbítero

O ministério ordenado é indispensável para a Igreja.
Os ministros ordenados exercem grandes ministérios junto à liturgia, seja na administração dos sacramentos, seja na pregação da sã doutrina. Seu ministério é indispensável para a vida da igreja. Desde o ministério petrino, vínculo da unidade da Igreja, passando pelo ministério episcopal, sumo sacerdócio, até o serviço dos padres e diáconos que, em cooperação com o Bispo, exercem o pastoreio de todas e cada uma das almas.

Ocorre por vezes, que a presença de um ministro ordenado, em particular de um presbítero não é possível a uma ou outra comunidade. A Igreja tem consciência dessa situação e se preocupa com a vida sacramental dessas almas. Para isso, tanto o Código de Direito Canônico, quanto os livros litúrgicos apresentam ritos a serem utilizados nessas situações.

Não se deve, porém, abusar de tais permissões. Criando comunidades subparoquiais, com o simples objetivo de “descentralizar” as celebrações dos templos. Esse erro é uma traição às comunidades primitivas que sempre tiveram seu fundamento na presidência do Bispo e, depois, de seus representantes, os presbíteros. A comunidade deve se esforçar por estar na presença do sacerdote, seja se unindo a igrejas maiores por ocasião das celebrações mais solenes do ano, seja por uma maior flexibilidade nos horários das missas dominicais que permita ao sacerdote celebrar.

Persistindo a impossibilidade da presença do ministro ordenado, a comunidade cristã celebre a palavra de Deus e, se for o caso, também os sacramentos que lhes são permitidos.

Os sacramentos que validamente se celebra na ausência do presbítero são o Batismo, o Matrimônio e ainda a distribuição da Sagrada Eucaristia, previamente consagrada.

Batismo

Os ministros ordinários do Batismo são o Bispo, os presbíteros e os diáconos. Ocorre, porém, que o ordinário local pode designar um catequista ou outra pessoa para conferir o batismo, segundo o cânon 861 §2. Esse leigo confere, de acordo com o ritual do batismo, o sacramento da iniciação cristã consoante a orientação do Bispo.

Em função da importância deste sacramento, em casos de verdadeira necessidade, qualquer pessoa, mesmo não batizada, pode conferir validamente o batismo, utilizando matéria, forma e intenção válidas.

Matrimônio

Os ministros do matrimônio são os nubentes. Apesar disso, a Igreja considera válidos apenas os matrimônios realizados na presença de um ministro autorizado, normalmente o Bispo ou Pároco ou outro clérigo designado por um deles.

Nas regiões de escassez de clérigos, o Bispo diocesano, obtida a permissão da Santa Sé, pode designar leigos idôneos para assistir matrimônios e receber, em nome da Igreja, o consentimento dos nubentes.

Celebração da Palavra (com comunhão eucarística)

Os casos anteriores ocorrem, naturalmente, apenas em situações extremas em que os sacerdotes ficam um período longo sem se fazer presente na comunidade. O que leva a necessidade de se designar leigos para administrar esses sacramentos.

Entretanto, há de se considerar também celebrações na ausência do presbítero em casos menos raros. Por exemplo, em uma paróquia com muitas igrejas, onde o sacerdote não pode celebrar no domingo em todas as igrejas. É natural que, de acordo com a situação pastoral, o sacerdote consagre a eucaristia a ser distribuída durante a celebração da palavra realizada naquela igreja no domingo.

Essa celebração deve-se realizar com alguns cuidados. O primeiro deles é que os fiéis devem ser avisados que não se trata de missa. Muitas vezes ocorre confusão, por um horário de missa ser substituído ocasionalmente por Celebração da Palavra. Os fiéis têm o direito de serem informados, uma vez que, havendo possibilidade, é dever deles ir à Santa Missa.

A Santa Sé diz, ainda, que não se deve fazer tal celebração numa igreja em que a missa já foi celebrada ou vai ser em horários posteriores no mesmo domingo, ou ainda em que foi celebrada no sábado anterior.

Tais celebrações são presididas por um, e um único, leigo. Este age como “um entre os iguais”. Em se tratado de um seminarista, pode usar batina e sobrepeliz ou alva e cíngulo. Antes da celebração deve-se preparar o lecionário. Se for o caso de se distribuir a comunhão também o corporal, a galheta com a água, a chave do sacrário e a patena. Sendo necessário, também cibórios. Sobre o altar ou perto dele estejam dois castiçais com velas acesas. Não se acende o círio pascal, e não se admite o uso de incenso.

        O rito aprovado para esta celebração é muito diferente do Rito da Missa. Deve-se descontruir urgentemente a ideia de que a celebração da palavra é uma adaptação da missa. As expressões “o Senhor esteja conosco” ou “abençoe-nos o Deus todo poderoso...”, por exemplo, simplesmente não existem. O ritual com todas as fórmulas a serem usadas são descritas no ritual “Sagrada Comunhão e Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa”. É um rito bem mais simples que o da Missa.

       Pode-se iniciar o rito com uma pequena procissão. Para ressaltar que a importante figura do sacerdote não se encontra presente, aquele que preside pode levar nas mãos uma estola da cor da liturgia que se celebra e colocá-la sobre a cadeira do sacerdote; ou realizar outro gesto simples que seja inteligível aos fiéis. Na cadeira do sacerdote, não se assentem os leigos, sob nenhuma circunstância.

Os ministros fazem reverência ao altar e sobem ao presbitério. Ninguém beija o altar. Os ritos iniciais constam de uma saudação simples “Irmãos e Irmãs, bendizei a Deus...”. Pode parecer estranho ao costume das comunidades, mas o ritual não diz que se deva começar a celebração com “Em nome do Pai...”.

O ato penitencial é feito como na Santa Missa, com uma das três fórmulas do Missal. Entretanto, não se acrescenta depois do ato penitencial o Kyrie. De igual maneira, o Glória e a Coleta não existem nessa celebração.

Passa-se então à liturgia da Palavra. Aquele que conduz a celebração, bem como os que lhe auxiliam toma lugar em cadeiras preparadas junto da assembleia fora do presbitério.

Sendo domingo, fazem-se as leituras do Lecionário Dominical, de forma habitual; em outros casos, podem-se usar os textos do dia ou outros mais apropriados. O evangelho é lido por um leitor, omitindo-se a saudação “O Senhor esteja convosco”. Como não é permitido aos leigos fazer homilia, esta se deve omitir. Entretanto, por concessão do Bispo local, pode-se autorizar àquele que preside a celebração que leia uma homilia escrita pelo pároco ou outro clérigo.

Não se diz o Credo, mesmo em domingo ou festa; faz-se a Oração dos Fiéis. É uma ocasião importante para se rezar, entre outras coisas, pelo clero, pelas vocações às ordens sagradas e pelo pároco.

Se não há distribuição da comunhão, reza-se o Pai Nosso e a oração conclusiva. Executam-se os ritos finais e os ministros se retiram.

Havendo distribuição da Sagrada Comunhão, passa-se à segunda parte da celebração. Se os ministros foram se sentar junto da assembleia, voltam ao presbitério nesse momento.

Abre-se o corporal sobre o altar. Aquele que preside, se for o caso, acompanhado por alguém que o auxilie, vai ao sacrário, tomam os cibórios e os coloca sobre o altar. Genuflete. Nesse momento pode-se fazer um ato de adoração, uma oração de ação de graças ou algo semelhante. É aconselhável inclusive cantar um hino litúrgico como o Glória ou Magnificat; mas deve-se evitar qualquer tipo de adaptação de oração eucarística. Aquele que preside e os que o auxiliam pode colocar-se nesse momento de frente para o altar, todos se ajoelham ao menos por alguns instantes diante da Santíssima Eucaristia.

Depois disso, reza-se o Pai Nosso, excluindo-se o embolismo, passa-se ao beijo da paz, se for o caso. Então, é feita a apresentação da hóstia e a comunhão. Todas as orações silenciosas que ocorrem na missa não aparecem nesse rito, com exceção da que aquele que preside reza antes de comungar “Que o Corpo de Cristo me guarde para a vida eterna”. Diferentemente das outras ocasiões, é permitido ao leigo que preside, e somente a ele, comungar pelas próprias mãos.

A comunhão é distribuída como de costume. Depois da comunhão, guarda-se certo tempo de silêncio sagrado. Aquele que preside pondo-se de pé, diz “Oremos” e conclui com a oração depois da comunhão.

Os ritos finais, a serem usados tanto quando há distribuição da comunhão, quanto no outro caso, constam da fórmula “O Senhor nos abençoe, nos livre de todo mal...”, a mesma do final de Laudes e Vésperas; e a despedida costumeira “Ide em paz que o Senhor vos acompanhe”.

Liturgia das Horas

Não poderíamos deixar de falar, é claro, da oração que a Igreja eleva aos céus durante todo o dia. A liturgia das horas, um conjunto de orações distribuída ao longo do dia, é um tipo de liturgia que a igreja realiza ininterruptamente. Os clérigos e os religiosos são obrigados a rezá-la, ao menos individualmente. Aqueles que vivem em clausura, os cônegos e alguns outros a fazem sempre em comunidade.

Também os leigos são convidados a rezar a liturgia das horas, principalmente as horas mais importantes, Laudes e Vésperas _ oração da manhã e da tarde. Essa oração se pode fazer de maneira individual ou de maneira comunitária e esta última pode ser ainda de forma cantada.

Nessa celebração, as partes próprias do presidente da celebração podem ser feitas por um leigo, de seu próprio lugar na assembleia. As leituras e preces podem ser feitas do ambão, sendo os leitores os únicos a subir ao presbitério. Incenso e homilia estão, naturalmente, fora de cogitação.

Todos ficam de pé durante o hino, as preces, o cântico evangélico e as orações e sentados durante a salmodia e as leituras. A liturgia das horas pode, ainda, ser celebrada diante do Santíssimo Sacramento exposto.

Conclusão


É natural que as celebrações litúrgicas tendam a ser presididas por clérigos, de maneira marcante por presbíteros, até por conta do ministério de dispensar os sacramentos, em particular consagrar a Santíssima Eucaristia. Entretanto, a Igreja olha com atenção também aquelas comunidades que não dispõem de clérigos, autorizando-as a celebrar os sacramentos que se pode confiar aos leigos, a distribuir a Santíssima Eucaristia, celebrar a Palavra de Deus e oferecer o sacrifício de seus lábios. A Igreja, enquanto Mãe e Mestra, é também sábia ao lembrar constantemente essas comunidades da importância do sacerdócio e de seu valor indispensável à salvação das almas, de modo que essas comunidades não se queiram tornar “republicanas”, mas estejam sempre à espera do Rei Jesus que vai ao encontro delas na humilde figura do sacerdote.

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Funeral Cristão


Por Kairo Neves

“Sic transit gloria mundi”

A morte impõe aos homens uma barreira temporal à sua existência, torna-os finitos e inevitavelmente vulneráveis ao passar dos anos, confinados em um curto intervalo de tempo. É responsável por mostrar que apesar de suas onipotências terrenas, não possuem dentro de si próprios o poder necessário para manter-se a si mesmo pelos séculos. Não, por acaso, nas cerimônias de coroação dos Santos Padres, um diácono era responsável por queimar um pequeno pedaço de estopa e dizia ao recém-eleito: “assim passa a glória do mundo”, exortando-o de que seus dias são finitos.


Entretanto, não se deve ver a morte como a mais tirana expressão da ira divina, mas deve-se ter consciência de que ela nasce da sabedoria e da bondade de Deus, que dá ao homem pecador todas as liberdades e potências, mas lhe nega o bem mais caro de todo o universo: o tempo. Este é propriedade de Deus, o atemporal e imutável. Aos homens é dada a graça de uma pequena porção de tempo.

A nós pecadores, este tempo serve para nos levar a viver uma vida santa, lutando constantemente contra os pecados. E a morte, fim certo de todos e cada um de nós, é-nos dada para que saibamos que nosso dia chegará, e que teremos que prestar contas do tempo que nos foi concedido nesta vida. Aqueles que o fizerem conforme a lei e vontade de Deus receberão como pagamento a eternidade. Já dizia Nosso Senhor na parábola que ao servo que bem administrou os bens do patrão foi dito: “Servo bom e fiel! Como te mostraste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da alegria do teu senhor!”Mt 25,21

Memento Mori

Não raramente, nos pegamos a pensar na morte. A alma humana, muitas vezes se desespera e se entristece ao pensar nessa realidade, e sofre. Não se deve considerar que tal sofrimento seja sinal de falta de fé ou mesmo de falta de oração. É sabido que até mesmo Nosso Senhor, antes de sua gloriosa paixão no horto das oliveiras, agoniado suou sangue. Certamente a esta cândida alma não faltava oração ou fé, tampouco conformidade com os planos divinos, mas naquele momento manifestava-se um sentimento humano simples e comum: o medo da morte.

Esse sentimento, ainda que nos seja um grande fardo, nos faz lembrar Deus e arrepender-nos de nossos pecados. Quantas almas, ao sentir sobre si a fria foice da Irmã Morte não se converteram e alcançaram, pela misericórdia divina neste momento derradeiro, a salvação eterna?

Et inclinato capite tradidit spiritum”Jo  19,30

Àqueles que padeceram de grave enfermidade, a Santa Madre Igreja pede que sejam dados os sacramentos, a unção dos enfermos, a confissão e a sagrada comunhão sob a forma de viático. De igual maneira, diz o Cerimonial dos Bispos, que o pastor diocesano em sua doença dê exemplo de piedade, recebendo os sacramentos, e sendo assistido por seu clero. A Igreja não deixe de fazer suas orações pelos agonizantes, tanto na Missa quanto no Ofício Divino, além da piedade popular, de maneira especial pela oração do Santo Rosário e na oração da Ave Maria; quando pedimos à Mãe de Deus: “Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

Tendo o fiel expirado, iniciam-se os ritos exequiais. Ao se receber a notícia da morte, antes de o corpo do fiel falecido estar presente, pode-se celebrar a primeira missa. Se as leis litúrgicas permitirem, já com paramentos fúnebres e próprios dos fiéis falecidos.

“Para onde foi o teu amado, ó mais bela das mulheres?” Ct6,1

Neste momento ainda de aceitação pela perda do ente querido e antes do início do velório, é louvável que a comunidade se reúna para consolar a família do falecido e, por meio da oração, peça a Deus o consolo para estes irmãos.

De fato, a oração no rito das exéquias não se faz apenas pela salvação da alma daquele fiel falecido. Esta se pode fazer em qualquer momento, antes ou depois da morte, é bem sabida a atemporalidade da oração. Mas a realização desses ritos junto ao féretro, entre o falecimento e o enterro, tem essa função secundária de dar consolo e esperança, por meio da fé cristã, àqueles que se veem diante do mistério da morte, mal aparentemente irremediável.

De acordo com a hora da morte, poderá o velório ter início à noite ou se estender durante ela. Assim, o Ritual das Exéquias traz a opção de se celebrar uma vigília na casa do morto, seja antes de se iniciar o velório, seja durante este. Sabendo-se que os familiares mais íntimos passam a noite em claro, a oração pode servir para dar-lhes ânimo. O rito de tal celebração pode ser presidido por clérigo ou leigo e é bem simples, constando de uma introdução salmódicarica em palavras de consolo e a liturgia da palavra como na Santa Missa. Também aqui se pode celebrar como o Ofício das Leituras, ou, se durante o dia, alguma(s) das horas canônicas convenientes.

Com chegada do corpo do falecido, antes ou depois desta vigília, pode-se dizer algumas orações indicadas no ritual. Convém utilizar salmos diferentes nessa oração e na vigília, principalmente se elas se fizerem uma seguida da outra. A partir daqui deve-se escolher uma estrutura segundo a qual se procederá até o fim das exéquias.

De Corpo Presente

A primeira e mais completa opção consta de três “estações”: No velório, na igreja e no cemitério.

À hora conveniente, próximo do horário de sepultamento, o sacerdote e seus assistentes dirigem-se ao local onde o fiel defunto está sendo velado. O sacerdote esteja revestido com alva ou sobrepeliz, estola de cor exequial, podendo fazer uso do pluvial da mesma cor. Algum diácono que o assista usa sobrepeliz ou alva com estola de cor exequial; se fizer uso de dalmática usará alva. Entre os assistentes, haja pelo menos um com a água benta e outro com a cruz processional, pode-se levar ainda castiçais com velas acesas e turíbulo fumegando.

Chegando à casa do morto (ou outro local onde ele esteja sendo velado) o sacerdote saúda os presentes dirigindo-lhes palavras de consolo, asperge o morto e diz um salmo. Conclui este primeiro rito com uma oração. A seguir forma-se o cortejo fúnebre até a igreja. À frente vai a cruz, se for o caso ladeada pelas velas e precedida pelo incenso. O caixão seja levado por último, imediatamente precedido pelo sacerdote.

Se se julgar mais conveniente, a procissão pode partir do velório sem a presença do sacerdote que aguarda a procissão à porta da igreja e ali diz as orações previstas para serem ditas na casa do morto. De um ou de outro modo, ao ingressar na igreja esteja o coro cantando um dos cânticos listados no próprio ritual. O caixão seja posto preferencialmente no chão. É recomendável que seja ordenado de acordo com sua posição na assembleia, isto é, se leigo seja posto com os pés voltados para o altar e a cabeça para a assembleia, se clérigo, o aposto. Ao lado do caixão é permitido colocar algumas velas ou, preferencialmente, apenas o círio pascal; sobre o caixão, o livro dos evangelhos.

Se o cortejo fúnebre chegar à igreja um tempo relativamente grande antes do início da missa, realiza-se o rito de recepção, que consta de um ritual eminentemente salmódico, com uma oração e uma leitura, possui a possibilidade de se substituir um dos salmos por uma oração dos fiéis abreviada; a oração do Pai Nosso conclui o rito.

No momento apropriado, tem início a missa exequial ou, como é conhecida popularmente, missa de corpo presente. Ela terá ritual próprio das missas pelos mortos, se assim permitirem as normas litúrgicas. O sacerdote troca o pluvial pela casula e, se estava usando sobrepeliz, neste momento, a depõe e veste a alva. A missa é celebrada como de costume, não se excluindo os ritos iniciais. A única parte desta celebração que o ritual das exéquias trata de maneira particular é a homilia, na qual ressalta que não se pode fazer qualquer tipo de elogio fúnebre.

No caso de não haver presbítero, pode-se manter o rito aqui descrito substituindo a Santa Missa pela liturgia da palavra. O Ritual dá a entender que, neste último caso, não se faz a distribuição da sagrada Eucaristia.

Finda a oração depois da comunhão, passa-se à última encomendação, se esta não se fizer no próprio cemitério. Ao convite do sacerdote, todos rezam alguns instantes em silêncio. Então o corpo é incensado: faz-se inclinação profunda, incensasse-se o ataúde com ictos, à mesma maneira do altar e conclui-se com outra reverência profunda. Na sequência, o defunto é novamente aspergido, a aspersão aqui tem um sentido muito profundo ao recordar o batismo, sacramento tão caro à salvação da alma. Conclui este rito, a prece da encomendação.

Forma-se, então, o cortejo fúnebre na mesma ordem descrita para a procissão até a igreja. O sacerdote se já não tirou a casula e voltou a por o pluvial antes da encomendação, o faz nesse momento; podendo ainda voltar a vestir sobrepeliz no lugar da alva. No caminho para a sepultura canta-se, a menos que o costume ache de bom tom conduzir a procissão em silêncio.

Ao chegar junto ao túmulo, se este já não estiver abençoado, o sacerdote o benze. Aqui vale lembrar que muitas vezes, pelos cemitérios no Brasil serem geralmente de propriedade do poder público, não são abençoados como cemitérios cristãos e, portanto há de se fazer a bênção da sepultura, uma por vez. Pode haver, entretanto, algumas localidades onde o cemitério e também a capela dele tenham sido abençoados, nesse caso omite-se a bênção da sepultura.

Se a encomendação não foi feita na igreja, será feita agora. O enterro pode ser feito ainda dentro do rito, nesse caso durante a deposição do caixão o sacerdote poderá dizer a oração do ritual, ou depois do fim da celebração. O ritual traz ainda uma opção de oração dos fiéis, que pode parecer pouco oportuna por já se ter realizada a oração dos fiéis na Santa Missa.

Por fim, diz-se o Pai Nosso e uma oração e o sacerdote conclui o rito dizendo “Dai-lhe, Senhor, o repouso eterno” e o povo responde “E brilhe para ele(a) a vossa luz”. Não havendo qualquer tipo de bênção ou despedida.

De corpo... Ausente

O segundo tipo de exéquias possui apenas duas “estações”, diferentemente da primeira na qual haviam celebrações na casa do morto (ou outro local onde se realizava o velório), na Igreja com a Missa Exequial e, por fim, no cemitério. Aqui tem-se apenas duas: na capela do cemitério, ou no próprio local em que se vela o morto e o cemitério. Neste caso, não quer dizer que não possa haver missa exequial, mas apenas que ela se celebra fora do funeral e, consequentemente, na ausência do corpo do fiel defunto.

Para dar início à celebração, o sacerdote revestido das mesmas vestes descritas para a etapa na casa do morto, se dirige à capela do cemitério (ou onde se realize o velório). O Rito possui uma pequena introdução que tem como foco consolar os familiares, após uma pequena liturgia da palavra e breve homilia, passa-se à última encomendação. Esta se realiza como no caso anterior e é seguida pela oração dos fiéis e uma oração.

O rito do sepultamento segue o mesmo esquema apresentado anteriormente, havendo também a possibilidade de se deslocar a última encomendação para depois da bênção do túmulo.

O ritual apresenta ainda uma terceira opção ainda mais simples. A celebração das exéquias em uma única parte a ser celebrada no próprio lugar do velório. Assim, não consta nem Missa de corpo presente, nem celebração litúrgica no cemitério. O sacerdote revestindo os mesmos paramentos descritos para os ritos na casa do morto, dá início à celebração de maneira semelhante. O canto de um salmo precede uma oração pelo morto, à qual se pode unir também uma oração pelos que sofrem. A essa altura, tem lugar uma pequena liturgia da palavra com homilia, seguida pela oração dos fiéis. De maneira análoga aos ouros ritos, faz-se a última encomendação. Termina aqui o rito.

A prática paroquial

Talvez você esteja lendo as linhas acima e achando que se trata de algum tipo de ficção. Não é pra menos, na atualidade, há muitos lugares em que se dá muito pouca importância para os funerais. O motivo disso, além do descaso de maneira geral com a liturgia está no fato de não valorizarmos o mistério da morte como deveríamos. Tornamos o funeral algo muito mais social, entendendo-o mais como “um adeus a nosso amigo”, “uma última homenagem” do que como as preces pela alma de um fiel falecido. Nos funerais, mais que em qualquer outro ambiente, nos deparamos com o mistério da morte, e nos preparamos para a nossa própria. Quão bom não é para a alma dos sacerdotes, celebrar tantas exéquias ao longo de sua vida, tendo consciência de que um dia também ele deverá prestar contas por que “todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será pedido; a quem muito foi confiado, dele será exigido muito mais!” Lc 12,48

Infelizmente a realidade que vemos hoje é diferente disso. Em primeiro lugar, o rito das exéquias é frequentemente substituído por outras celebrações não propriamente litúrgicas.  Depois, estas muitas vezes se resumem a uma simples bênção dada no velório. O cortejo fúnebre por vezes não possui a presença do sacerdote, tampouco da cruz processional. O próprio pároco, em muitas das nossas paróquias, designa os funerais aos seminaristas ou para membros da Pastoral das Exéquias ou Pastoral da Esperança.

É bem verdade que os afazeres do padre nem sempre o permitem presidir todas as exéquias, mas há de se combater ferozmente o hábito de o pároco confiar este rito aos leigos com frequência e sem causa grave. Assim, devem os sacerdotes se esforçar por estarem presentes nas exéquias de seus fiéis, celebrando inclusive a missa exequial de corpo presente. A presença do sacerdote é, por si, símbolo da esperança na vida eterna; além do que, a perda de entes queridos são os momentos mais delicados da vida de muitos de nós, um momento em que os familiares precisam mais do que nunca de assistência espiritual.

Extrapolando o funeral propriamente dito, as missas de sétimo dia, de um ano e de outras ocasiões raramente seguem os próprios das missas para os defuntos ou fazem uso de cor exequial.

Aliás, a cor exequial é outro ponto onde se peca. Deve-se ter a consciência de que a cor exequial do rito romano é o preto, o uso do roxo é também lícito, embora sua simbologia primária dentro do rito seja a penitência (quaresma), a vigília (advento), a enfermidade (unção dos enfermos) e o pecado (confissão) e não o luto propriamente dito, isto é, a morte. Nas missas fúnebres do Santo Padre ou naquelas por ele celebradas, faz-se uso do vermelho. Além disto, não se permite qualquer outra cor para os ritos fúnebres de adultos.

Em nosso país, há algum tempo originou-se a ideia de que não devemos celebrar a morte, mas a ressurreição, por isso em alguns sacerdotes passaram a usar o branco nos funerais. Isso é um abuso gravíssimo. Nas exéquias celebramos sim, o falecimento, a passagem da vida à morte. Não nos esquecemos da esperança na ressurreição, mas não a celebramos naquele momento. Assim como também a Santa Madre Igreja nos manda celebrar de maneira penitencial a Sexta-feira Santa, quando Nosso Senhor pareceu no suplício da cruz; para podermos, quando do Domingo de Páscoa (e não antes dele!), celebrarmos Sua gloriosa ressurreição.

Uma pequena observação que vale ser lembrada, é que a igreja prevê para as exéquias de crianças paramentos brancos. Portanto, nessa ocasião, usa-se branco nas exéquias.

Vetus Ordo

Excluindo-se todos os “maus-tratos”, o funeral católico como descrito no ritual próprio ainda é relativamente pobre se comparado aos ritos mais antigos. Um ponto em que se deve focar é na música. Embora não se tenha citado ao longo do artigo para não torna-lo enfadonho, as exéquias são permeadas de salmos, cânticos e antífonas. Musicando-os pode-se encontrar uma rica atmosfera espiritual. Além destes cantos apresentados no texto atual, pode-se fazer uso de outros mais antigos e encaixar-lhes onde as rubricas permitam; alguns que merecem ser citados são a antiga sequência Dies Irae, a Ladainha de todos os Santos com a resposta “Rogai por ele(ela)” e, é claro, o famoso Requiem que dá nome à própria missa de exequial:

Requiem aeternam dona eis, Domine,

Repouso eterno dá-lhes, Senhor,
Et lux perpetua luceat eis.

E luz perpétua os ilumine.
Te decet hymnus, Deus, in Sion,

Tu és digno de hinos, ó Deus, em Sião,
Et tibi reddetur votum in Jerusalem:

e a ti rendemos homenagens em Jerusalém:
Exaudi orationem meam,

Ouve a minha oração,
ad te omnis caro veniet.

diante de Ti toda carne comparecerá.
Requiem aeternam dona eis, Domine,

Repouso eterno dá-lhes, Senhor,
Et lux perpetua luceat eis.

E luz perpétua os ilumine.